Trabalhar com teatro tem me feito refletir sobre algo: uma espécie de paradoxo: nunca foi tão interessante acompanhar o que acontece nos palcos e, justamente por isso, tornou-se cada vez mais difícil assistir a tudo.
Basta uma breve consulta à programação cultural para perceber a quantidade de espetáculos em cartaz. São comédias, dramas, musicais, monólogos, textos clássicos, dramaturgias contemporâneas, montagens experimentais. Sejam grandes produções, sejam trabalhos independentes, sejam atores consagrados ou artistas que talvez ainda sejam desconhecidos do grande público, mas já construíram uma trajetória consistente nos palcos.
É um excesso delicioso — e também um problema.
Porque, diante de tantas opções, escolher uma peça significa inevitavelmente deixar outras de fora. Digo isso por mim, mas também faço um exercício para o público em geral. O espectador precisa fazer uma curadoria pessoal. E, nesse processo, é natural que os nomes conhecidos levem vantagem. Um ator que possui uma carreira consolidada na televisão chega ao teatro acompanhado de uma espécie de selo de reconhecimento imediato. Seu nome está na memória do público, circula nas redes sociais, aparece nas entrevistas e facilita a decisão de comprar um ingresso.
Não há nada de errado nisso. O público tem seus afetos, suas referências e a legítima vontade de ver de perto artistas que já admira.
O problema aparece quando essa lógica passa a determinar quase sozinha o que merece ser visto.
O teatro possui uma característica que a televisão, por sua própria natureza, nem sempre consegue oferecer: é um território de descoberta. É possível entrar em uma sala sem conhecer o ator que está no palco e sair de lá tendo encontrado um artista que acompanhará sua carreira por muitos anos.
Há atores que fizeram da cena teatral sua principal casa. Não estão diariamente nas telas, não têm milhões de seguidores, talvez não sejam imediatamente reconhecidos quando caminham pela rua. Mas acumulam personagens, temporadas, prêmios, estudos, companhias e anos de dedicação a uma linguagem que exige presença absoluta.
São trajetórias menos visíveis, mas não necessariamente menores.
Talvez seja justamente aí que o espectador possa exercer uma curiosidade diferente. Em vez de perguntar apenas “quem está nessa peça?”, perguntar também “o que essa peça tem a me dizer?”. Em vez de escolher exclusivamente pelo nome do elenco, permitir-se, vez ou outra, escolher pelo diretor, pelo texto, pelo teatro, pela crítica ou simplesmente pela intuição.
Isso não significa abandonar os grandes nomes. Muito pelo contrário. Eles fazem parte da força da cena e ajudam a aproximar novos públicos do teatro. Uma celebridade no elenco pode ser a porta de entrada de alguém que, depois, descobrirá outros espetáculos, outros atores e outras formas de fazer teatro.
O que talvez esteja faltando é transformar essa porta de entrada em um corredor.
Porque o teatro não se sustenta apenas por seus nomes mais conhecidos. Ele se alimenta também dos artistas que ainda estão construindo seus nomes — e daqueles que construíram carreiras inteiras longe dos holofotes da televisão.
No Rio de Janeiro, onde a oferta de espetáculos é tão ampla, assistir a uma peça tornou-se quase um exercício de curadoria. E talvez valha a pena assumir esse papel com um pouco mais de ousadia.


