A chegada dos artistas aos palcos nem sempre acontece muito cedo na vida. Alguns, por diversos motivos, levam um tempo até exercer a arte que sempre esteve ali, silenciosa, esperando o tempo certo para ocupar o centro da vida. A trajetória nos palcos que a atriz Pamella Salsa (@pam_salsa) fez, nasceu após atravessar o mercado corporativo, encarar as próprias inseguranças e decidir recomeçar depois dos 36 anos, apostando tudo em uma vocação antiga. Hoje, entre palcos, curtas-metragens e pesquisas em palhaçaria, ela constrói uma carreira marcada pela inquietação criativa e pela entrega absoluta ao ofício.
Em um cenário artístico cada vez mais competitivo, Pamella fala sobre a necessidade de o ator contemporâneo ser múltiplo — alguém capaz de atuar, produzir, escrever, dirigir e, sobretudo, criar as próprias oportunidades. Sem romantizar as dificuldades da profissão, ela reflete sobre os “nãos”, a instabilidade financeira e a importância de permanecer em movimento, estudando e se reinventando continuamente. Sua fala carrega a experiência de quem precisou romper expectativas familiares, abandonar uma carreira consolidada e sustentar emocionalmente uma escolha movida mais por verdade do que por garantias.
Da palhaçaria ao audiovisual independente, passando pela assistência de direção e pela residência artística na Sede Cia. dos Atores, Pamella revela uma artista interessada menos em fórmulas prontas e mais em processos. Há um olhar generoso sobre o coletivo, uma curiosidade constante e uma maturidade que transforma vulnerabilidade em potência cênica. Nesta entrevista, ela fala sobre criação, medo, reinvenção e sobre o desafio diário — talvez o maior de todos — de continuar dizendo “sim” à arte. Acompanhe.

Rodolfo Abreu: Como você enxerga o mercado das artes cênicas hoje em especial para novos atores?
Pamella Salsa: Apesar de termos hoje mais possibilidades por conta da internet, o mercado da atuação ainda é muito desafiador. O ator precisa ser múltiplo, tem que ter noção de produção, por exemplo. Não dá pra esperar que batam na nossa porta, temos que criar nossas oportunidades: escrever, dirigir um curta metragem (mesmo com o celular), ir ao teatro (consumir peças, a gente aprende o que fazer e o que não fazer em cena indo ao teatro), manter uma rede de amigos que tenham objetivos em comum com a gente, gravar cenas e monólogos em casa (você está se mantendo ativo em um exercício, nunca se sabe a hora de um teste), não deixar de estudar, não esperar que te indiquem um texto, vá você atrás de conhecimento e esteja preparado para receber (muitos) “nãos”, rs. O “sim” demora, mas aparece. Importante: a atuação não pode ser a nossa única fonte de renda, se não lascou. Tenho amigos que conseguem conciliar pois tem trabalhos mais flexíveis, já outros, quando não estão atuando, estão operando som, montando luz ou figurino em outros projetos. Outro ponto, agora falando do outro lado: conversando com amigos atores, percebemos a falta da presença de produtores de elenco no teatro independente. Existe muita gente talentosa e disponível, ralando pra levantar um espetáculo. Falta mais visibilidade, rede social não é a única fonte.

Eu costumo dizer que eu me “assumi” atriz em 2022, mas hoje percebo que desde sempre eu fui. Em 2021, por incentivo de amigos, decidi estudar teatro. Eu passava o dia trabalhando na Barra, de noite ia pra aula em Laranjeiras e depois da aula ainda queria acompanhar minha turma no bar, pra me enturmar. Como que dorme? Ao longo dos anos percebi que aquela minha vida de Bruce Wayne de dia e Batman de noite não tava dando muito certo, eu tinha que tomar uma decisão, pois tinha dia que eu trabalhava 10 horas presencialmente e não tava conseguindo dar conta. Precisei trocar essa vida de Analista de gestão de pessoas para dar espaço à minha atriz, aos 36 anos, contrariando as expectativas de familiares e investindo um dinheiro que eu tinha guardado (reservado para um casamento, que não aconteceu) pra usar na minha formação em artes cênicas na CAL e me manter financeiramente por um tempo. Foi a melhor decisão da minha vida, mas, como toda decisão que envolve riscos e muitas mudanças, no início eu tive vários pensamentos intrusivos do tipo: “Você tá velha demais pra decidir ser atriz agora”, (eu me comparava com quem tinha começado no teatro aos 12, 15, 20 anos) ou “Como que paga conta sendo artista?”. Hoje eu entendo que o meu processo é diferente. Eu nunca estive tão realizada e certa do que eu quero pra minha vida como estou agora. Eu acredito em mim e isso já é suficiente pra eu não desistir. O lado bom de me tornar atriz com quase 40 anos de idade é a maturidade. Já ter passado pela cova de leões do mercado de trabalho te forja de um jeito e traz uma segurança emocional que é indispensável para sobreviver nessa área e não desistir no primeiro desafio. Hoje estou muito mais decidida, segura e assertiva nas minhas escolhas do que se eu tivesse iniciado mais jovem. A idade tem disso, nos dá senso de urgência, hoje eu me jogo sem medo, não tenho tempo a perder.
O maior desafio hoje para um artista não é começar, é conseguir continuar. É como um casamento, todos os dias a gente acorda e diz “sim” pra nossa decisão, mesmo com todos os percalços. Eu não me vejo de outro jeito.

Rodolfo Abreu: Há algum tempo você cursa Palhaçaria. Qual a importância dessa arte e o que pode dizer sobre como ela ajudou na sua carreira de atriz dramática?
Pamella Salsa: Antes mesmo de ser atriz, eu fui palhaça (comecei em 2021). Foi um divisor de águas na minha vida e depois de estudar teatro mudou completamente a minha relação com a atuação. Todo ator deveria passar pela palhaçaria. Ela te ensina a se manter no estado presente, a ter escuta, trabalha o improviso, ensina a não demonizar a vulnerabilidade, é autoconhecimento puro. O palhaço trabalha muito a partir do fracasso e da exposição, então isso acaba tirando o ator de um lugar de controle excessivo, puxa o tapete do ego.
A palhaçaria é muito mais do que “fazer o outro rir”, ela é, antes de tudo, fazer você rir de si, é recuperar aquela percepção de quando éramos crianças (olhar as coisas com ineditismo), é se aterrar no agora.
Sinto que fiquei mais disponível em cena, mais aberta ao jogo, mais conectada com o outro e menos preocupada em ‘performar’ emoções. Atualmente estudo e trabalho em uma escola de palhaçaria que tem na sua metodologia a psicanálise como base pro estudo da construção do palhaço. É de fato transformador!

Rodolfo Abreu: Você tem uma forte atuação no audiovisual em especial em curta-metragens. Em alguns projetos você também é produtora. Como tem sido a experiência e como vê essa parte da sua trajetória?
Pamella Salsa: Participei de algumas produções independentes como atriz e uma, em especial, além de atuar eu fui roteirista e diretora (“Só um sorriso”) que foi minha primeira produção de curta-metragem que agora está na fase final de edição. Descobri que sou muito exigente como diretora (rss), mas faz parte, primeiro filho, né? Aprendi a desapegar das minhas ideias (como roteirista eu desenhei o filme todo de uma forma na minha cabeça, mas na prática a gente vai descobrindo outras possibilidades, vai percebendo que nem sempre o que a gente imagina vai funcionar), a minha equipe agregou muito no projeto. Se a gente entrar numa neura de criar mil possibilidades, de nunca ficar satisfeito, o projeto não rola. Entre a autocrítica e a autossabotagem existe uma linha muito tênue.
Fazer cinema no Brasil é fácil e difícil ao mesmo tempo: temos hoje programas de edição mais acessíveis, o uso do próprio celular para filmar em alguns casos, mas tem o outro lado: arrecadação de verba, editais, festivais, é muita informação, muito detalhe, mas eu estou muito bem amparada (amigos meus que são excelentes profissionais, além de uma galera que ajudou a financiar o projeto), sem eles esse sonho não teria acontecido.
Rodolfo Abreu: Você fez assistência de direção no espetáculo “NÓS” com direção de Daniel Dias da Silva. Foi sua primeira incursão nessa área? Como foi? É algo que deseja atuar mais vezes?
Pamella Salsa: Sim, foi a minha primeira vez como diretora assistente e foi muito curioso porque quando eu fui convidada eu só conhecia o Daniel através dos trabalhos dele, então pensei: “Eita, será que vai dar caldo?” E deu! Que parceria massa! Ele foi super generoso e muito acolhedor, o processo inteiro foi leve, divertido e de muita troca, no final a gente se entendia no olhar! A parceria iniciou desde a leitura de mesa, exercícios de improviso até chegarmos nas marcas de fato. O Dani é um profissional muito inteligente, criativo e receptivo. Saudades demais desse tempo!
E sim, tenho vontade de trabalhar mais vezes com direção, você como ator, acaba ganhando uma visão mais macro, têm mais consciência cênica (isso facilita no decorrer de todo o processo), além disso tenho um flerte com preparação de elenco, é algo que também está no meu radar.

Rodolfo Abreu: Atualmente você faz residência artística na Sede Cia. dos Atores, com César Augusto. Como está sendo a experiência e o que essa residência trará para sua carreira?
Pamella Salsa: Que time! Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Suzana Nascimento e Pedro Emanuel. Esse ano o processo de pesquisa, treinamento e encenação está sendo feito a partir das obras de Shakespeare. Além desse corpo docente tão potente, a turma é muito completa, plural, disponível e madura, o que só torna o processo ainda mais enriquecedor! Durante as aulas nós somos provocados a trazer possibilidades cênicas e adaptações das obras de Shakespeare e a partir desses experimentos, vão surgindo possibilidades de montagens.
A cada aula que passa abre uma fenda nova na minha cabeça, rs, tô amando! Pra mim, particularmente, está sendo um sonho realizado porque eu não tive a oportunidade de montar nada de Shakespeare durante a minha formação na CAL. Ainda não fazemos ideia do que vamos apresentar, mas estou fortemente apegada ao processo, que está sendo umas das experiências mais ricas que eu já tive.
A residência iniciou em março e vai até dezembro (que é quando teremos as apresentações), apesar de ainda estarmos no âmbito investigativo, já dá pra sentir o sabor do que ainda está por vir!

Rodolfo Abreu: Quais são seus planos futuros ou próximos projetos que já possam estar engatilhados?
Pamella Salsa: Gravei agora em maio uma cena de mais um filme independente do Rafael Lopes (amigo meu cineasta – “Fragmentos” o nome do filme) e recentemente entrei em um projeto de uma peça inédita mas não posso dar detalhes agora (sempre quis dizer isso, rs).
Meus investimentos têm sido mais direcionados ao audiovisual (TV, série, cinema) estou batalhando pra conseguir fechar algum projeto nesse meio.
Tenho também alguns projetos autorais engavetados, mas como esse ano tem sido um período de muitas provocações e estímulos artísticos, quem sabe eles não saem da gaveta?



