Essa semana, num encontro entre amigos, uma conversa aparentemente banal acabou abrindo um debate incômodo. Alguém comentou ter achado forçado um programa de TV que, ao homenagear um artista, utilizava uma imagem dele ainda criança — recriada e animada por inteligência artificial — mandando um recado para sua versão adulta, que estava assistindo ali no palco. A proposta do programa era para ser emocionante. Mas nem todos ali se emocionaram. Alguns se inquietaram. Afinal, até que ponto aquilo ainda era homenagem… e quando passa a ser invenção?
Essa sensação não é isolada. Tenho reparado que casos de uso da inteligência artificial em situações semelhantes, porém para “reviver” pessoas já falecidas, vem crescendo e ganhando contornos cada vez mais complexos. O que antes parecia ficção científica agora está ao alcance de aplicativos, plataformas e produções audiovisuais. E junto com as possibilidades, surgem perguntas difíceis.
Hoje já é possível recriar rostos, vozes e expressões com um nível de realismo cada vez mais impressionante. Tecnologias conhecidas como deepfake permitem colocar qualquer pessoa dizendo algo que nunca disse: com entonação, ritmo e naturalidade assustadoramente convincentes.
Quando isso envolve pessoas falecidas, o fenômeno tem até nome: “ressurreição digital”. Em alguns casos, familiares chegam a ouvir versões artificiais da voz de entes queridos, recriadas por IA, em experiências que misturam emoção e estranhamento. E vejo que não agradam todo mundo.
Mas há um ponto mais sensível: não se trata apenas de recriar. Trata-se, muitas vezes, de inventar. E aí que o debate se intensifica. A IA não só reproduz, ela também cria falas, expressões e situações inéditas. Ou seja, coloca palavras na boca de alguém que já não pode consentir, discordar ou contextualizar.
Do ponto de vista jurídico e ético, essa prática ainda caminha em terreno nebuloso. Especialistas apontam que o uso da imagem e da voz de pessoas após a morte levanta questões sobre direitos de personalidade, memória e até exploração econômica.
Famílias de figuras públicas já começaram a reagir. Parentes de artistas como Robin Williams e George Carlin criticaram vídeos gerados por IA que recriam essas figuras dizendo coisas que nunca disseram, reacendendo debates sobre respeito e consentimento.
Temos o direito de continuar “criando” alguém depois que essa pessoa já não pode escolher? E mais: ao fazer isso, estamos preservando a memória ou distorcendo-a?
Para além do campo afetivo, há um impacto coletivo. Deepfakes já são considerados por estudiosos uma ameaça à própria noção de verdade, justamente por embaralharem a linha entre o real e o fabricado. Se qualquer imagem pode ser manipulada, qualquer fala pode ser inventada, e qualquer rosto pode ser recriado… o que ainda serve como prova?
Esse cenário não afeta apenas celebridades ou figuras públicas. Ele impacta a confiança nas relações, na informação e até nas instituições. Quando tudo pode ser simulado, a dúvida passa a ser permanente.
Seria simplista, no entanto, demonizar a inteligência artificial. Ela já se mostra revolucionária em inúmeras áreas: na medicina, auxiliando diagnósticos; na educação, personalizando o aprendizado; nas artes, ampliando linguagens e possibilidades criativas; no cotidiano, otimizando processos e democratizando acessos.
No próprio audiovisual, a IA pode restaurar imagens antigas, preservar acervos históricos e até permitir novas experiências narrativas. E tudo isso para citar alguns exemplos que provam que não devemos ser contra o uso da inteligência artificial, mas devemos pensar eticamente o que podemos e devemos fazer.
Governos e instituições ao redor do mundo já começaram a discutir formas de regulamentar o uso da IA, especialmente em casos de manipulação de imagem e voz. No Brasil, projetos de lei tentam estabelecer limites para o uso de deepfakes, inclusive envolvendo pessoas falecidas. Mas a velocidade da tecnologia é maior que a da legislação.
Enquanto regras ainda são debatidas, ferramentas se tornam mais acessíveis, mais potentes e mais difíceis de detectar. A regulação avança, mas sempre alguns passos atrás.
Informação é poder: e a corrida já começou. Há um outro elemento nesse cenário: a geopolítica da tecnologia. Grandes potências disputam o desenvolvimento de inteligência artificial não apenas por inovação, mas por influência. IA depende de dados. E dados são hoje um dos ativos mais valiosos do mundo.
Quem domina essa tecnologia não apenas cria ferramentas — molda narrativas, controla fluxos de informação e influencia comportamentos. A corrida pela IA é, em muitos sentidos, uma corrida por poder.
Talvez a pergunta que surgiu naquela conversa com os amigos seja mais urgente do que parece: até que ponto estamos criando experiências interessantes e em que momento começamos a ultrapassar um limite ético?
A inteligência artificial amplia nossas possibilidades, mas também amplia nossa responsabilidade. E talvez o verdadeiro desafio não seja o que a tecnologia é capaz de fazer. Mas o que nós escolhemos fazer com ela.
*A imagem que ilustra esta coluna foi gerada por Inteligência Artificial a partir do próprio texto do artigo escrito por mim.


