Aos 14 anos, Esther Elisabeth (@bethesther30) descobriu que algumas vocações começam justamente quando alguém tenta nos convencer de que elas não existem. Em 1969, enquanto ensaiava escondida para seu primeiro espetáculo, Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera, a jovem atriz já intuía aquilo que levaria décadas para confirmar: havia escolhido o lugar ao qual pertencia. A mãe, que não aceitava a ideia de vê-la seguir a profissão artística, recebeu a notícia da estreia com decepção. Esther, porém, entendeu aquele momento de outra maneira: era a confirmação de que o teatro não seria apenas uma experiência da adolescência, mas uma vida.
Vieram a Universidade Santa Úrsula, onde cursou Letras por imposição familiar, o trabalho como modelo e, finalmente, a possibilidade de se dedicar ao ofício que desejava. Vieram também o Tablado, a CAL – Casa das Artes de Laranjeiras, oficinas, workshops e uma sucessão de personagens no teatro, no cinema e na televisão. Ao longo de décadas, Esther trabalhou com diretores como Karim Aïnouz, Cacá Mourthé, Edson Celulari e Rogério Gomes e participou de produções que atravessam diferentes momentos da dramaturgia brasileira, da televisão ao cinema de autor.
Em sua carreira, construiu uma presença sólida no audiovisual com trabalhos como “Império”, “O Caçador”, “Pé na Cova”, “Turma do Didi”, “Lei de Murphy”, “Volta por Cima” e “Pablo e Luizão”, entre outras. No cinema, participou de “Meu Nome é Dindi”, “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, “O Rapto do Betão”, “Underlide” e da segunda temporada de “Cidade de Deus”, entre outros trabalhos. No teatro, a trajetória de Esther inclui espetáculos como “Diferente Igual a Gente”, “Morro da Trincheira”, “Os Sete Gatinhos”, “Um Rio Chamado Machado”, “Anjos do Calçadão”, “Perdoe-me por Me Traíres”, “Navalha na Carne”, “Amor Perfeito”, “Oh, o Amor Morreu”, “A Menina e o Vento”, “Dá um Jeitinho Aí”, entre outros.
Mas talvez a longevidade de uma atriz não esteja apenas na quantidade de personagens que ela interpreta, e sim na capacidade de continuar encontrando perguntas em cada um deles. Aos 70 anos, Esther Elisabeth está em cena em Lábios que Beijei (@labiosquebeijei.teatro), interpretando Darlene, uma mulher mais jovem, prostituta, apaixonada e atravessada por desejos, ciúmes, medo e necessidade de sobrevivência. O desafio poderia ser simplesmente o de convencer o público de que aquela mulher tem outra idade. Esther prefere outro caminho: não tenta esconder os próprios anos, mas empresta sua experiência, seu corpo e sua memória a uma personagem que viveu uma realidade muito diferente da sua.
É nesse encontro entre juventude e experiência que a atriz parece encontrar uma das questões mais interessantes de seu trabalho atual. A personagem Darlene não é uma tentativa de voltar no tempo, mas uma oportunidade de atravessá-lo. E Esther, que também construiu uma trajetória como arte-educadora, parece carregar para a personagem aquilo que aprendeu ao longo de uma vida dedicada à arte: uma atriz não precisa ser igual à personagem para compreendê-la. Precisa, antes, estar disposta a escutá-la. Nesta entrevista com o jornalista Rodolfo Abreu, ela fala sobre a menina que enfrentou a família para subir ao palco, os personagens que marcaram sua trajetória e o que acontece quando uma atriz de 70 anos empresta sua memória a uma mulher muito mais jovem. Acompanhe a conversa.

Rodolfo Abreu: Você tinha apenas 14 anos quando fez Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera. Os ensaios precisaram acontecer escondidos da sua mãe, que não aceitava a ideia de você ser atriz. O que aquela menina já sabia sobre a própria vocação que a família ainda não conseguia enxergar?
Esther Elisabeth: Aos 14 anos de idade, realizei um grande sonho de infância: fiz meu primeiro espetáculo, Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera. Em 1969, não era comum que os pais incentivassem suas filhas a seguir a profissão de atriz. Minha mãe, especialmente, não aceitava essa ideia e proibia que eu sequer tocasse nesse assunto. Quando finalmente contei a ela sobre a estreia, sua reação foi de decepção. Mas, para mim, aquele momento confirmou algo que eu já sentia profundamente: eu tinha vocação para a arte.
Rodolfo Abreu: Você chegou a cursar Letras na Universidade Santa Úrsula, praticamente por imposição familiar. Em que momento conseguiu transformar aquele desejo de infância em uma escolha profissional?
Esther Elisabeth: Embora tenha cursado Letras na Universidade Santa Úrsula, praticamente por imposição familiar, meu desejo sempre esteve ligado à atuação. Saí de casa muito cedo para trabalhar como modelo e, pouco depois, consegui finalmente me dedicar ao teatro. A partir daí, fui construindo minha trajetória e buscando continuamente aprimorar minha formação.

Rodolfo Abreu: Sua formação passou pelo Tablado, pela CAL, por oficinas, cursos livres e workshops. O que ainda existe naquela atriz que começou aos 14 anos dentro da profissional que você se tornou?
Esther Elisabeth: Acho que continuo sendo aquela menina que acreditou que nasceu para a arte. Só que agora carrego comigo décadas de experiências, personagens, encontros, aprendizados e histórias para contar. A formação nunca termina. Cada trabalho também é uma maneira de aprender.


Rodolfo Abreu: Você construiu uma trajetória bastante ampla, passando pelo teatro, cinema e televisão, e trabalhando com diretores muito diferentes entre si. O que essas linguagens e esses encontros acrescentaram à sua maneira de atuar?
Esther Elisabeth: Ao longo desse caminho, tive a oportunidade de trabalhar no teatro, no cinema e na televisão, com profissionais como Bruno Safadi, Ernesto Piccolo, Karim Aïnouz, Edson Celulari, Antônio Bento Ferraz, Cacá Mourthé, Henrique Tavares, Jonas França, Márcio Vieira, Rogério Gomes e Marco Miranda, entre outros. Cada experiência traz uma maneira diferente de pensar o personagem, o espaço, o tempo e a relação com o público ou com a câmera. Tudo isso vai formando a atriz.

Rodolfo Abreu: Seu currículo reúne personagens muito diferentes, de Os Sete Gatinhos e Navalha na Carne a trabalhos no audiovisual como A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, Meu Nome é Dindi e Cidade de Deus. Existe algum tipo de personagem que ainda provoque especialmente sua curiosidade?
Esther Elisabeth: Sempre me interessam personagens que me desafiem e que me façam sair de um lugar conhecido. No teatro, no cinema ou na televisão, procuro encontrar aquilo que existe de humano em cada personagem. É isso que faz com que o trabalho continue vivo para mim.
Rodolfo Abreu: Hoje, em Lábios que Beijei, você interpreta Darlene, uma mulher mais jovem e prostituta. Como você recebeu o desafio de interpretar uma personagem tão distante, em idade e experiência, da atriz que você é hoje?
Esther Elisabeth: Eu não precisei fingir que tenho outra idade. Estou emprestando o corpo e a memória para uma mulher mais jovem.
Rodolfo Abreu: Mas como encontrar uma mulher jovem sem transformar a idade em uma espécie de disfarce?
Esther Elisabeth: Eu não estou tentando apagar minha idade. Estou tentando encontrar dentro de mim a energia daquela mulher. A Darlene é jovem, mas já carrega uma vida muito dura. Então, procuro a juventude no desejo, na urgência, na maneira como ela ama e luta pelo que quer.

Rodolfo Abreu: Em algum ponto você se reconhece em Darlene?
Esther Elisabeth: Eu me identifico com algumas coisas fundamentais dela: a capacidade de lutar, o desejo de ser amada e, principalmente, a necessidade de não ser invisível. Mas Darlene é uma mulher de outro tempo e de outra realidade. Eu não sou ela. Meu trabalho é compreendê-la.
Rodolfo Abreu: A palavra “prostituta” pode facilmente reduzir uma personagem a uma condição. Você teve essa preocupação ao construir Darlene?
Esther Elisabeth: Eu não quis interpretar uma prostituta. Eu queria interpretar a Darlene. Antes da profissão existe uma mulher com desejo, ciúme, humor, vaidade, medo, esperança. A profissão é uma circunstância da vida dela, não é seu único traço.
Rodolfo Abreu: Darlene é uma mulher apaixonada ou possessiva?
Esther Elisabeth: Ela é apaixonada. E quando a gente ama com muita intensidade, às vezes amor, ciúme, medo de perder e desejo de possuir se misturam.
Rodolfo Abreu: Você encontrou dificuldade para construir fisicamente o corpo de uma mulher jovem?
Esther Elisabeth: Sim. E foi justamente aí que o trabalho ficou interessante. Pensei no centro de gravidade, no ritmo, na impulsividade, mas percebi uma coisa: uma mulher jovem não se movimenta necessariamente como uma pessoa jovem. Darlene já viveu muito. O corpo dela tem juventude, mas também tem história.

Rodolfo Abreu: Talvez exista aí um paradoxo interessante: uma atriz de 70 anos interpretando uma mulher jovem, mas uma mulher jovem que, apesar da idade, já carrega muito passado. Isso mudou sua maneira de olhar para a personagem?
Esther Elisabeth: Mudou. A experiência de vida que eu tenho estou levando para Darlene. Ela me empresta a juventude e eu empresto a ela a minha memória.
Rodolfo Abreu: O que Darlene pode ensinar para uma plateia de hoje?
Esther Elisabeth: Nada. Acho que ela tem que provocar perguntas. O público de hoje vai olhar para uma mulher daquela época e talvez perceber coisas sobre amor, dependência, desejo, sobrevivência e liberdade que continuam muito atuais.
Rodolfo Abreu: E o que significa, para você, aos 70 anos, poder interpretar uma mulher muito mais jovem?
Esther Elisabeth: Eu acho muito bonito uma atriz mais velha poder interpretar uma mulher jovem. As pessoas costumam pensar que o ator precisa ter a mesma idade do personagem, mas no teatro é o lugar em que podemos atravessar idades. A experiência de vida que eu tenho estou levando para Darlene. Ela me empresta a juventude e eu empresto a ela a minha memória.
Rodolfo Abreu: Paralelamente à carreira como atriz, você também construiu uma trajetória como arte-educadora, formando alunos e compartilhando aquilo que aprendeu. O que ensinar arte acrescentou à atriz?
Esther Elisabeth: A arte-educação também faz parte da minha história. Formei diversas turmas de alunos e tive a oportunidade de compartilhar com outras pessoas aquilo que a arte me ensinou ao longo da vida. Quando ensinamos, também aprendemos. É uma troca que amplia nossa própria compreensão sobre o ofício.
Rodolfo Abreu: Depois de tantas décadas, tantos personagens e tantas linguagens, o que ainda faz você subir ao palco?
Esther Elisabeth: A paixão pelo ofício. Minha história começou aos 14 anos, quando uma menina decidiu seguir um sonho mesmo diante da resistência da família. Desde então, o teatro, o cinema, a televisão e a educação artística passaram a fazer parte da minha vida. Continuo sendo aquela menina que acreditou que nasceu para a arte. Só que agora carrego comigo tudo o que vivi.
A entrevista ganha, assim, um eixo mais forte: não apenas a trajetória de Esther, mas a relação entre idade, memória e personagem, que é justamente o aspecto mais interessante de sua presença em Lábios que Beijei.



