O texto de Ariana Harwicz — baseado no romance Morra, Amor e adaptado pela própria autora para o teatro — é um monólogo feminino, musicado, profundo, tenso, conflituoso, crítico, subversivo, irônico, sarcástico, reflexivo sobre a condição da mulher. Dá voz à figura feminina, é antipatriarcado, antissubmissão feminina, antirrealidade machista, antipapéis sociais definidos como sendo “de mulheres” (mulher, esposa e mãe), humanista, relacional e contemporâneo.
O texto tem o mérito de questionar o paradigma da imagem da mãe perfeita e amorosa, rompendo com o estereótipo da mulher plenamente realizada com a maternidade, bem como de explodir o mito do amor romântico do casamento.
Mariana Santos é a atriz protagonista. Ela tem uma atuação notável, apresenta uma interpretação refinada, de alta qualidade, e emociona. Ela é uma mulher insatisfeita, desencantada com a vida que leva no interior de sua casa, e quer se libertar, explodir o universo de esposa e mãe. Para fugir, ela busca a natureza e a floresta, para se libertar dos impulsos sombrios e dos pensamentos violentos que se fazem presentes em sua mente. Ela domina o texto, narrado em primeira pessoa, passando-o com clareza, utilizando uma linguagem acessível e uma boa retórica. Domina o palco, movimentando-se ilimitadamente e preenchendo os espaços. Estabelece uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação de qualidade e merecedora de elogios.

A atriz é acompanhada ao longo do espetáculo pelo músico Nigga, que toca ao vivo contrabaixo e sanfona, dando ao espetáculo uma sonoridade poética e sensível. Ele também assina a direção musical.
A direção de Victor Garcia Peralta focou no texto e deixou a atriz à vontade naquele palco para realizar sua apresentação emocionante e arrebatadora. Ela somente é atravessada pelo som da música tocada por Nigga.
O figurino criado por Karen Brusttolin é de bom gosto, elegante, em tom salmão, adequado ao tema e facilita a locomoção da atriz pelo palco.
A atriz traja uma camisola, roupa de uso doméstico, de quem está amamentando, aprisionada naquele ambiente.
A cenografia criada por Aurora dos Campos é criativa, bem solucionada e distribuída pelo palco. Um conjunto de painéis, sendo um vermelho e os demais com estampas de árvores, forma um bosque, espaço próximo à casa da personagem, que representa a natureza, um espaço de fuga do mundo doméstico que a sufoca. Ao longo de todo o espetáculo, esses painéis permanecem expostos. Ao final do espetáculo, eles são suspensos, e o palco fica vazio.
A iluminação criada por Maneco Quinderé apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação da atriz. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando a atuação de Mariana.
Morra, Amor é um monólogo que questiona verdades estabelecidas sobre a maternidade e o casamento; uma atriz com uma atuação contundente e digna de elogios; figurino de bom gosto e cenografia criativa.


