Em um festival que há décadas dita o ritmo da indústria musical global, o Coachella Valley Music and Arts Festival voltou a reunir multidões, tendências e manchetes. Mas, nos dois fins de semana mais recentes, não foi apenas a música que chamou atenção. Entre headliners e participações históricas, o comportamento do público — majoritariamente da geração Z, se tornou um dos temas mais debatidos fora dos palcos.

O momento que sintetiza essa mudança aconteceu durante o show de Sabrina Carpenter, em especial quando a artista trouxe ao palco de surpresa ninguém menos que Madonna. A Rainha do Pop em pessoa, em participação histórica voltando duas décadas depois de sua primeira vez no mesmo festival.  A participação incluiu o clássico “Vogue”, seguido de colaboração inédita das duas cantoras com a música “Bring Your Love” que estará no novo album de Madonna Confessions II, além da icônica “Like a Prayer”, música que tem estado em alta nas redes sociais. Esse momento tinha todos os ingredientes de um acontecimento memorável: encontro de gerações, surpresa ao vivo e peso histórico. E, ainda assim, algo soava estranho.

Nas imagens que circularam nas redes, o público aparece quase imóvel, com braços erguidos não em celebração, mas em função de câmeras de celular. Telas de smarthphone acesas substituíam olhos atentos. O gesto coletivo parecia menos o de quem vivia um momento e mais o de quem o arquivava. A reação foi imediata: internautas criticaram a plateia pela falta de entusiasmo visível, destacando que muitos estavam “apenas filmando” em vez de aproveitar o show. A cena poderia ser facilmente incluída em um episódio da série “Black Mirror”.

O contraste se tornou ainda mais evidente quando comparado ao público que assistia de casa. Em transmissões ao vivo e vídeos que viralizaram depois, espectadores ao redor do mundo dançavam em salas, quartos e bares reagindo com mais intensidade do que aqueles que estavam fisicamente presentes. Um deslocamento curioso: a experiência ao vivo, mediada pela tela, parecia mais vibrante fora do festival do que dentro dele.

Essa não é uma discussão nova, mas ganhou ainda mais força com esse episódio. O Coachella, que reuniu mais de 120 mil pessoas por dia nesta edição, sempre foi também um palco de comportamento, moda, consumo e linguagem. Agora, torna-se vitrine de uma geração que cresceu registrando antes de sentir. Não se trata apenas de distração: é uma forma de presença mediada, em que viver e documentar se confundem.

Em fóruns e redes sociais, a sensação de estranhamento se repetiu. Um comentário amplamente compartilhado descrevia o cenário como “milhares de luzes de celulares completamente imóveis”, questionando se ainda há uma forma “errada” de assistir a um show e sugerindo que talvez essa seja uma delas.

Artistas também começam a reagir. Há uma onda — ainda tímida, mas crescente — de músicos que restringem ou até proíbem o uso de smartphones em apresentações. Casos como o de Jack White e Bob Dylan já adotaram políticas de shows “phone-free”, enquanto outros, como Adele, chegaram a repreender fãs por filmarem excessivamente durante performances. A intenção é simples: resgatar o aqui e agora. A própria Madonna na turnê mais intimista de 2021, “Madame X”, tinha um protocolo que envolvia obrigatoriamente lacrar os aparelhos celulares ao entrar no local do show.

O que se viu no deserto da Califórnia, porém, sugere que o desafio é maior. A geração que hoje ocupa as grades dos festivais não apenas consome música, ela a transforma em conteúdo. Cada refrão é também potencial postagem. Cada participação surpresa, um ativo social. E isso levanta a questão: quem foi ao festival está mais interessado em provar que esteve lá do que realmente fazer parte da experiência única e insubstituível de acompanhar um espetáculo ao vivo?

Se o auge da experiência ao vivo passa a ser vivido através de uma tela — mesmo quando se está a poucos metros do palco —, o que acontece com o próprio conceito de espetáculo? E, no limite, que futuro aguarda a arte que depende, acima de tudo, da presença?

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Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

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