Em 1889, o Rio de Janeiro enfrentava uma grave seca. A falta d’água provocava agitação popular quando o engenheiro Paulo de Frontin fez uma promessa bem ousada às autoridades e à população: a água chegaria em seis dias.
O episódio, que ficou conhecido como “água em seis dias”, ajudou a projetar o nome de Frontin, mas também revela algo sobre aquele momento da cidade. No final do século XIX, o Rio passava por inúmeras transformações. A expansão das estradas de ferro, as obras de saneamento e de higiene pública e as intervenções no espaço urbano ampliavam a atuação de um grupo profissional que ganhava cada vez mais importância na vida da capital, o grupo dos engenheiros.
O engenheiro civil, além de trabalhar na construção de estradas de ferro, encontrava nos centros urbanos um importante espaço de atuação profissional. Muitos desses homens estavam ligados ao aparelho de Estado, exerciam cargos públicos, lecionavam e, ao mesmo tempo, participavam de empresas e associações profissionais. Entre eles estavam Paulo de Frontin, Carlos Sampaio, Paula Freitas, Pereira Passos e Vieira Souto, personagens que estiveram à frente de inúmeros projetos, desde a construção de ferrovias e explorações geográficas até obras ligadas à higiene pública e ao saneamento urbano da cidade.
Muitos exerceram o magistério na Escola Politécnica e participaram da fundação do Clube de Engenharia, em 1880, associação profissional que pretendia contribuir para o desenvolvimento da nação, estreitando as relações entre engenheiros e empresários. Naquele final do século XIX, a engenharia constituía ainda um universo essencialmente masculino, tanto na formação quanto nos espaços de atuação profissional. Muitos desses homens ocupavam posições políticas e sociais de destaque e adquiriam cada vez mais importância nos projetos de transformação da capital.

Entre essas figuras, Paulo de Frontin ocupa um lugar especial. Filho de João Gustavo de Paulo Frontin, engenheiro e negociante, e de Eulália Hippolyti Laurence Villan, formou-se em 1879 pela Escola Politécnica. Ao longo de sua trajetória atuou como professor, engenheiro, empresário e político. Em 1889, casou-se com Maria Leocádia de Toledo Dodsworth, filha do 2º Barão de Javari, que mais tarde ficaria conhecida como Condessa de Frontin. A memória do casal permanece inscrita na cidade. No Rio Comprido, encontramos a Avenida Paulo de Frontin, e próximo a ela, a Praça Condessa Paulo de Frontin.

A sua trajetória continuaria ligada às grandes intervenções. Frontin participou da construção da Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil, exerceu a direção da Estrada de Ferro Central do Brasil e trabalhou com outros engenheiros de destaque, como Vieira Souto e Paula Freitas.
Mas, essa geração não se limitou a construir edifícios ou estradas. Em alguns casos, suas intervenções alteraram a própria geografia do Rio. Luiz Rafael Vieira Souto e Carlos César Sampaio foram fundadores da Empresa Industrial de Melhoramentos do Brasil e responsáveis pelo desmonte do Morro do Senado, obra que permitiu a abertura de várias ruas e avenidas, tais como a Avenida Mem de Sá e o arruamento em torno da atual Praça da Cruz Vermelha. No centro da cidade empregaram tecnologias de ponta para a época, como escavadeiras mecânicas a vapor. A terra retirada do morro foi aproveitada para aterrar áreas consideradas insalubres, como o Saco de São Diogo e a Praia Formosa, na atual região da Cidade Nova e na zona portuária. Para auxiliar o escoamento desse material, foi especialmente construída uma via férrea. Engenharia, saneamento e modernização urbana passavam a caminhar lado a lado.


Poucos anos depois, essa presença dos engenheiros se tornaria ainda mais evidente na grande remodelação do centro do Rio de Janeiro. A nova Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, deveria se tornar o centro comercial e financeiro da capital e, ao mesmo tempo, o símbolo de uma cidade que se pretendia moderna e civilizada. No planejamento da avenida aparecia novamente Paulo de Frontin, agora como presidente da Comissão Construtora da Avenida Central.

As reformas modificaram edifícios, ruas e o próprio cotidiano da população. Alteraram também a localização de muitas instituições que funcionavam bem ali no Centro. A Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, por exemplo, acabou transferida para um prédio na nova avenida, e a mudança provocou a desorganização de sua biblioteca e de seu arquivo. A instituição, fundada em 1883, reuniu engenheiros, intelectuais, militares e homens públicos envolvidos nos debates científicos e nos projetos de transformação do país.

A atuação desses engenheiros continuaria nas décadas seguintes. Já no início dos anos 1920, Carlos Sampaio voltaria a se envolver em uma transformação ainda mais radical da paisagem carioca, o desmonte do Morro do Castelo, tema de uma coluna anterior.
Observar a trajetória de Frontin e desses engenheiros permite compreender a maneira pela qual passou a se pensar e intervir sobre o espaço urbano do Rio de Janeiro. A cidade se convertia cada vez mais em espaço de atuação técnica, pois se constituía como um território onde tudo era possível, desde abrir avenidas, construir ferrovias, sanear, aterrar e remover morros, bem como deslocar e até expulsar os seus habitantes para outros lugares.
Muito do Rio que atravessamos hoje nasceu dessas intervenções, ainda que nem sempre percebamos, ao caminhar pela cidade, o quanto de sua geografia foi sendo redesenhada por esses homens.

Esta coluna se baseia na pesquisa desenvolvida pela autora para o livro O lugar da Geografia Brasileira: a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro entre 1883 e 1945 (São Paulo: Annablume, 2013).
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