O texto de Eduardo Barata mescla ficção e história; é musicado, poético, comemorativo e feminino; celebra a experiência do tempo vivido, a memória, a ancestralidade e as relações geracionais; é emocionante, bem-humorado e divertido; valoriza atrizes veteranas, mulheres com uma forte carga de memória; enfrenta o etarismo; valoriza a voz das mulheres; confere centralidade à cultura paraense e à diversidade de seus costumes, ritmos e tradições; e apresenta uma abordagem contemporânea.

O espetáculo homenageia seis atrizes veteranas e experientes, mulheres com uma forte carga de memória individual e coletiva, produto de suas respectivas trajetórias nos palcos, e cruza essas memórias com as do idealizador e diretor Eduardo Barata, que possui uma forte ligação familiar com Belém do Pará, no Norte do país, região marcada por uma grande diversidade de tradições, ritmos e costumes. Esse cruzamento é atravessado por uma musicalidade ímpar, com ritmos como lambada, lundu e carimbó, além de canções da MPB, conferindo ao texto uma dimensão poética e sensível.

O texto não é uma obra-prima, mas está bem construído e amarrado. Tem o mérito de conectar as memórias das atrizes veteranas às do diretor, resultando em um trabalho emocionante e vibrante.

No elenco protagonista temos Bete Mendes, Ítala Nandi, Ivone Hoffmann, Maria Pompeu, Mariah da Penha e Veluma Nunes. Elas são as Marias e estão reunidas em uma reunião de condomínio do edifício Galharufa, localizado em Copacabana. São a voz da experiência. E trazê-las ao palco, juntas pela primeira vez, é emocionante e representa um ato de valorização de um time de atrizes que já realizou muito pelo teatro brasileiro. É um ato que afronta o etarismo, manda-o para o beleléu e valoriza as veteranas da terceira idade.

Elas são competentes. Sentadas ou de pé, transmitem o texto com clareza e bom uso da palavra, emocionam e contagiam. Já não possuem a mesma força física e capacidade de locomoção de épocas anteriores, mas têm memória e lucidez, fatores que as tornam plenamente capazes de narrar suas lembranças e experiências, recordar seus mestres, principais papéis e referências. Passam emoção e emocionam!

A participação afetiva, no dia em que assistimos ao espetáculo, foi da atriz e jornalista Hildegard Angel. Sua atuação teve forte carga emotiva ao narrar sua trajetória inicial como atriz e sua ida para o jornalismo em função da conjuntura política do país na década de 1970, durante a ditadura civil-militar. Lembrou também os assassinatos de sua mãe e de seu irmão, Zuzu e Stuart.

O elenco é constituído ainda por Duda Barata, Cesar Werneck, Amanda Lívia, Madu Emmerick, Juliane Andrade, Jhessy S., Miguel Petereit, Morgana Bernabucci e Giuliano Laffayette. Se o elenco protagonista é integrado pelas atrizes veteranas, este é formado por jovens atores. Eles estão unidos, entrosados, ajustados, pulsantes e vibrantes. Interpretam, cantam, dançam, tocam instrumentos e se movimentam intensamente pelo palco e pela plateia. Passam a maior parte do tempo em pé, ao contrário das atrizes veteranas, que permanecem sentadas durante boa parte da apresentação.

Completa o elenco a Banda Carimbaby, integrada por Bárbara Vento, Camila Gonzalez e Maria Luisa Tonacio Rohl. Elas nos apresentam o universo do Pará por meio de suas danças e ritmos, como o carimbó, a lambada e o lundu.

O elenco protagonista e o jovem elenco estão unidos e intimamente associados. Se não houvesse química entre os dois grupos, a peça ficaria fragilizada e poderia resultar em um fracasso. Como aconteceu justamente o contrário, o êxito se deu!

A direção de Eduardo Barata é dedicada, ousada, corajosa, autêntica e emocionante, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco protagonista e dos demais atores.

A pesquisa de Claudia Chaves é realizada com esmero, profundidade e densidade. Trata-se de um trabalho executado por uma pesquisadora competente, que realizou um levantamento exaustivo de informações.

Visualiza-se também uma considerável pesquisa de imagens, com a exibição de fotografias de atores e atrizes já falecidos e que integram a memória das atrizes veteranas.

Os figurinos criados por Rute Alves são de bom gosto, coloridos, criativos e adequados. Traduzem elementos da cultura e da religiosidade paraense e facilitam a movimentação do elenco pelo palco. As atrizes que trajam roupas típicas, ao movimentarem suas saias rodadas e estampadas, formam um bonito visual.

A cenografia criada por Rostand Albuquerque prima pela originalidade, criatividade e reprodução adequada de elementos da cultura paraense, como a bandeira do estado e uma floresta de tecido, remetendo à Floresta Amazônica.

No início do espetáculo, uma pequena montagem do cortejo da procissão do Círio de Nazaré, com a Santa em seu andor, apresenta um bonito visual. O mesmo acontece com o manto existente no palco, que se mostra bem solucionado cenicamente.

A iluminação criada por Elisa Tandeta apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação das atrizes e dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas dos elencos.

A direção musical de Marco André é potente, selecionando um repertório que vai desde músicas e ritmos típicos do Pará até canções compostas ou interpretadas por músicos nascidos no estado, como Verde, interpretada por Leila Pinheiro, e Andanças, cuja autoria conta com a participação de um compositor paraense. O espetáculo possui uma trilha sonora rica, poética e diversificada.

A direção de movimento de Caroline Monlleo confere um dinamismo ímpar ao espetáculo, sobretudo por meio do jovem elenco, com ritmos coreográficos paraenses realizados de forma intensa e pulsante.

As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias é um espetáculo cujo texto é musicado e poético e cruza as memórias das atrizes veteranas com a ancestralidade familiar paraense do diretor; apresenta um elenco que mescla experiência e juventude; e possui uma trilha sonora composta por canções poéticas que representam a diversidade dos ritmos do Pará.

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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