O texto de André Curti e Artur Luanda Ribeiro é uma fábula trágica; erudita; reflexiva; crítica; complexa, densa e profunda; provocativa; irreverente; poética; instigante; ancestral; humanista; associa gestual, palavra, luz, som e artes visuais; e contemporânea.
Apresenta uma profunda reflexão sobre o ser humano, trazendo à tona a questão da alteridade, o medo e o desrespeito pelo “outro”, no caso, o homem-árvore, ser humano que anda com uma árvore na cabeça, fato que gera a não aceitação e a exclusão. Por ser um misto de ser humano e vegetal, um ser diferente e irreverente, é condenado por enraizamento indevido, por permanência ilícita. Por não ser aceito, foi considerado um estrangeiro no próprio planeta, no próprio solo onde respira. Seu objetivo maior é enraizar-se onde ainda se respira.
André Curti e Artur Luanda Ribeiro se apresentam de forma notável e merecedora de inúmeros elogios. André Curti interpreta o homem-árvore, personagem protagonista. Por sua vez, o homem-luz é interpretado por Artur Luanda Ribeiro.
André Curti está inicialmente nu, com uma árvore na cabeça, na posição vertical. Ao longo do espetáculo, ele coloca um “roupão” e permanece carregando a árvore, que passa a estar na posição horizontal, até finalmente ser fincada no solo. Ademais, passa a ter duas pedras posicionadas no chão, amarradas às suas mãos. E assim vai caminhando, de forma solitária, esforçando-se para se enraizar. Uma atuação de se tirar o chapéu! Durante todo o espetáculo, ele carrega a árvore, fato que exige equilíbrio, disciplina e fôlego. Um andar vagaroso, de quem procura algo. À medida que ele caminha, as folhas vão caindo, e os galhos, secando.
Numa visão secularizada, esse homem que anda carregando uma árvore, esforçando-se para enraizá-la, e que, por ser diferente, foi condenado, remete a Jesus Cristo, que, numa visão religiosa cristã, carregou a sua cruz, querendo enraizar a religião cristã no Império Romano, mas foi julgado e condenado.
Por sua vez, Artur Luanda Ribeiro interpreta o homem-luz. Ele pedala, pedala e pedala na engrenagem em forma de bicicleta. E, à medida que vai pedalando, vai gerando luz, produzindo energia, produto do seu esforço para se enraizar. Ele é vida, conhecimento e sabedoria. Ao mesmo tempo em que ilumina, o homem-luz também se consome e, às vezes, vai “escurecendo”, seja no palco, que vira uma penumbra, seja por dentro, sem que ninguém perceba. Mas ele não pode parar, porque a escuridão leva ao caos e às “trevas”. Portanto, a luz depende do movimento do homem-luz; quando ele para, ela cessa.
Os dois atores, para interpretar seus personagens, demonstram vigor físico, fôlego, equilíbrio, disciplina e concentração. Esforço desmesurado e contínuo! O corpo é exigido ao máximo. Ele tem que resistir. Não pode falhar. Toda uma preparação corporal é exigida, e, com certeza, eles passaram por um processo exaustivo e repetitivo de ensaios para alcançar esse nível de qualidade. Os dois personagens interpretados pelos atores realizam um esforço intenso para se integrar ao mundo e, assim, perpetuar a existência humana na Terra.
Para além da performance que exige bastante do corpo, os dois atores também falam. Se, nas apresentações anteriores da companhia, dominavam o som e a imagem, agora foi associada a palavra. Esta é verbalizada por meio de gravações, bem como pela palavra ao vivo. Essa palavra é crítica e reflexiva, mas também é poética e emociona. Sensibiliza o público, que fica atordoado com a beleza da mensagem.
A direção de André Curti e Artur Luanda Ribeiro é potente, ousada e irreverente, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações dos dois atores. Ademais, eles tiveram a ousadia de transformar a tecnologia em dramaturgia.
A iluminação criada por Artur Luanda Ribeiro oscila entre momentos de luz branca, que incide diretamente sobre os personagens, e outros de penumbra e escuridão. Há momentos em que, nas laterais do palco, elementos cenográficos em formato ligeiramente envergado irradiam uma luz vermelha. A iluminação está casada com a dramaturgia.
No fundo do palco, há uma tela branca que projeta a sombra dos dois atores interpretando seus respectivos personagens. Apresenta um bonito efeito!
Os figurinos criados por Karen Brusttolin são simples, de bom gosto, adequados aos personagens e facilitam a representação dos atores.
A cenografia criada por André Curti e Artur Luanda Ribeiro é criativa, apresenta soluções originais e é ousada. Ganha destaque a grande engrenagem em forma de bicicleta e o círculo repleto de folhas, cujas bordas parecem estar com labaredas de fogo, efeito produzido pela iluminação.
A trilha sonora criada por Federico Puppi dá ao espetáculo uma sonoridade poética, acompanhando o movimento, a palavra e a luz de forma articulada, além de conferir ritmo e dinamismo ao espetáculo. Ao final, a música ganha intensidade quando o homem-árvore se junta ao homem-luz, e este intensifica as suas pedaladas.
O texto é erudito, apresentando alto nível intelectual, com uma crítica e reflexão bem fundamentada e estruturada. Para alguns, pode parecer hermético, em função da sua densidade, profundidade e complexidade. Espetáculo sensível!
Texto, elenco, figurino, cenografia, direção, iluminação e trilha sonora formam um conjunto coerente e equilibrado, configurando a excelência do espetáculo.
Excelente e imperdível produção cênica!


