O musical é a primeira adaptação para o teatro do livro, de autoria de Afonso Henriques de Lima Barreto, popularmente conhecido como Lima Barreto (1881-1922), publicado postumamente no ano de 1922. A adaptação foi realizada por Renato Carrera, e a direção é de Dani Ornellas e Renato Carrera, que juntos criaram a companhia Bruzun Company.
A obra Os Bruzundangas se apresenta como um diário de bordo de um brasileiro que viajou por este país fictício chamado Bruzundanga. Ele redige o relato para servir de reflexão para o Brasil como ensinamento, como exemplo.
O livro apresenta um conjunto de críticas, todas muito bem elaboradas, e com um tom bastante ácido, satírico, sobre os usos, os costumes, as instituições civis, sociais e políticas da República dos Estados Unidos da Bruzundanga, governada por uma “aristocracia doutoral e de palpite”, sendo da primeira que é escolhido o “mandachuva”, normalmente um advogado.
Lima Barreto redigiu a obra no contexto da Primeira República quando as práticas oligárquicas e coronelísticas vigiam na sociedade brasileira. A forma de governo republicana que se estabelecera no Brasil pouco alterara as estruturas da nossa sociedade.
O autor criou esse país fictício, a Bruzundanga, que possui inúmeras afinidades com o Brasil, como corrupção, racismo, elitismo, desrespeito as leis, entre outras, pois é deste último que ele quer criticar, satirizar. É o Brasil, o real, visto pelas lentes de Barreto, que ele retrata por meio da fictícia Bruzunganda.
E esse olhar crítico e satírico foi muito bem apropriado e adaptado por Renato Carrero, que o colocou em execução no palco. A dramaturgia adapta corretamente o texto literário, e deixa Lima Barreto falar, soltar seu verbo, vomitar toda a sua acidez, misturando literatura e teatro, num espetáculo que bebe da fonte do teatro de revista. As críticas por ele elaboradas nas primeiras décadas do século XX são bastante pertinentes ainda hoje. O tempo passou, mas as “velhas” práticas políticas, sociais e econômicas resistiram.
Em cena, os quatro atores – Dani Ornellas, Hugo Germano, Jean Marcell Gatti e Renato Carrera – iniciam o espetáculo inflamados! Eles cantam, dançam e interpretam seus respectivos personagens através da ironia tipicamente carioca, com aquele ar malandreado. Eles são um verdadeiro deboche, realizam uma esculhambação total, incorporando assim a lógica do texto de Barreto, que quer denunciar, bagunçar, anarquizar. Os gestos e trejeitos são muito engraçados, hilários. As coreografias estão bem elaboradas, e também caminham na linha do jocoso. Eles dão um verdadeiro show! Respiramos um ar cômico o espetáculo todo!
Ademais, o elenco apresenta um excelente diálogo com o público. Ensaiaram muito, se dedicaram exaustivamente, fato que deixa transparecer entrosamento e ajuste entre eles próprios.
Os atores estão embalados por canções originais cantadas ao vivo, e muito bem interpretadas. A direção musical é de Maíra Freitas, que acerta em suas composições bem rimadas, melodiosas, e apresentando um conteúdo que auxilia a compreensão do texto.
Convém salientar que Renato Carrera compôs uma única letra, a que inicia o espetáculo. As demais foram compostas a partir da seleção de frases do livro, buscando a rima e a coerência de ideias exprimidas pelo próprio Lima Barreto.
O cenário criado por Daniel de Jesus sugere ser a bandeira do Brasil. Uma parte dela está na parte traseira do palco numa estrutura vertical onde visualizamos a metade do losango e o círculo da bandeira. No piso do palco visualizamos a sombra da imagem em preto e branco.
O colorido da bandeira é dado pelos figurinos criados por Teresa Nabuco. Eles são simples e adequados nos tons verde, amarelo, azul, e branco. Os atores levam luz colorida á Bruzundanga, deixando assim transparecer a possibilidade de um futuro melhor, repleto de possibilidades. Luz é conhecimento, chance integração para os excluídos daquele país!
O cenário é composto ainda por cinco vasos sanitários. Quatro são cobertos por uma lâmina em tom dourado, com rodinhas, que são movimentados de um lado a outro. E há um que é em tom branco, o trono. Os vasos significam os “dejetos”, as porcarias feitas pelos políticos na vida nacional, com suas roubalheiras, desvios de dinheiro, máfias, assassinatos, entre outras ações. Como fede!
Por sua vez, o trono branco é o dos “caciques”, o dos “manda chuvas” de Bruzundanga, que mandam e desmandam com atitudes autoritárias e pouco democráticas, como o ministro Visconde de Pancome, ou o Presidente da Assembleia Nacional Constituinte.
A iluminação criada por Daniela Sanchez é bonita e simples, adequada às cenas, e predominam os tons azul, verde, e branco.
A peça é bem produzida, deixando transparecer o cuidado e o zelo de Bruno Mariozz com todos os detalhes do projeto.
O musical é uma excelente produção teatral, apresentando uma perfeita adaptação da obra do letrado Lima Barreto, elenco forte, e muita galhofa e sátira!
Excelente produção teatral!