A dramaturgia de Diogo Liberano se baseia nas versões de Medeia, de Eurípides e Sêneca, além da mitologia grega. Contudo, ela se inicia justamente de onde a tragédia clássica termina: no momento em que Medeia parte, suspensa em um carro alado, escapando.
Na construção de Liberano, Medeia interrompe o desfecho clássico e confronta, diante de Jasão, uma história que ficou sem resolução. A narrativa é construída como um confronto direto entre Medeia e Jasão, em que se busca esclarecer tudo aquilo que ocorreu, colocar os fatos em pratos limpos e realizar um verdadeiro acerto de contas. A dramaturgia tem o mérito de se afastar da visão predominante que retrata Medeia apenas como uma mãe assassina e uma mulher vingativa. O texto reflete sobre as violências que ela sofreu, as imposições, humilhações, opressões e amarguras que atravessaram sua trajetória, dando voz à personagem para que apresente suas justificativas, exponha suas memórias e relate suas dores. Portanto, Liberano propõe, acertadamente, uma releitura da tragédia.
Carolina Pismel e Paulo Verlings protagonizam atuações comoventes. Eles interpretam Medeia e Jasão, além de outros personagens da tragédia, como o rei Creonte. Estão unidos, entrosados e afinados em cena. Interpretam com qualidade e emocionam o público. São performances pulsantes, intensas e vibrantes. Frente a frente, os atores realizam um verdadeiro acerto de contas, travando diálogos profundos e densos, conduzidos com boa velocidade, clareza e excelente retórica. Estabelecem uma comunicação eficiente com o público. Trata-se, portanto, de uma atuação diferenciada e merecedora de elogios e aplausos.

Toda a atuação se desenvolve em associação com a cenografia e a iluminação. Os dois atores atuam sobre um tablado localizado no palco, onde se encontra uma casa cujas partes são removíveis em momentos de ruptura do texto. A encenação acontece em conexão constante com esse espaço: pelas laterais, no interior e até debaixo da estrutura, quando os atores se rastejam pelo chão. É nesse ambiente que Medeia e Jasão se confrontam, desconstruindo a visão hegemônica predominante sobre a personagem e abrindo espaço para uma nova narrativa. Toda a movimentação cênica acontece nesse tablado, e ambos interagem perfeitamente com a cenografia e com a iluminação, adequada a cada cena.
Paulo de Moraes constrói uma direção em que o texto está intimamente relacionado à luz, à trilha sonora, ao figurino e ao espaço cenográfico, em um conjunto harmonioso e complementar. Esse sistema cria um ambiente ideal para que os dois atores desenvolvam atuações de qualidade, trazendo uma nova leitura interpretativa de Medeia.
Os figurinos criados por Carol Lobato são adequados ao contexto da peça, de bom gosto e predominantemente em tons pretos, além de favorecerem a movimentação dos atores.
A cenografia criada por Paulo de Moraes e Carla Berri é criativa, original e bem elaborada. A casa com partes removíveis, instalada sobre um tablado, torna-se elemento central da encenação.
A iluminação de Maneco Quinderé apresenta um desenho de luz que contribui significativamente para realçar a interpretação dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo, dinamismo e complementando as falas dos personagens.
A música de Ricco Viana é funcional, adequada e dialoga de maneira eficiente com as cenas.
As atuações, o texto, a direção, a cenografia, os figurinos, a iluminação e a trilha sonora formam um conjunto coerente e equilibrado, conferindo excelência à montagem.
Excelente produção cênica!


