Com uma trajetória marcada pela convivência entre culturas, idiomas e realidades distintas, o diplomata Carlos Martins construiu uma carreira profundamente moldada pelas experiências internacionais. Neto de diplomata escolhido pelo Barão do Rio Branco e criado em um ambiente familiar ligado ao Itamaraty, ele percorreu desde cedo diferentes países e continentes, desenvolvendo uma visão ampla e tolerante do mundo. Ao longo de sua carreira, serviu em postos estratégicos como Madri, Moscou, Paris, Washington, Kuala Lumpur, Ancara e, atualmente, exerce o cargo de Embaixador do Brasil na Geórgia. Nesta entrevista, Carlos Martins compartilha memórias, desafios e aprendizados de uma vida dedicada à diplomacia, além de refletir sobre o impacto dessa escolha na esfera pessoal e profissional.
Chico Vartulli – Como se deu sua escolha pela vida diplomática?
Carlos Martins – Bem, foi algo quase natural. Meu avô materno, Carlos Martins Pereira e Souza, foi diplomata, escolhido pelo próprio Barão do Rio Branco.
Meus pais se divorciaram quando eu era muito pequeno e minha mãe se casou com um diplomata, Carlos Fernando Leckie Lobo. A partir dos 8 ou 9 anos de idade, comecei a viajar e a morar em diferentes lugares do mundo. Quando se vive em países distintos e se convive com culturas, valores, cheiros, paisagens e histórias diversas, aprende-se a perceber a existência do “outro”. Ao reconhecer isso, desenvolve-se naturalmente a tolerância, pois você também passa a ser o “diferente” para eles. Cresci, assim, em um ambiente diverso, que me ensinou a ver o mundo. Com esses laços familiares, a diplomacia foi um passo natural.
Chico Vartulli – Entre os postos que ocupou no exterior, qual lhe pareceu mais rico culturalmente?
Carlos Martins – Creio já ter respondido indiretamente a essa pergunta. Meu primeiro posto foi Madri. A Espanha é um verdadeiro caldeirão de culturas — País Basco, Catalunha, Andaluzia, Galícia, Castela, entre outras. Depois veio Moscou, ainda durante a União Soviética, composta por 15 repúblicas, experiência tão marcante que lá me casei com uma maravilhosa russa. Paris, sobre a qual pouco se pode dizer sem ser redundante. Bogotá, onde nasceram minhas adoradas filhas, terra de Gabriel García Márquez e de seu realismo mágico. Túnis, antiga Cartago, mais tarde conquistada pelos mouros. Washington, D.C., onde fui chefe do setor político e depois segundo na hierarquia da Embaixada. Kuala Lumpur, uma descoberta maravilhosa: moderna, linda, quente — muito quente —, situada na linha do Equador, onde malaios, chineses e indianos convivem em harmonia, com sabedoria e tolerância. Ancara, capital de um país não apenas importante, mas também belíssimo. E, agora, Tbilisi, na Geórgia.
Chico Vartulli – Um acidente na Turquia marcou sua missão. Poderia relatar um pouco sobre o ocorrido?
Carlos Martins – Estávamos em uma viagem de automóvel pela Turquia e pela Geórgia quando, em um hotel turco com vista para o Mar Negro, me apoiei em um balcão que acabou despencando. Três dos quatro parafusos da grade estavam quebrados ou corroídos, segundo laudo da polícia turca. Caí de uma altura de cinco metros e sofri múltiplas fraturas no quadril e uma no joelho esquerdo. Felizmente, estou vivo e andando. Cabe registrar a pronta ajuda do governo turco, que enviou um avião-hospital para me transportar de volta a Ancara, já que o trajeto de ambulância seria de cerca de 900 quilômetros.
Chico Vartulli – A vida da esposa e dos filhos de um diplomata exige constante adaptação?
Carlos Martins – A vida da família de um diplomata tem aspectos positivos e negativos. Entre os positivos está o privilégio de viver em diferentes partes do mundo e conhecer cidades e países não como simples turistas, mas convivendo com seus habitantes locais. Por outro lado, a chegada e a adaptação a um novo destino — geralmente sem amigos ou conhecidos — podem ser difíceis e penosas. E, em geral, após três ou quatro anos, quando os vínculos já foram criados, chega o momento de partir novamente.

Chico Vartulli – Como o senhor se sente no atual posto de Embaixador do Brasil na Geórgia?
Carlos Martins – Muito, muito feliz. Aprendendo e admirando. Trata-se de um país fantástico: um Estado jovem, mas uma nação antiga, com cultura riquíssima. Diz a lenda que foi daqui que o Velo de Ouro foi roubado.
Chico Vartulli – O Instituto Rio Branco pode ser considerado um centro de excelência na formação de diplomatas?
Carlos Martins – Não diria “o maior centro de excelência do mundo”, mas certamente é um centro de excelência da administração pública brasileira. Basta observar que o Brasil, país que faz fronteira com dez Estados diferentes e possui cerca de 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres, convive em paz com todos os seus vizinhos há mais de 155 anos. Só se dá real importância à paz quando ela se perde.
Chico Vartulli – Quais são seus próximos desafios na carreira diplomática?
Carlos Martins – Os desafios são diários. Mas trabalhar para o Brasil é extremamente gratificante.
Chico Vartulli – As constantes mudanças entre países são complexas?
Carlos Martins – São complexas, sem dúvida, mas também profundamente enriquecedoras.
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação
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