Zoe, a neta de Nelson Mandela, precisa de realizar um trabalho sobre a vida do seu avô. A tarefa escolar tem que enfatizar a infância na aldeia sul-africana Qunu, local onde ele nasceu. Ela então inicia um diálogo com o seu avo, que apresenta as suas lembranças. E, envolvida no rastro das memórias do vovô, deixou sua mente vagar, e uma “fenda no espaço-tempo” transportou-a para o ano de 1926.
A partir desse momento, Zoe trava contato com o menino Rolihlahla, em sua aldeia, recebendo formação na sua tribo, e vivendo em amplo contato com a natureza. Mas a formação dos anciões não bastava. Ele ingressou na escola, onde ganhou um nome, Nelson, e começou a aprender os valores da civilização ocidental. A partir desse momento sua vida ganha novos contornos, sobretudo quando sua mãe precisa entregá-lo aos cuidados de seu tutor, o Rei Jongintaba. Desse momento em diante, Nelson terá que seguir seu caminho e enfrentar a brutalidade do preconceito e da desigualdade racial. E, nessa luta por um mundo mais justo e igualitário, ele se tornará o líder Nelson Mandela.
O texto de Ricardo Gomes e Mariana Jaspe apresenta uma linguagem apropriada ao público infanto-juvenil, e acaba por alcançar todas as demais faixas etárias. Passa a mensagem com poesia e lirismo, de forma simples e sem rebuscamentos, num tema que a priori pode parecer árido.
É bastante louvável ter um texto escrito sobre Nelson Mandela, direcionado ao público infanto-juvenil, e ser montando num palco. Porque é de pequeno que se aprende que o apartheid foi uma política brutal e estúpida criada pelo colonizador branco europeu e aplicada sobre os povos colonizados.
O texto ainda comenta com bastante perspicácia e sabedoria sobre a vida de Rolihlahla na aldeia onde nasceu. Sua convivência com os pais, familiares, o contato com as ovelhas, com a natureza, longe da capital e da vida dita civilizada. Nos possibilita conhecer uma África original, nativa, praticamente invisível aos nossos olhos.
O cenário criado por Mauro Vicente Ferreira é adequado e preza pela originalidade, sendo constituído por uma árvore (baobá) suspensa. Por sua vez, o piso do palco está forrado por um estampado africano. Complementam cabaças e jarros de água, bem como pedaços de tronco de árvores que servem de assento para o elenco. Nas laterais e parte traseira do palco há elementos cenográficos de telas de pano com pinturas rupestres de uma tribo africana (Tiébélé).
O elenco, no geral, é de excelente qualidade. Todos dão conta do recado, e sabem passar a mensagem do texto de forma clara, compreensível, e aprazível. Além de uma boa interpretação e movimentação, cantam muito bem. Portanto, é um conjunto de atores que estão ajustados e sintonizados.
Os figurinos criados por Tereza Nabuco são bonitos e de bom gosto, todos em tons preto e branco, algum cinza, inspirados em pesquisa de tecidos africanos.
Os bonecos de Mandela, Vó Tituba, e das ovelhas foram criados por Dante. São muito bem elaborados, próximos da realidade, e criativos.
A direção musical é de Wladimir Pinheiro, que nos brinda com belas canções, melodiosas, e apresentando letras ricas em conteúdo, e adequadas a temática do espetáculo.
As canções do espetáculo são bem executadas pela violoncelista Flávia Chagas, a percussionista Geiza Carvalho, o pianista Wladimir Pinheiro, e o trompetista Abraão Kimberley. Os dois últimos também são participantes do elenco.
A iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni é simples, não sofisticada, e adequada as diversas cenas do espetáculo.
E uma menção final, ao diretor artístico e idealizador do projeto, Arlindo Lopes, que teve a sensibilidade de levar aos palcos um tema tão importante, qual seja, o fim do apartheid e a igualdade de direitos para brancos e negros, e a trajetória de vida de um ser de luz.
Arlindo acreditou sempre. Submeteu a todos os editais ligados a área da cultura. Em nenhum conseguiu. E, no relampiar dos Deuses, quando ainda continuava acreditando, conseguiu no Oi Futuro.
O espetáculo é valido e necessário, pois Nelson Mandela foi um líder político mundialmente reconhecido. Conhecer sua história é imprescindível Sua luta não foi em vão!
Excelente produção cultural!