Com uma trajetória construída entre o teatro, a televisão e o cinema, Joe Ribeiro é um ator que fez da versatilidade uma das marcas de sua carreira. Desde que entrou pela primeira vez em uma aula de teatro, em 1998, não deixou mais os palcos — caminho que logo se ampliaria para trabalhos no audiovisual. Na televisão, esteve em novelas como Fina Estampa e Império, ambas de Aguinaldo Silva, além de participações em Haja Coração, A Força do Querer e Reis. No cinema, viveu Humberto de Campos em Divaldo – O Mensageiro da Paz, entre outros trabalhos. Também professor de teatro, Joe mantém uma relação com a profissão que ultrapassa o ofício: para ele, interpretar é um exercício permanente de estudo, descoberta e transformação.
É justamente essa disposição para se transformar que o leva agora a um dos trabalhos mais particulares de sua trajetória. Em Lábios que Beijei, Joe interpreta o jovem Aguinaldo Silva — ou “A Escritora”, como a personagem é apresentada no espetáculo — em uma história ambientada na Lapa do fim dos anos 1960, quando o futuro autor de novelas ainda era um jovem jornalista. A escolha ganha uma dimensão especial porque Joe já havia emprestado seu talento a personagens criados por Aguinaldo em Fina Estampa e Império. Agora, décadas depois de ter entrado no universo ficcional do autor, ele se vê diante do próprio homem que deu origem àquelas histórias.

A preparação exigiu mais do que reproduzir uma aparência. Joe deixou o cabelo crescer, emagreceu e mergulhou em livros, relatos e referências históricas para encontrar o Aguinaldo de 1970. A semelhança física, que chama atenção à primeira vista, acabou se tornando apenas a porta de entrada para uma construção mais profunda: compreender a personalidade, os desejos, a resiliência e as experiências de um homem que atravessou um dos períodos mais duros da história brasileira. Em cena, essa trajetória se mistura à violência da repressão militar, à perseguição contra pessoas LGBTQIAPN+ e à vida noturna da Lapa, recuperando uma memória que o espetáculo procura manter viva.
Para Joe Ribeiro, porém, interpretar essa personagem também é uma experiência de afirmação artística. Ao longo de quase três décadas de carreira, ele acumulou personagens muito diferentes entre si e chega a Lábios que Beijei justamente disposto a sair mais uma vez de sua zona de conforto. Entre a delicadeza e a brutalidade, o humor e a dor, o ator encontra em Aguinaldo jovem um personagem que lhe permite falar não apenas sobre o passado, mas sobre questões que permanecem urgentes no presente: liberdade, respeito, empatia e o direito de existir plenamente.
Nesta entrevista, Joe Ribeiro fala sobre a construção de “A Escritora”, a curiosa semelhança com Aguinaldo, a responsabilidade de interpretar uma pessoa real e ainda viva e o que o teatro continua representando em sua vida.

Rodolfo Abreu: Você interpreta Aguinaldo Silva jovem, personagem que na peça aparece como “A Escritora”. Como aconteceu esse convite e o que foi mais desafiador em transformar uma pessoa real, ainda viva e tão conhecida do público, em personagem?
Joe Ribeiro: O convite partiu do produtor e ator da peça Guilherme Del Rio em novembro e sou muito grato por isso. Ele e Isabella Barros, também produtora da peça, me proporcionaram sair da zona de conforto e viver essa personagem maravilhosa, que está viva, é admirada e permanece em atividade com folhetins de sucesso.
O desafio foi grande, pois tive que me preparar bastante, estudar obras que remetem ao período histórico da época e à natureza da personagem. Foi ótimo, pois me aproximei cada vez mais de “A Escritora” e, se eu já era fã, fiquei ainda mais.
Rodolfo Abreu: Muito tem se comentado sobre a semelhança física entre você e Aguinaldo jovem, para além da caracterização de época. Em que momento essa semelhança deixou de ser apenas uma característica visual e passou a ser uma ferramenta para encontrar o personagem?
Joe Ribeiro: Sim, meu cabelo se parece muito com o dele no período em que se passa a peça, mas me refiro ao tipo, não ao tamanho (risos). Quando fui convidado, eu estava havia três meses sem cortar; hoje estou há um ano. Deixei o black power, que era o estilo usado na época, e emagreci, perdi massa muscular para ficar mais próximo do Aguinaldo de 1970.
Durante os ensaios, isso foi me servindo de ferramenta e me senti cada vez mais próximo, passei a senti-la.

Rodolfo Abreu: Você já participou de novelas escritas por Aguinaldo Silva, como Fina Estampa e Império, e agora interpreta o próprio autor em sua juventude. Como essa relação anterior com a obra dele influenciou a construção do personagem?
Joe Ribeiro: Durante esse processo, fui conhecendo muito do Aguinaldo. Comprei livros, ouvi histórias e, de fato, muito está no livro e, consequentemente, na peça. Ele teve uma resiliência e um amor-próprio que foram fundamentais não só para chegar ao sucesso que todos conhecem, mas principalmente para sobreviver, sair daquela Lapa e escapar de alguns…

Rodolfo Abreu: O espetáculo também expõe a violência da ditadura e a repressão contra pessoas LGBTQIAPN+, mostrando como essa violência atravessava a vida cotidiana. Como foi lidar, em cena, com esse contraste entre a liberdade dos desejos e a brutalidade daquele período?
Joe Ribeiro: É forte, intenso e pesado… Muitos saem com o choro entalado, reflexivos e emocionados. Eu, particularmente, a cada apresentação vou sentindo a desconstrução de “A Escritora”, do que ela era e daquilo pelo que foi obrigada a passar diante de toda essa repressão física, verbal e mental.
Mas, apesar de tudo isso, é representado de forma linda e poética ao público. É necessário…

Rodolfo Abreu: Que mensagem gostaria que a peça Lábios que Beijei deixasse na mente do público que vem assisti-la?
Joe Ribeiro: Venham com o coração aberto! Sem preconceitos ou pudor. Venham para se emocionar, relembrar e nunca mais deixar que se repita no Brasil esse período tão duro de repressão. Vale a pena sair do teatro com a reflexão de que podemos e devemos colocar o respeito e a empatia acima de tudo.
Rodolfo Abreu: Você também é professor. O que traz dessa experiência para sua vida pessoal e para sua vivência no teatro?
Joe Ribeiro – Fazer essa personagem, que é parecida comigo como cidadão que luta por um mundo mais justo e que coloca o amor à frente, é muito prazeroso. Ao mesmo tempo, ela é bastante distinta de mim em sua natureza amorosa, afetiva e em seus trejeitos, o que me faz sair da zona de conforto.
Isso me faz ter cada vez mais certeza de que nasci para isso, de que o teatro e o interpretar são a minha vida, um grande amor necessário, o meu combustível diário.

Rodolfo Abreu: Como surgiu a interpretação em sua vida e quando decidiu virar ator profissional?
Joe Ribeiro: Surgiu em 1998. Foi nesse ano que entrei pela primeira vez em uma aula e nunca mais quis sair (risos). Achei o meu mundo, me encontrei e, a partir de 1999, comecei profissionalmente e nunca mais parei.
Mas, se olharem minhas fotos e vídeos da infância, eu estava quase sempre interpretando ou fazendo alguma graça. Sempre gostei de fazer arte e aparecer, dei muitos problemas nas escolas pelas palhaçadas (risos). Não adianta, a gente vem ao mundo com um propósito. No meu caso, não sei se foi ser artista ou arteiro; acredito que ambos (risos).
Rodolfo Abreu: Durante sua trajetória na interpretação, no teatro, na televisão e no cinema, você viveu personagens bastante diferentes e também muito especiais. Qual é a importância da versatilidade na carreira dos atores e que papéis guarda com carinho em sua memória?
Joe Ribeiro: A versatilidade é tudo na profissão, talvez na vida, né? No teatro e no audiovisual já fiz profissões e personagens bem distintos e acredito que é isso que faz o encanto, a disciplina e o estudo estarem sempre presentes.
Todos os papéis guardo com muita gratidão e carinho, mas é claro que alguns são mais especiais, como Jesus Cristo, na Paixão de Cristo, em 2024; Humberto de Campos, no filme Divaldo – O Mensageiro da Paz; Joel, de Fina Estampa; Marcão, de Império; e tenha certeza de que “A Escritora”, de Lábios que Beijei, também está entre eles.

Rodolfo Abreu: Quais são seus próximos planos profissionais? Algum outro trabalho à vista ou projetos em andamento?
Joe Ribeiro: Primeiramente, continuar fazendo por muito tempo Lábios que Beijei, pois, além de amar a peça e a personagem, adoro todos os envolvidos no projeto, tanto o elenco quanto a produção e a equipe.
Tenho também outro projeto teatral saindo do forno, que vou conciliar nos intervalos de Lábios que Beijei, e alguns trabalhos no audiovisual que já foram gravados, mas ainda não foram ao ar: um documentário de longa-metragem na Globoplay, um filme e um curta que em breve estarão nos cinemas e uma série na Globo/Globoplay. Somado a isso, o canal de humor Impurificáveis estará de volta a partir de setembro.



