A apresentação não tem nenhuma palavra falada. A única exceção é o off em que Simone Mazzer lê um poema, com sua interpretação comovente.

Mas há coreografias, expressões corporais e dança. Atores, bonecos e o bailarino Bruno Cezario estão juntos e misturados, nos brindando com uma apresentação notável, esbanjando sensualidade e erotismo.

O bailarino Bruno Cezario (integra o elenco como ator-manipulador pela primeira vez) é de uma exatidão e precisão, marcas da qualidade da sua dança. E emociona ao dançar o fauno, em parceria com os bonecos do Fauno e da Ninfa, exalando sedução e atração, sobretudo com esta última. Uma belezura! No nosso ponto de vista, a segunda parte (“L’après-midi d’un Faune”) foi a melhor das três, pela técnica, pela emoção e pelas coreografias bem executadas. Bonecos e bailarino estavam em plena sintonia e afinação.

O quadro “SBFN2025”, criado, coreografado e dirigido por Miguel Vellinho, deixa transparecer o excelente trabalho realizado pela companhia com os bonecos. É de um capricho e cuidado que parecem de verdade. As articulações são perfeitas, e as coreografias deixam transparecer intensa sedução e fervor entre o vampiro e a personagem Verônica De Vitta.

A terceira parte (“O Desejo”) não teve bonecos. Foi a que menos nos despertou interesse. Apenas bailarinos (Bruno Cezario, Caio Cesar Passos, Diego Diener, Liliane Xavier, Márcio Nascimento e Mariana Fausto). E, quando vem à nossa mente a Cia. PeQuod, imediatamente a relacionamos ao minucioso trabalho com marionetes. Coreografias criativas e originais, realizadas em duplas, investigam as possibilidades do hibridismo, deixando transparecer a provocadora cena de corpos em desejo sexual pleno. Mas faltaram os bonecos para incrementar ainda mais a apresentação.

Foto: Renato Mangolin

A direção artística de Miguel Vellinho é impecável, tendo realizado um notável trabalho de associação dos bonecos com os atores-bailarinos, fato que produziu uma apresentação célebre sobre o tema do desejo, transformando-o numa proposta lúdica, sedutora, que mescla corpo, atração e fantasia.

Os figurinos do Ato I, criados por Kika de Medina, bem como os figurinos do Ato II, criados por Bruno Cezario e Kika de Medina, são de bom gosto, com bonita combinação de cores, leves, adequados e facilitam a movimentação dos bailarinos e atores-manipuladores.

A cenografia de Doris Rollemberg é criativa e adequada ao espetáculo.

O trabalho de confecção e escultura dos bonecos é de um primor, de uma qualidade, de uma perfeição. Parabéns a toda a equipe de criação!

A iluminação de Renato Machado apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores e dos bonecos. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando os gestos, as expressões corporais e as coreografias.

As músicas criadas por Mica Levi, Claude Debussy e Federico Puppi são de qualidade e adequadas ao espírito da busca do desejo.

“Desejo” é um espetáculo que associa dança, bonecos e erotismo; ganha destaque a segunda parte do espetáculo, com a apresentação de qualidade de Bruno Cezario, e uma trilha sonora envolvente e sedutora.

Excelente produção cênica!

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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