Marcelo Matos (@marcelomatos9) carrega no corpo aquilo que só o tempo é capaz de construir: uma trajetória feita de experiências que se acumulam, se transformam e reaparecem em cena quando menos se espera. Formado pela Martins Penna, com passagens pelo balé clássico, pelo canto popular e pela palhaçaria, o ator transformou essa formação múltipla em uma espécie de repertório multitalento. Há um pouco de cada aprendizado em seus personagens — inclusive quando o público não percebe de onde vem determinado gesto, ritmo ou maneira de dizer uma frase.
Em mais de três décadas de carreira e mais de 50 espetáculos, Marcelo atravessou linguagens e gerações, trabalhando ao lado de nomes como Antônio Abujamra, Camila Amado, Moacir Chaves e Paulo Autran. É também no encontro com esses artistas que sua história se revela: de Moacir, veio a descoberta consciente da própria voz; de Abujamra, entre tantos outros trabalhos, a experiência de dividir o palco com Paulo Autran em Arturo Ui. São memórias que ajudam a compreender um ator que parece enxergar a profissão menos como um ponto de chegada e mais como um exercício permanente de escuta e aprendizado.
Em cartaz em outubro, dois personagens radicalmente diferentes colocam essa experiência em movimento. Em Lábios que Beijei – o romance da Lapa (@labiosquebeijei.teatro), Marcelo interpreta o Recepcionista, figura perturbadora e quase farsesca que conduz o protagonista a uma realidade de violência, repressão e sobrevivência na Lapa dos anos 1960 e 1970. Ao mesmo tempo, chega em As Loucas de Copacabana (@asloucasdecopacabana) como Efigênio, o “carioca safo” e amante de Nádia, mergulhando em uma comédia marcada pela inversão de papéis. Entre o grotesco, o humor e a delicadeza, o ator encontra justamente aquilo que parece movê-lo: o prazer de experimentar.
Nesta conversa, Marcelo fala sobre formação, palhaçaria, voz, personagens, os encontros que marcaram sua carreira e o desafio de transitar entre o riso e o horror. Também revisita a própria trajetória — do jovem formado em 1993, cheio da certeza de que mudaria o mundo, ao artista que hoje se orgulha de viver exclusivamente de sua arte no Brasil há 33 anos. E talvez seja justamente aí que esteja o fio mais bonito de sua história: a experiência trouxe confiança, mas não levou o frio na barriga. Acompanhe a entrevista.
Rodolfo Abreu: Você estudou na Martins Penna, fez balé clássico na Escola Maria Olenewa e também estudou canto popular na Escola de Música Villa-Lobos. Além disso, tem uma história forte de formação na Palhaçaria. De que maneira essa formação variada que envolve interpretação, trabalho de corpo e de música aparecem hoje no seu trabalho de ator, mesmo quando o público talvez nem perceba?
Marcelo Matos: Todas essas experiências ficam na gente, no nosso corpo, na nossa voz, na nossa memória, eu carrego isso comigo, na vida e em cada trabalho que eu faço. Por exemplo, todo trabalho de humor que eu faço tem um pouco do meu palhaço. As pessoas podem não perceber mas ele tá ali, de alguma forma. E é assim que tem que ser, eu sou um somatório de tudo que eu experimentei, e a ideia é continuar acrescentando experiências, crescendo, melhorando.
Rodolfo Abreu: Ao longo de mais de três décadas de carreira, você trabalhou com nomes muito importantes e diferentes, entre eles Antônio Abujamra, Camila Amado e Moacir Chaves. Existe alguma orientação, provocação ou ensinamento de um desses encontros que tenha permanecido com você até hoje?
Marcelo Matos: Um dos que mais me marcou foi Moacir Chaves. Na escola de teatro eu tinha um probleminha de voz, por timidez, eu não soltava a voz, tinha a voz embutida. Foi ele que percebeu o problema e o potencial da minha voz, e me conscientizou disso. A partir daí passei a usar a minha voz com consciência e hoje é uma coisa marcante no meu trabalho. Ele foi o diretor da minha formatura na escola de teatro.

Rodolfo Abreu: Na peça “Lábios que Beijei”, você vive um personagem bastante sombrio, o “Recepcionista”, que apresenta uma realidade muito dura para o protagonista, o jovem Aguinaldo Silva conhecido como “A Escritora”. Como foi seu preparo para esse personagem e o como o enxerga?
Marcelo Matos: O recepcionista/comandante eu o vejo como um personagem não realista, ele é um aparte na peça, um palhaço sádico e louco. Na minha construção, tem um pouco do meu palhaço (olha ele aí), tem um pouco do coringa e tem um pouco do Drácula do Gary Oldman também. Embora sejam duas cenas pequenas, são muito intensas, e eu entro no limite da emoção, é cansativo fazer mas extremamente prazeroso.
Rodolfo Abreu: Seu personagem nessa peça faz as pessoas irem do riso ao horror em poucos segundos. Como é para você trabalhar esses extremos de forma tão rápida no espetáculo, para que funcione a mensagem que o autor quer passar?
Marcelo Matos: É um personagem que fala e faz coisas grotescas então eu procurei colocar quebras de humor pra não ficar tão pesado. E essa contradição acabou por deixá-lo mais interessante na minha opinião. Isso surpreende o público e eu gosto disso.
Rodolfo Abreu: O que acha mais importante nessa história da vida de Aguinaldo Silva que revisita a Lapa dos anos 1960/1970 e atravessa temas como desejo, liberdade, repressão e sobrevivência?
Marcelo Matos: Acho que o texto da peça fala de coisas infelizmente ainda atuais. Por exemplo, o fantasma da ditadura continua pairando sobre nós. Mas uma das coisas que mais me impacta é uma fala da Débora em que ela diz: você sabe quantos gays foram mortos na segunda guerra? Ninguém sabe porque isso não é falado. Se só morressem gays na segunda guerra ninguém falaria nada e até gostariam. Não é bem essa a fala mas essa é a ideia, e é a mais pura verdade.
Rodolfo Abreu: Ao mesmo tempo de “Lábios que beijei” você estará entrando na comédia “As Loucas de Copacabana”, que já tem uma estrada nos teatros do Rio com um elenco bastante entrosado. Como é estar em duas produções teatrais completamente diferentes ao mesmo tempo?
Marcelo Matos: Está sendo um desafio gostoso. Duas peças bem diferentes e dois personagens completamente diferentes. Gosto disso. O elenco da peça “As loucas de Copacabana“ me recebeu muito bem e estou gostando muito dos ensaios. Estou substituindo, mas tendo uma abordagem diferente do ator que fazia antes, acho que isso também é bom pro elenco porque renova a peça e a contracenação deles com o meu personagem.
Rodolfo Abreu: Em “As Loucas de Copacabana”, você interpreta o personagem Efigênio, que tem destaque na história como o amante de Nádia. Como está sendo integrar esse espetáculo e como está sua abordagem para esse personagem que passa por uma transformação durante a história da peça?
Marcelo Matos: Efigênio é o amante da Nádia, na descrição do autor ele diz que Efigênio é um carioca safo. Estou indo nesse caminho, fazendo um cara malandro metido a gostoso. É um personagem cômico, e o autor usa nele o recurso cômico da inversão de papéis, ele é obrigado a se passar por gay. E o humor vem dessa mudança e dos problemas em consequência disso. É muito divertido fazê-lo.
Rodolfo Abreu: Sua carreira passa pelo teatro, televisão, cinema, publicidade e dublagem. São linguagens que exigem tempos, corpos e níveis de contenção completamente diferentes. O que mais te agrada e que áreas gostaria de explorar mais?
Marcelo Matos: Todas essas áreas de atuação são maravilhosas. Mas logicamente umas tocam mais que outras. No meu caso, o que mais me toca é o teatro por ser artesanal, elaborado, construído pouco a pouco e ao vivo, com o público ali a sua frente recebendo o que você criou. Quero fazer mais cinema e TV. Fiz pouco cinema e nunca fiz uma novela inteira, só participações, quero viver essa experiência de participar de uma novela do início ao fim.

Rodolfo Abreu: Depois de tantos anos de profissão e de mais de 50 espetáculos, o que ainda é capaz de provocar aquele frio na barriga antes de entrar no palco? A experiência torna o ator mais seguro ou simplesmente faz com que ele reconheça melhor o tamanho do risco?
Marcelo Matos: A experiência te traz mais confiança, mas o frio na barriga sempre existe e é bom que assim seja. Faz parte e se não tivesse não teria graça. Em 1998 trabalhei com o grande ator Paulo Autran, na peça “Arturo Ui” de Bertolt Brecht, direção do Abujamra, e percebi que o Paulo ficou nervoso na estreia como todos nós, mesmo com toda experiência e anos de carreira que ele tinha.
Rodolfo Abreu: Olhando para o Marcelo Matos que começou a carreira nos anos 1990 e para o artista que você é hoje, o que pode dizer que mudou mais? E do alto de sua experiência, o que diria para os jovens atores que estão chegando agora ao mercado?
Marcelo Matos: Me formei em 1993 e você sai da escola de teatro com uma certa arrogância de quem acha que vai mudar o mundo. Depois você vai vendo que não é bem assim, risos. É gostoso ver os anos passando e você amadurecendo como homem e também conseguindo amadurecer o seu trabalho artístico. Sinto orgulho da minha história porque venho de família pobre e tive a coragem de lutar pelo meu sonho, me considero um sucesso porque vivo exclusivamente de arte no Brasil há 33 anos. E para os que estão começando eu diria pra não desistir dos seus sonhos, por que mesmo sendo bem difícil, vale a pena, vale muito a pena. Ouçam e observem os atores mais experientes porque eles têm muito a ensinar. Sempre esteja aberto a aprender e crescer, você nunca tá pronto.








