Muitas pessoas que transitam pelo Centro do Rio talvez não imaginem que, na região da atual Praça XV, existia uma praia: a Praia do Peixe que funcionou como ponto de desembarque, comércio e circulação bem diante da Baía de Guanabara. Com a chegada da Corte portuguesa em Salvador, em de 22 de janeiro de 1808, e a quase imediata Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro, pelo então príncipe regente D. João no dia 26, a movimentação de embarcações se intensificaria naquela região.

Aliás, a transferência da Corte para o Rio de Janeiro, em março daquele mesmo ano, foi um acontecimento incomum na história mundial até então. Pela primeira vez, uma metrópole europeia deslocou para uma colônia do outro lado do Atlântico não apenas sua família real, bem como o centro de decisões políticas e administrativas de seu império.
Nessa nova conjuntura, o edifício do Paço se manteve como um espaço de decisões políticas e cerimônias oficiais, durante a vigência da monarquia no Brasil, até 1889. Ao redor dele, permaneceram a Alfândega, o desembarque de passageiros, comércio do pescado e de produtos de abastecimento que alimentavam o cotidiano da cidade.


O certo é que com o avanço da cidade sobre o mar, a Praia do Peixe desapareceu da paisagem carioca, como tantos outros trechos da antiga orla que foram sendo aterrados ao longo do tempo. Hoje, essa praia já não pode ser observada por quem passa pela região da Praça XV. Contudo, podemos encontrá-la em registros históricos e nas imagens deixadas por viajantes, como as do pintor francês Jean-Baptiste Debret.
Em 1843, a construção do Cais Pharoux promoveu uma nova fase para aquela região. A antiga praia, antes marcada pelo improviso dos botes, pelo trabalho dos carregadores, pela circulação de marinheiros, de comerciantes, de trabalhadores urbanos escravizados, de mercadorias e de passageiros, ganhou uma estrutura um pouco mais organizada para o desembarque no centro da cidade imperial. Vale ainda destacar que ao longo do século XIX, parte do movimento portuário se deslocou para áreas como Saúde, Gamboa, Santo Cristo e São Cristóvão.


O nome do cais vinha do francês Louis-Adolphe Pharoux, um ex-militar que se exilou no Rio de Janeiro em 1816 depois de lutar contra as tropas de Napoleão Bonaparte. Aqui o francês, se tornou empresário, construiu um hotel luxuoso na região do Paço, o Hôtel Pharoux, um estabelecimento luxuoso inspirado nos moldes europeus famoso tanto pela cozinha quanto pelos vinhos franceses. Aos poucos, o nome do hotel passou também a identificar o cais.
Aliás, o Hôtel Pharoux foi cenário para algumas das histórias criadas por Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o hotel aparece como parte da vida social da Corte, associado aos encontros, jantares e deslocamentos dos personagens pelo Centro do Rio. Machado de Assis faz seu narrador passar pela porta do hotel e recordar: “De costume jantava aí”. Isso mostra como o Pharoux ocupou um lugar importante na memória urbana e literária da cidade.

De todo modo, em fins da primeira metade do século XX, a antiga construção já não funcionava mais como um grande hotel e acabou demolida em meio às transformações urbanas da região. A construção do Elevado da Perimetral, cujo primeiro trecho foi inaugurado em 1960, alterou profundamente a relação da Praça XV com a Baía de Guanabara. Décadas depois, em 2013, uma nova reforma urbana transformou novamente a paisagem, com a demolição do elevado.
Porém, essa memória ligada ao porto ainda permanece no imaginário da Praça XV. Pois, é dali que partem as barcas que cruzam as águas da Baía de Guanabara em direção a Niterói, Paquetá, Cocotá e Charitas. A travessia por barcas foi iniciada em maior escala ainda no século XIX, e se tornou um meio popular de deslocamento que ajudou a aproximar bairros, ilhas e municípios.

Depois de muitos aterros, das reformas urbanas e da demolição da Perimetral, a Praça XV continua sendo lugar de passagem. No início, eram os botes e os pequenos barcos que ligavam os navios à faixa de terra. Já nos dias atuais, as barcas levam passageiros pela Baía. Como escreveu a historiadora Sandra Jatahy Pesavento, a cidade “também se dá a ler, pela possibilidade de enxergar, nela, o passado de outras cidades, contidas na cidade do presente”.
Desse modo, apesar das inúmeras transformações, a região da Praça XV esconde vestígios de antigas paisagens, de travessias e de memórias do Rio de Janeiro, que podem ser ainda desvendados. Em meio ao movimento apressado do Centro, o Chafariz do Mestre Valentim e a imponência de seus monumentos, a praça incita novas histórias sobre a cidade e sobre aqueles que atravessaram esse espaço ao longo dos séculos.
Para saber mais:
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1881.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. “Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias”. Revista Brasileira de História (online), São Paulo, v. 27, n. 53, p. 11-23, 2007.
Crédito das imagens:
1. Halley Pacheco de Oliveira. Fonte: Wikimedia Commons
2. Paul Tasset. Fonte: Wikimedia Commons
3. Jean-Baptiste Debret. Fonte: Wikimedia Commons
4. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons
5. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons
6. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons
7. Luis raibolt. Fonte: Wikimedia Commons
8. Alex Petrenko. Fonte: Wikimedia Commons


