Há um paradoxo curioso na contemporaneidade: nunca se falou tanto sobre aproveitar o tempo e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil habitá-lo. Entre agendas, notificações e a necessidade permanente de seguir adiante, pouco espaço resta para aquilo que escapa à lógica da produtividade — a memória, o silêncio, o afeto, as pequenas perdas que moldam quem somos. O teatro é um dos espaços de cultura que se abrem para esse tipo de reflexão coletiva. Trazendo esse tema para debate, conversei com os atores Camilo Ricardo (@camilorodrigues88), Henrique Lott (@varzealott), Ducco Baggio (@duccobaggio) e Tchella Queiroz (@tchella_queiroz), além do diretor Klever Schneider (@kleverschneider), que estão em cartaz com o espetáculo Corpos em Expurgo, na Casa de Cultura Laura Alvim.

Durante a conversa fica evidente que essas inquietações não pertencem apenas à dramaturgia. Elas atravessam o processo criativo e a experiência de cada artista, dissolvendo a distância entre criação e vida. As personagens nascem de lembranças pessoais, inquietações compartilhadas e longos meses de investigação coletiva.

Entre reflexões sobre o tempo, é preciso perceber que essa delicadeza não nasce apenas da dramaturgia, mas do encontro entre pessoas dispostas a expurgar também as próprias experiências para construir uma obra profundamente humana. Ao longo desta entrevista, cada um revela seus processos pessoais e coletivos, compondo um espetáculo que, ao falar sobre o tempo que nos transforma, acaba falando, inevitavelmente, sobre aquilo que ainda insiste em permanecer vivo dentro de cada um de nós. Acompanhe a entrevista.

Cena de Corpos em Expurgo, espetáculo que aborda a relação das pessoas com o tempo e as experiências que atravessam o cotidiano. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Camilo, ao apresentar a ampulheta no início do espetáculo, sua personagem já mostra que a questão central de “Corpos em Expurgo” é a forma com que as pessoas se relacionam com o tempo. Como você construiu sua presença neste espetáculo para traduzir essa ideia e qual é a importância desse personagem na condução da experiência que o espetáculo propõe ao público?

Camilo Ricardo: Nessa temporada em particular, a presença dessa personagem já se apresenta, antes mesmo da primeira fala, gerando um certo desconforto, ao estar presente e ao mesmo tempo alheio a tudo que está acontecendo ao redor, e ao ser introduzido já quebra o ritmo de acolhimento da recepção, então acho que é basicamente ser essa relação incômoda que eu me baseei pra construir esse prólogo

O ator Camilo Ricardo integra o elenco de Corpos em Expurgo, espetáculo que propõe uma reflexão sobre o tempo, a memória e o cotidiano. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Camilo, como é para você, além de atuar, operar o tempo dentro do espaço cênico?

Camilo Ricardo: Tem sido um desafio gratificante, uma vez que a minha participação na obra não se limita a aparição do meu personagem, fazendo com que eu esteja presente, me conectando com cada quadro e cada ator que está em cena e vem sendo mais que gratificante, mas uma experiência que, tenho certeza, vai me acrescentar muito, não somente como ator mas também como ser humano

Rodolfo Abreu: Henrique, na cena “Hiato”, seu personagem percebe, em meio à rotina acelerada, que a velocidade da vida o afastou da capacidade de respirar com calma e de enxergar a beleza das pequenas coisas do cotidiano. Como foi o processo de construção dessa atuação para traduzir esse estado de sufocamento e, ao mesmo tempo, a redescoberta de um olhar mais sensível sobre a vida?

Henrique Lott: O sufocamento que eu busco passar é baseado no meu cotidiano , que é comum a maioria. Pegar transporte público,  pior no  horário de pico , quando somos literalmente sufocados. Apesar desses sufocamento ainda lutamos bravamente pelos respiros, que são ; estar com a família,  jogar bola,  churrasco … Creio que a personagem sonha em curtir esses momentos ” banais”, ter uma vida comum sem a angústia da vida moderna.

Rodolfo Abreu: Henrique, mesmo com cenas individuais, há momentos que vocês atores interagem entre si, além de terem em comum o questionamento da nossa relação com o tempo. Como se deu a relação entre vocês durante os ensaios e de que forma esse entrosamento se reflete nas apresentações de Corpos em Expurgo?

Henrique Lott: O processo durou 9 meses o que permitiu entrosamento do elenco. Formamos uma cia de teatro espontaneamente. Assistimos peças juntos e apoiamos um ao outro. Creio que o ponto em comum é o amor pelo teatro, de querer contar essa história. De amar estar no palco e viver essas personagens.

O ator Henrique Lott integra o elenco de Corpos em Expurgo, espetáculo que reflete sobre a passagem do tempo e os atravessamentos do cotidiano. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Ducco, “Biotério”, como é nominada a sua cena na peça, é talvez o segmento mais lúdico por apresentar como personagem um homem-rato. Você acredita que esse simbolismo ajudará ao público a se colocar nos dilemas que são apresentados nessa cena? E sobre sua atuação como uma personagem tão peculiar, como desenvolveu o conceito?

Ducco Baggio:
Eu acredito que esse simbolismo da cena Biotério, por meio do Homem-Rato, ajuda, sim, o público a se colocar nos dilemas do meu personagem, porque traz a linguagem metafórica do teatro. Isso nos aproxima do lugar lúdico da brincadeira, da cor, da poesia e das nuances tanto da linguagem dos desenhos quanto da linguagem da criança, aspectos que a gente tem enaltecido durante todo o nosso processo de criação do espetáculo.

Foi justamente esse caminho que fez com que conseguíssemos animar da melhor forma possível os nossos personagens dentro de cena, e o Homem-Rato surgiu desse processo. Apesar de representar um homem controlado por um sistema maior, seja ele um homem grande ou um homem pequeno, acredito que todos nós estamos sendo atravessados por forças que nos controlam de alguma maneira. Trazer a sutileza da brincadeira faz com que o personagem se torne mais empático e mais próximo do público, permitindo que ele seja recebido com carinho e fazendo com que as pessoas se reconheçam, de alguma forma, nos conflitos apresentados nessa cena.

O desenvolvimento desse personagem aconteceu, antes de tudo, a partir da busca por compreender profundamente a dramaturgia. Tivemos muitos encontros de estudo de mesa sobre o texto do Klever, que também é o nosso diretor, para entender as camadas do personagem e do universo em que ele está inserido.

Depois, fomos em busca de muitas referências visuais, como imagens de ratos, desenhos e outros elementos que nos aproximassem desse imaginário do biotério, do laboratório, do próprio animal e das características em que a selvageria e a humanidade pudessem coexistir.

A partir daí, já na sala de ensaio, começamos a experimentar essas nuances no corpo, brincando com os efeitos sonoros, as partituras físicas e a musicalidade que a cena poderia ter. O objetivo era dar cada vez mais brilho, movimento e voz a essa criatura que é, ao mesmo tempo, animal e humana, selvagem e civilizada.

O Homem-Rato nasce justamente dessa amálgama de opostos, refletindo um tempo sombrio, mas também cheio de clareza e consciência, como o tempo em que vivemos hoje.

Rodolfo Abreu: Ducco neste espetáculo, além de atuar, você realiza intervenções sonoras com um teclado nas cenas dos outros atores. Como surgiu a ideia e como acredita que essas intervenções contribuem para o desenrolar do espetáculo?

Ducco Baggio: Está sendo uma oportunidade maravilhosa poder tocar teclado e também compor a trilha sonora de Corpos em Expurgo. Enquanto ator, eu ocupo um lugar em cena; enquanto músico, ocupo outro. Poder estar presente nas cenas dos meus colegas e parceiros de palco, preenchendo esses momentos com a música, tem sido um exercício muito bonito, orgânico e enriquecedor.

Essa proposta surgiu a partir de um desejo do nosso diretor, o Klever, que queria a presença de um instrumento em cena. Eu sugeri o teclado, por já ter familiaridade com ele, e a partir daí começamos um processo de investigação durante os ensaios. Foi um caminho muito fluido, sem muitas coisas premeditadas ou arranjadas previamente. A cada encontro, fomos descobrindo novas possibilidades.

Ao longo do processo, também fui explorando ferramentas do próprio teclado que permitiram trazer cada vez mais sons, timbres, nuances e atmosferas diferentes para cada cena. Acredito que essas intervenções ajudam a compor esse universo de sensações, de sinestesia, de texturas, de reflexões e de poesia que o espetáculo propõe.

A música dialoga com a brincadeira que atravessa toda a montagem. É uma brincadeira que, ao mesmo tempo em que é séria, também acolhe e alivia o coração. Por isso, tem sido muito prazeroso e gratificante estar em cena como ator e como músico, compondo não apenas a trajetória do meu personagem, mas também participando da cena dos meus parceiros por meio da música, dando voz às emoções que atravessam o espetáculo.

O ator Ducco Baggio integra o elenco de Corpos em Expurgo, espetáculo que investiga a relação entre tempo, memória e experiência humana. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Tchella, sua personagem na cena “Infiltração” revisita lembranças da infância que acreditava estarem esquecidas, mas que continuam presentes na sua vida da personagem. Como você desenvolveu essa mulher e acessou as emoções que atravessam essa jornada de memória?

Tchella Queiroz: Acho que a construção dessa personagem começou muito antes de eu entrar em cena. Primeiro fui buscando memórias minhas, da Tchella. Trabalhei muitos anos em escritório, vivo essa rotina intensa do RH e da gestão de pessoas, então essa mulher já tinha uma voz que eu conhecia. Só estava precisando de um empurrão para saber como juntar a personagem com essa realidade similar, construí junto do diretor Klever e isso foi incrível.

As lembranças da infância surgiram a partir de algo muito específico: a perda de uma caneta Montblanc que herdei do meu avô. Aquela perda despertou memórias da minha dindinha, e de afetos que eu nem imaginava que ainda estão tão vivos (De verdade) porque a perda não foi só pelo valor (dinheiro) mas pelo valor do carinho e amor com que aquela caneta foi guardada por anos para que eu herdasse quando estivesse formada depois da faculdade e meu avô faleceu eu ainda era menina, tinha 14 anos, quem guardou por anos a caneta foi a esposa dele que eu chamo carinhosamente de Dindinha. Foi esse caminho que me aproximou da personagem.

Depois veio a construção cênica. Eu levava pequenas ideias, experimentava possibilidades, e o Klever foi fundamental nesse processo. Ele não só me provocava a refletir sobre essas emoções, como também me ajudou a construir o corpo dessa mulher, a voz dela, a presença da criança interior e a forma como essas memórias atravessam a cena. Foi, sem dúvida, a construção de personagem mais intensa e mais bonita que vivi até hoje como atriz.

Rodolfo Abreu: Tchella, como você tem percebido a reação do público ao espetáculo nesse início de temporada na Casa de Cultura Laura Alvim?

Tchella Queiroz: Foram apenas duas apresentações até agora, e foi muito interessante perceber como cada plateia reagiu de um jeito. No primeiro dia, o público estava mais expansivo, ria mais, demonstrava as reações com facilidade. Já no segundo, as pessoas estavam mais silenciosas, mais introspectivas. Mas, para mim, aquele silêncio também dizia muita coisa. Eu sentia que elas estavam conectadas no universo de cada personagem. Acho que esse é um dos grandes desafios e encantos do teatro: cada espectador faz a sua própria leitura. Algumas pessoas que conheço, inclusive, disseram que ainda estão “digerindo” o espetáculo depois de assistirem. Isso mostra que a peça continua reverberando mesmo depois que termina.

No geral, a recepção tem sido muito bonita. Os aplausos são calorosos, as conversas depois das apresentações são cheias de reflexões, e isso nos mostra que Corpos em Expurgo está conseguindo tocar as pessoas de formas diferentes, que é exatamente o que a gente espera quando faz teatro.

A atriz Tchella Queiroz integra o elenco de Corpos em Expurgo, espetáculo que reflete sobre o tempo, a memória e as experiências do cotidiano. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Klever, a ideia associada à morte ou à finitude acaba estando presente nas três histórias de “Corpos em Expurgo”. Que conexões ou reflexão o público pode fazer a partir desse conceito apresentado no espetáculo?

Klever Schneider: Acredito que a força de Corpos em Expurgo é justamente que ele não trata a morte apenas como o fim da vida, mas como um processo cotidiano. O espetáculo fala menos sobre a morte e mais sobre o que deixamos morrer antes mesmo do fim.

Em cada quadro, algo morre silenciosamente: um hábito, uma memória, uma identidade, uma forma de existir. Isso amplia a leitura do espetáculo e permite diferentes camadas de interpretação.

Entendo que a morte não é apenas um acontecimento biológico. Mas é uma sucessão de pequenas perdas do cotidiano. Morremos um pouco quando deixamos de respirar com calma, quando nos adaptamos ao que nos desumaniza ou quando permitimos que nossas lembranças desapareçam.

Em Hiato, o personagem não está morrendo fisicamente, mas perde algo essencial: a capacidade de parar, respirar e perceber o mundo. É uma morte provocada pela velocidade. A pergunta torna-se: O que morre em nós quando não há mais tempo para viver o presente?

Já em Biotério, há morte da identidade. O homem-rato representa alguém que foi se adaptando tanto às regras impostas que deixou de reconhecer quem era. A reflexão é: Quanto de nós sacrificamos para pertencer, sobreviver ou obedecer? É uma morte lenta do humano.

No último quadro, as memórias não desaparecem. O passado continua vivo. A morte se recusa a morrer. Talvez a questão seja não como esquecer, mas porque partes de nós nunca morrem. A Infiltração provoca doces lembranças e sentimentos que estão presentes.

Outro ponto do espetáculo é que todos os personagens contam a sua versão da história. O público é quase um voyeur. Ele preenche as lacunas de acordo com a sua experiência de vida.

E no Prólogo, a ampulheta deixa de ser apenas um símbolo do tempo. Cada grão pode ser entendido como uma escolha, uma lembrança ou uma pessoa. Ou uma oportunidade, ela é parte de nós.

Quando a ampulheta é virada, os grãos continuam os mesmos, apenas mudam de lugar.  Nada desaparece completamente, mas de outra forma. Como tudo o que acontece conosco.

Reforço a ideia que “Expurgar não é eliminar: é tornar visível o que nunca deixou de existir.” Será que o tempo nos mata ou apenas revela aquilo que estamos deixando morrer dentro de nós?

Essa é a minha leitura que conecta o Prólogo, Hiato, Biotério e Infiltração. A finitude não aparece como um encerramento, mas como um processo contínuo de perdas e transformações.

E o “expurgo” surge como um gesto de resistência: olhar para essas perdas, nomeá-las e trazê-las à luz antes que desapareçam no silêncio. Essa perspectiva dialoga diretamente com a pergunta que abre a peça:

 “O que o tempo tem tirado de você?”  é uma investigação íntima sobre tudo aquilo que ainda pode ser recuperado, preservado ou ressignificado.

Klever Schneider, autor e diretor de Corpos em Expurgo, conduz o espetáculo em uma investigação cênica sobre tempo, memória e experiência humana. — Foto: Divulgação

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Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

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