A mostra apresenta obras inéditas do artista brasiliense Antonio Obá. A curadoria é de Fabiana Lopes.
A exposição busca explorar a conexão do artista com as suas origens e a influência da terra, o cerrado, em sua criação artística, aproximando-o de sua ancestralidade e existência.
Antonio é nascido na cidade satélite de Ceilândia, em Brasília, onde reside e trabalha. Ele tem os seus pés enraizados no cerrado brasileiro.

Visualiza-se na exposição um conjunto de esculturas, pinturas, instalações, desenhos e um filme performance, que apresentam um conjunto diversificado de linguagens, e deixam transparecer a relação do artista com o cerrado e a ancestralidade.
Na primeira sala, visualizam-se diversas produções artísticas de Antonio Obá. Neste primeiro espaço são exibidos desenhos de forte gestualidade, que evocam movimento, produzidos com grafite, giz de cera, extrato de nós, bico de pena e nanquim dourado.
Visualizam-se monotipias de estudos corpóreos; telas retratando a infância, Animus, e um natural da terra; telas representando a gênese, sono, relações interditas, o nascimento, Leda, e Doma; telas com indivíduos sentados, de pé e rindo noturnamente. São imagens de indivíduos, sejam de pé, sentados, deitados e em associação com animais; imagens de rostos; e da fauna local.
Numa vitrine, visualiza-se um conjunto de cadernos com desenhos e anotações realizados pelo artista, o que possibilita ao público conhecer o processo de criação. São registros do pensamento do autor, em que nem todas as ideais que ali se fazem presentes vingaram.
Predominam desenhos em preto e branco, com exceções de cor.


Na segunda sala, logo de início, visualizamos a tela Um Egum. Os eguns são os espíritos nas religiões afro-brasileiras, a força da ancestralidade, o culto aos ancestrais.
Antonio Obá é um artista preto. E, por meio da sua arte, busca resgatar os elos com os seus ancestrais, aqueles que foram forçados a deixar a “mãe África” e para cá vieram. Por aqui, buscaram resistir e preservar as suas tradições, transmitindo-as oralmente por gerações. São os legados da ancestralidade.
A seguir, visualizamos um conjunto de telas, em preto e branco, em carvão, intituladas Crianças de Coral: Nigredo. As crianças são a esperança do Criador, o futuro, aquelas que vão manter vivas as tradições, disseminando-as pelas próximas gerações.
Num segundo momento, visualizamos a instalação Ka’a Pora, constituída por 24 (vinte e quatro) peças de bronze.
A instalação é integrada por esculturas de galhos secos, e pedaços de pés, e pernas. Nas esculturas das pernas estão associadas as de galhos de árvores. O artista busca explorar a relação homem e natureza, os pés fincados ao chão, presos ao miolo da terra, seguros às raízes da sua terra.
A ideia de resistência se faz presente na instalação. Os galhos secos, sem vegetação alguma, muitas das vezes produto das queimadas e da própria seca, e a sua capacidade de renovação com as primeiras chuvas, e o brotar das primeiras folhas verdes. Assim como o mundo natural, a natureza humana também tem a capacidade de se renovar, reinventar e resistir.
Em diálogo com as produções de Obá, visualizamos expostas às telas de Marcos Siqueira, artista convidado, que apresentam um tom colorido, quebrando a monotonia dos tons preto e branco, e retratam paisagens como a casinha humilde com seus moradores; o homem no seu casulo; e um rio com banhistas, e um jacaré por perto. São imagens da terra, do local, produto das suas memórias e vivências, e também apresentam um caráter lúdico. Marcos nasceu na serra do Cipó, em Minas Gerais, e, como Antonio Obá, também tem seus pés fincados no cerrado.
Na parte final da segunda sala, três telas coloridas deixam transparecer a questão da religiosidade, a fé e a força da ancestralidade.

Crédito: Cortesia do artista e Mendes Wood DM, São Paulo, Bruxelas, Paris e Nova Iorque. Copyright do artista. Foto: EstudioEmObra
Na terceira sala é exibido o vídeo-performance Encantado, concebido pelo próprio Antonio Obá. O artista incorpora a figura de um peregrino, trajando uma roupa toda branca e carregando uma cruz na mão, que percorre um caminho no meio do cerrado, andando no meio da paisagem de capim e galhos secos. O vídeo evidencia o peregrino no meio do bioma, em contato com a natureza, as árvores e os rios. Ao longo do trajeto, o peregrino passa por um processo de interiorização, momento de reconhecimento e despojamento de si, um rito íntimo, que encanta e vira um encantado.
Na última parte da exposição, foram exibidas telas do artista convidado Marcos Siqueira. No nosso ponto de vista, a presença das 19 (dezenove) telas ficou dissociada e deslocada do restante da exposição. Não produziu o efeito de mostrar o vínculo entre Obá e Siqueira. Parece que ficou complementando o espaço vazio. Talvez tivesse sido mais interessante exibir em conjunto telas dos dois artistas e apresentar as suas conexões e diferenciações, como ocorreu na galeria 2, quando as telas de Siqueira foram exibidas complementando as de Obá. Naquele espaço, a decisão foi correta. Da forma exposta ao final, ficou parecendo uma exposição dentro da outra.
Contudo, tal ponderação não desconsidera a exposição nem as obras de Marcos Siqueira, que apresenta a terra e seus elementos, sua gente, seus rios, seus hábitos, suas paisagens, suas crianças e brincadeiras, entre outros. São telas coloridas, onde imperam tons variados, resultado das pesquisas sobre os pigmentos que imperam no solo natal. Tais produções artísticas são resultados das suas memórias e vivências, bem como apresentam uma visão lúdica e poética do torrão natal. É um registro de memória do seu espaço de pertencimento.
A exposição é voltada para um público especializado no campo das artes plásticas, embora qualquer indivíduo que admire as belas-artes também possa vir e admirar.
Finca-Pé: Estórias da Terra é uma exposição de artes plásticas que apresenta produções artísticas de qualidade relacionadas a terra, ao solo, as suas raízes; uma curadoria sábia que soube selecionar obras expressivas e originais; e dois artistas, Antonio Obá, e Marcos Siqueira, que deixam transparecer sua íntima conexão com a terra, e as suas distintas linguagens na forma como a expressam.
Ótima produção de artes plásticas!