Chico Vartulli – Olá, Teka! Qual é o aspecto original da instalação Peles da Natureza?
Teka Mesquita – Peles da Natureza nasce da ideia de transformar a floresta em matéria sensível. A obra é uma biocartografia amazônica construída com biomateriais, resíduos e elementos regenerativos, como couro de pirarucu, micélio, superfícies vegetais e biocompósitos que desenvolvo a partir de resíduos minerais e pigmentos naturais.
O aspecto mais original da instalação é justamente essa fusão entre arte, natureza e consciência material. Cada textura carrega memória, território e saberes da floresta. O mapa é costurado à mão, como um gesto de cuidado e reconexão.
Chico Vartulli – Qual é a importância de você estar exibindo a instalação na Milan Design Week, que acontece em Milão?
Teka Mesquita – Estar na Milan Design Week representa levar a Amazônia para o centro das discussões globais sobre arte, design e futuro. Mais do que apresentar uma obra, sinto que estou abrindo um espaço de escuta para a floresta dentro de um dos maiores palcos criativos do mundo.
É importante que a Amazônia seja narrada também por quem vem dela, trazendo uma visão mais sensível, humana e conectada aos territórios e aos saberes ancestrais.

Chico Vartulli – A instalação tem uma perspectiva conservacionista?
Teka Mesquita – Sim, profundamente.
A obra fala sobre regeneração, consciência ambiental e sobre a urgência de rever nossa relação com a natureza. Mas ela não parte do medo — parte da reconexão.
Ao utilizar resíduos e biomateriais, proponho um novo olhar para a matéria, mostrando que aquilo que muitas vezes é descartado pode ganhar novos significados e gerar reflexão.
Chico Vartulli – Por meio da instalação você também está evidenciando os legados da ancestralidade amazônica? Justifique.
Teka Mesquita – Sim. A ancestralidade está presente tanto na escolha dos materiais quanto na forma como penso e construo a obra.
A floresta carrega conhecimentos ancestrais sobre equilíbrio, tempo, cura e coexistência. Quando trabalho com matérias naturais e processos manuais, como a costura da biocartografia, também estou reverenciando esses saberes e modos de fazer que atravessam gerações.
A obra nasce dessa escuta sensível entre território, memória e matéria.

Chico Vartulli – Como se deu a sua formação como artista visual?
Teka Mesquita – Minha formação aconteceu de forma muito intuitiva e experimental. Sou arquiteta de formação, mas a arte sempre esteve presente na minha maneira de enxergar o mundo.
Com o tempo, comecei a explorar resíduos industriais, biomateriais e processos manuais como linguagem artística. Minha pesquisa foi surgindo da prática, da observação da natureza e da necessidade de criar obras com propósito e conexão ambiental.
Chico Vartulli – Quais são as suas referências (teóricas e práticas) na área das artes visuais?
Teka Mesquita – Minhas maiores referências vêm da própria natureza e dos territórios amazônicos. Inspiro-me nos ciclos naturais, nas texturas orgânicas e nos conhecimentos ancestrais ligados à floresta.
Também admiro artistas e pensadores que aproximam arte, matéria e ecologia, além de movimentos ligados à arte contemporânea, bioarte e design regenerativo.
Chico Vartulli – Qual é a definição de arte que você compartilha?
Teka Mesquita – Para mim, arte é uma forma de traduzir o invisível.
É um espaço de conexão, provocação e consciência. A arte tem o poder de gerar sensibilidade e transformar a maneira como percebemos o mundo e nos relacionamos com ele.
Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?
Teka Mesquita – Quero continuar expandindo minha pesquisa sobre biomateriais, arte regenerativa e sustentabilidade, levando essas narrativas para exposições, instalações e projetos internacionais.
Também desejo fortalecer diálogos entre arte, arquitetura, natureza e ancestralidade, criando obras que provoquem reflexão e despertem novos olhares sobre o futuro e sobre a nossa relação com o planeta.


