O espetáculo apresenta uma homenagem ao cantor e compositor Ismael Silva. Ele está inserido no contexto de nascimento do samba, e criação e afirmação das escolas-de-samba e dos sambistas.
As primeiras décadas da República brasileira foram marcadas por uma política governamental de perseguição as práticas e representações culturais afrodescendentes. Os praticantes das religiões africanas e os sambistas eram perseguidos pelas forças policiais, que eram impedidos de cultuar os orixás e batucar para entoar seus sambas. Exceção a regra foi a casa da tia Ciata – baiana quituteira e mãe-de-santo – espaço de liberdade das manifestações pretas.
Foi na região da “Pequena África do Rio de Janeiro” e bairros adjacentes que as vozes do samba irão ecoar e se espalhar, espaços da resistência negra. Inclusive onde foi fundada a primeira Escola de Samba, a Deixa Falar, no bairro do Estácio, tendo como um dos fundadores Ismael Silva, no ano de 1928, e os desfiles ocorriam na Praça Onze, até a construção da avenida Presidente Vargas.
Para lembrar, o termo Escola de Samba está associada a Escola Normal, que funcionava no Estácio, sendo os sambistas de fama então chamados de mestres ou professores. Daí o título do espetáculo “Professor-Samba”.
Ismael pertenceu a uma geração de sambistas, que como Sinhô, Pixinguinha, Noel, Cartola, Silas, entre outros, ensinaram a arte do samba em suas respectivas agremiações. Depois da Deixa Falar, surgiram outras como Portela, Mangueira, Unidos da Tijuca, entre outras. Noel desapareceu antes da criação da Unidos de Vila Isabel.

O musical é emocionante, culturalmente rico e profundo, valoriza o samba e a figura do sambista, biográfico, é uma célebre homenagem a Ismael Silva, resgatando os sambas que compôs como Se Você Jurar, Adeus, Antonico, Escola de Malandros, Ao Romper da Aurora, entre outros, e contribuindo para preservar a memória desse homem preto, simples, que pertenceu a primeira geração de sambistas. Foi preso por se envolver numa tentativa de homicídio, e padeceu todas as consequências dessa situação. Ficou recluso, caiu no ostracismo, e depois foi resgatado com homenagens prestadas. Terminou sua vida sem muitos recursos materiais. O seu lugar no panteão do samba é inegável, e o musical aponta nessa direção.
A dramaturgia de Ana Veloso tem o mérito de nos apresentar a vida do personagem de forma didática, e por meio de uma linguagem simples e popular, de forma que se compreende claramente o enredo, intercalada pelos belíssimos sambas que integram a trilha do musical, cuja correta direção musical é de Wladimir Pinheiro.
Ismael não é personificado por um único ator. O elenco é integrado por Edio Nunes, Jorge Maia e Milton Filho. Os três atores interpretam Ismael, bem como outros personagens que tiveram alguma relação com o sambista. Todos apresentam uma atuação impecável. Interpretam, cantam, se movimentam e sambam de forma magistral, com empolgação e determinação. Passam o texto com facilidade, de forma clara, poética, emocionante, e se comunicam bem com o público. Portanto, eles tem uma atuação de qualidade.
Os atores são acompanhados por músicos (Leo Antunes, Fabio D’Lelis, Marlon Julio, Marcos Passos) que dão ritmo e harmonia as composições interpretadas, como numa roda de samba, embalando o público.
Os figurinos foram criados por Wanderley Gomes. Os três atores estão elegantemente vestidos com um terno branco quando interpretam Ismael Silva, e usam chapéu panamá,
bem a moda dos anos vinte, trinta e quarenta do século passado, típico dos homens boêmios. Quando interpretam outros personagens, como Francisco Alves, Bide, entre outros, usam camisa sem manga em tons terrosos. Calçam sapato social.

A cenografia também criada por Wanderley Gomes é simples, bonita, e adequada ao espetáculo. É uma homenagem aos terreiros de candomblé que abrigaram as primeiras rodas de samba. Os batuques do samba e do candomblé ecoavam livremente naqueles espaços. Lembra também os bares, espaços bastante frequentados pelos sambistas. No teto há pendurados instrumentos musicais. Visualiza-se também um banco com um ponto de apoio onde está fincada a bandeira da Deixa Falar, a primeira Escola de Samba.
A iluminação criada por Paulo Cesar Medeiros é bonita, adequada ao espetáculo, e realça as interpretações dos atores em suas diversas cenas.
O espetáculo finaliza da mesma forma que começou, com o samba histórico do Império Serrano do ano de 1982, Bumbum, Paticumbum, Prugurundum. O elenco convida o público a participar, formando um pequeno desfile. Homenagem maior ao bamba do Estácio não há!
Professor-samba é um espetáculo que celebra a vida e obra de Ismael Silva, apresenta um elenco com atuação impecável, elegantes figurinos, e uma trilha musical composta por sambas inesquecíveis.
Excelente produção de artes cênicas!