O texto de Mauricio Lima e Tainah Longras, baseado na obra original Tudo Preto, de De Chocolat, escrita em 1926, é musical; construído em quadros; fragmentado; dá continuidade e aprofunda as questões iniciadas no espetáculo Vinte; poético; valoriza as vozes dos atores pretos; associa dramaturgia, corpos pretos e sonoridade musical; crítico; reflexivo; bem-humorado; ancestral; reafirma a força política e estética do teatro de revista como gênero; estabelece pontes históricas entre 1926 e o tempo presente, mostrando as continuidades e permanências do olhar da sociedade sobre as pessoas pretas; memorialístico; questiona posições hegemônicas e hierárquicas, rompendo com visões tradicionais e com a branquitude; denuncia as violências e os traumas sofridos pela população negra; expõe, nos tempos atuais, a exploração sexual das mulheres pretas em fotografias de anúncios turísticos e propagandas de carnaval; contemporâneo.

O texto tem o mérito de mostrar que o movimento modernista de 1922 não foi formado apenas por artistas paulistas e brancos ligados à pujança da economia cafeeira. Os artistas pretos que viviam na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, também participaram e ofereceram sua contribuição.

Ao recuperar o texto Tudo Preto, de 1926, da Companhia Negra de Revistas, os autores dão visibilidade à atuação do grupo, retirando-o do esquecimento e trazendo-o para o centro da narrativa, em vez de mantê-lo à margem. As produções culturais negras são criativas, complexas e de grande mérito. Portanto, é urgente e necessário acabar com esse processo de apagamento. Ponto positivo do texto!

Convém ainda salientar que o contexto histórico do texto produzido na década de 1920 está relacionado ao processo de modernização pelo qual passava a cidade, sobretudo às reformas urbanas realizadas durante a administração do prefeito Pereira Passos.

Nesse contexto, diversos espaços urbanos deixaram de existir no centro da cidade — ruas, becos, vielas, morros, praias e lagoas —, enquanto as práticas culturais pretas eram censuradas e a população negra, perseguida.

O elenco é integrado por Afroflor, Beá Ayòóla, Juliane Cruz, Lucas Sampaio, Lux Nègre e Nely Coelho. Todos são pretos, talentosos e competentes. Estão unidos, entrosados, afinados, pulsantes e vibrantes. Formam um grupo homogêneo, com atuações consistentes e equilibradas, sem que um intérprete se sobreponha aos demais.

Apresentam interpretações refinadas e emocionantes. Cantam bem, com afinação, entonação e vozes pujantes. Dançam, executando diversas coreografias e poses inspiradas nas fotografias do espetáculo de 1926.

Dominam o texto, utilizando uma linguagem clara, concisa e acessível. Dominam também o palco, movimentando-se intensamente e preenchendo todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, entregam atuações de qualidade e merecedoras de elogios.

O elenco é acompanhado pelos músicos Pedro Paulo Junior e Rodrigo Ferma, responsáveis pelo saxofone e pelo trompete. Os atabaques, surdos, teclado, baixo e guitarra, por sua vez, são tocados pelos próprios atores e atrizes.

A direção de Mauricio Lima e Tainah Longras é criativa, irreverente e resultado de uma intensa pesquisa. As marcações precisas tornam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.

A direção de movimento e a preparação corporal são de Romulo Galvão, que concebe o corpo negro como produtor de conhecimento, memória e linguagem. O movimento carrega experiências, modos de existir e formas próprias de construir imaginários. As coreografias são adequadas, criativas e dinâmicas, além de evidenciarem os corpos dos artistas. O elenco também realiza um expressivo conjunto de poses.

A direção musical e a composição são de Muato e estão diretamente associadas à dramaturgia e aos corpos dos artistas. O trabalho incorpora a polifonia, a ideia de contracanto e os instrumentos de sopro, evocando a musicalidade de Pixinguinha. A sonoridade do espetáculo é notável e poética, com melodias agradáveis.

A direção de arte é de Júlia Vicente, que também assina a cenografia e os figurinos.

Os figurinos são simples, apresentam um colorido de bom gosto e uma combinação harmoniosa de cores, além de facilitarem o deslocamento dos atores pelo palco.

A cenografia é composta por uma escultura circular, localizada inicialmente na parte frontal e central do palco. Em um segundo momento, ela é erguida e permanece suspensa na parte traseira. Ao final, retorna à posição original.

A escultura materializa o volume de registros históricos reunidos pela equipe e dá continuidade à pesquisa iniciada durante a montagem de Vinte. É criativa, bem solucionada e funciona em associação com a iluminação.

A iluminação, criada por Dadado de Freitas, apresenta um desenho de luz que contribui para realçar as interpretações. As variações luminosas acompanham o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo, além de complementarem as falas e os cantos. A iluminação também valoriza a cenografia por meio das diferentes tonalidades utilizadas.

Texto, elenco, direção, cenografia, figurinos, sonoridade e movimento corporal formam um conjunto coerente e equilibrado, conferindo excelência ao espetáculo.

Excelente produção cênica!

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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