Por Bayard Do Coutto Boiteux 

No próximo dia 27 de setembro, celebraremos o Dia Mundial do Turismo. A data foi instituída pela então Organização Mundial do Turismo, hoje ONU Turismo, durante sua Assembleia Geral realizada em 1979, na cidade espanhola de Torremolinos. A primeira comemoração ocorreu em 1980. O dia 27 de setembro foi escolhido por marcar a adoção, em 1970, dos estatutos que deram origem à organização.

O objetivo da celebração é ampliar a consciência sobre a importância do turismo e demonstrar seu valor social, cultural, político e econômico. Mais do que uma homenagem aos que trabalham no setor, a data deve estimular uma reflexão mundial sobre a contribuição do turismo para o desenvolvimento sustentável, a criação de empregos, a inclusão social, a preservação do patrimônio e a aproximação entre os povos.

Em 2026, a celebração internacional oficial será realizada em San Salvador, capital de El Salvador, primeiro país da América Central a sediar o encontro. O tema será “Agenda Digital e Inteligência Artificial para Redesenhar o Turismo”, trazendo para o centro do debate as oportunidades, os limites e as responsabilidades relacionados à utilização das novas tecnologias.

A escolha não poderia ser mais atual. Vivemos um período em que aplicativos, plataformas digitais, sistemas automatizados e ferramentas de inteligência artificial modificam a maneira de escolher destinos, reservar hotéis, comprar passagens, conhecer atrativos e avaliar experiências.

A tecnologia tornou as viagens mais acessíveis, rápidas e personalizadas. Em poucos segundos, podemos comparar preços, elaborar roteiros, traduzir idiomas, localizar restaurantes e receber recomendações construídas a partir de nossos interesses. Para quem, como eu, dedicou quase cinco décadas ao turismo e à educação, essa transformação é impressionante. O viajante contemporâneo dispõe de instrumentos que pareciam ficção científica quando comecei minha trajetória profissional.

Entretanto, é preciso dizer com clareza: a inteligência artificial deve servir ao turismo, e não comandá-lo. Nenhum algoritmo substitui a hospitalidade verdadeira, o sorriso espontâneo, o conhecimento de um guia de turismo, a criatividade de um profissional qualificado ou a emoção provocada pelo encontro entre culturas. A tecnologia pode indicar um caminho, mas somente o ser humano é capaz de dar alma à viagem.

O turismo não é apenas uma atividade econômica. É também um poderoso instrumento de educação, inclusão social, preservação cultural e construção da paz. Quando praticado com responsabilidade, movimenta restaurantes, hotéis, transportes, comércio, eventos, produção cultural, artesanato e inúmeras cadeias de serviços. Gera empregos e renda, mas, sobretudo, aproxima pessoas que muitas vezes foram ensinadas a se enxergar como diferentes.

A inteligência artificial oferece possibilidades extraordinárias para a gestão dos destinos. Pode ajudar a organizar fluxos turísticos, prever períodos de maior procura, aprimorar a mobilidade, ampliar a segurança, identificar o perfil dos visitantes e facilitar o acesso de pessoas com deficiência. Também pode contribuir para a divulgação de localidades ainda pouco conhecidas, descentralizando o turismo e levando oportunidades econômicas para comunidades historicamente esquecidas.

Mas essa transformação apresenta riscos que não podem ser ignorados. A digitalização pode aprofundar desigualdades entre grandes empresas e pequenos empreendedores. Muitos profissionais ainda não possuem acesso adequado à tecnologia nem formação para utilizá-la. Hotéis independentes, guias, artesãos, produtores culturais e pequenos prestadores de serviços não podem ser abandonados em nome de uma modernidade que beneficie apenas os grandes grupos econômicos.

Defender a inovação exige, portanto, defender também a capacitação. Não basta distribuir equipamentos ou criar plataformas. É necessário preparar pessoas. Precisamos investir na formação dos profissionais, fortalecer os cursos superiores e técnicos de Turismo e promover programas permanentes de atualização. A inteligência artificial não pode se transformar em desculpa para eliminar postos de trabalho. Deve ser utilizada para valorizar talentos, ampliar competências e melhorar a experiência do visitante.

No Brasil, continuamos enfrentando problemas muito anteriores à inteligência artificial. Faltam planejamento, continuidade administrativa, sinalização turística, segurança, acessibilidade, informações em outros idiomas e integração entre os municípios. Muitas secretarias de Turismo ainda são tratadas como espaços de acomodação política, quando deveriam ser dirigidas por profissionais qualificados e com conhecimento de gestão.

O Rio de Janeiro, com sua força simbólica internacional, precisa assumir protagonismo nesse debate. Temos natureza, cultura, gastronomia, patrimônio histórico, criatividade e uma população com reconhecida capacidade de acolhimento. No entanto, não podemos continuar dependendo apenas de nossas paisagens. O visitante contemporâneo exige informação, organização, segurança, conectividade e serviços eficientes. É necessário utilizar a tecnologia para aproximá-lo de um Rio que vai muito além dos cartões-postais tradicionais.

Também precisamos enfrentar a proliferação de informações falsas, imagens manipuladas e avaliações produzidas artificialmente. A confiança será um dos grandes patrimônios do turismo nos próximos anos. O viajante precisa saber se o hotel existe, se o serviço anunciado corresponde à realidade e se as recomendações que recebe foram elaboradas com independência. Modernizar o setor sem estabelecer princípios éticos poderá gerar experiências impessoais, enganosas e profundamente frustrantes.

Depois de conhecer mais de 200 países e milhares de cidades, aprendi que as viagens mais marcantes não foram necessariamente as mais luxuosas ou tecnologicamente avançadas. Foram aquelas em que encontrei pessoas, histórias e gestos de generosidade. Recordamos menos o aplicativo usado para fazer uma reserva do que a pessoa que nos acolheu quando estávamos perdidos. A memória afetiva do turismo continua sendo essencialmente humana.

Quero, neste Dia Mundial do Turismo, parabenizar especialmente todos aqueles que não são “chapa-branca”, que não se acomodam diante dos discursos oficiais e que têm coragem de emitir suas opiniões com independência. O turismo não se desenvolve com elogios automáticos, números fantasiosos ou silêncio conveniente. Avança quando profissionais, pesquisadores, empresários, jornalistas, professores, estudantes e representantes da sociedade civil apontam problemas, apresentam propostas e contribuem efetivamente para a construção de políticas públicas mais sérias, transparentes e duradouras. Criticar com responsabilidade também é uma forma de amar o turismo.

Neste Dia Mundial do Turismo, devemos celebrar a inovação, mas sem transformar a tecnologia em um novo objeto de adoração. O futuro do setor dependerá do equilíbrio entre eficiência e sensibilidade, dados e emoções, inteligência artificial e inteligência humana. Precisamos de destinos modernos, mas também acolhedores; conectados, mas não desumanizados; rentáveis, mas socialmente responsáveis.

O turismo do futuro não será construído apenas por máquinas capazes de responder rapidamente. Será construído por pessoas capazes de ouvir, compreender e acolher. A tecnologia poderá redesenhar caminhos, mas caberá a nós decidir aonde desejamos chegar. E nenhum destino valerá verdadeiramente a viagem se, ao final, deixarmos a humanidade para trás.

Bayard Do Coutto Boiteux
Professor, pesquisador, escritor, consultor e profissional de turismo há 48 anos.

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