No dia 19 de novembro de 2025, a revista inglesa Time Out elegeu a Rua do Senado, no Centro do Rio, a rua mais “cool” do mundo. Foi a primeira vez que uma rua sul-americana chegou ao topo da lista, superando outros endereços conhecidos mundialmente. A matéria destaca que os critérios para a escolha incluíam gastronomia, vida noturna, arte e espírito comunitário. Meus pais moram ali perto, na região da Praça da Cruz Vermelha, e, quando os visito, chamam minha atenção o casario antigo, o vaivém de moradores, os bares e as feiras. Mas o que pouca gente deve saber é que bem ali existiu um morro, o do Senado, um dos três que o Centro perdeu. Os outros foram o Castelo e Santo Antônio.

Rua do Senado, no Centro do Rio de Janeiro, em fotografia de 26 de janeiro de 1929. — Foto: Autoria não identificada / Instituto Moreira Salles²

Segundo o historiador francês François Dosse, se a memória supõe o esquecimento, a cidade, para existir, também pressupõe demolições e apagamentos. O Rio parece ter vivido assim, pois, espremido entre o mar, a baía e as elevações, ao longo dos séculos, foi desmontando morros e aterrando áreas, além de canalizar seus rios e aterrar pântanos.

O Morro do Senado já se chamou Morro Pedro Dias, nome de um guarda-mor de Minas que tinha propriedades na região. O “arrasamento” começou em 1880 e foi até 1906, já na gestão de Pereira Passos. O entulho serviu para aterrar charcos e mangues na Saúde e na Gamboa, além de ser utilizado nas obras do novo porto. Ao contrário do Castelo, o Senado era praticamente desabitado. A esplanada que se abriria no lugar rendeu bons lucros com a venda dos terrenos. Dele restaram a Praça da Cruz Vermelha e algumas ruas, como a Mem de Sá. O Colégio Cruzeiro, escola alemã com mais de 160 anos de história, mudou-se nessa época para um terreno entre as ruas Carlos de Carvalho e do Senado, onde inaugurou uma nova sede em 1912.

O Castelo, o mais famoso, é um caso à parte. Já falamos dele em outra coluna. Foi ali que nasceu a cidade, em 1565. A ideia de tirá-lo da paisagem não surgiu com as reformas republicanas do início do século XX. Em 1808, o físico-mor Manuel Vieira da Silva já duvidava de que o morro fosse tão prejudicial a ponto de justificar a demolição. Nas décadas seguintes, médicos e engenheiros o relacionaram aos ventos parados, à umidade e aos miasmas. A “colina sagrada” foi se transformando em “dente cariado”, apelido dado pelo prefeito Carlos Sampaio. Antes de ser desmontado fisicamente, foi desmontado no discurso de muitos. O fim veio no início dos anos 1920, por causa da Exposição do Centenário da Independência.

Demolição do Morro do Castelo, em registro de Augusto Malta realizado entre aproximadamente 1921 e 1925. — Foto: Augusto Malta / Instituto Moreira Salles³

No lugar, surgiram a Esplanada do Castelo e, anos depois, o Aeroporto Santos Dumont, o Ministério da Fazenda e o Museu de Arte Moderna, entre outros edifícios.

Vista da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, realizada em 1922. — Foto: Augusto Malta / Instituto Moreira Salles⁴

Por sua vez, o Morro de Santo Antônio teve alguns cortes pontuais em 1910 e nos anos 1920, mas desapareceu de fato nos anos 1950, dentro do espírito do Plano Agache. O urbanista francês Alfred Agache chamava o Rio de “Senhorita Carioca”, uma cidade doente por falta de planejamento. A terra retirada do morro foi usada na abertura das avenidas Chile e República do Paraguai e na formação do Aterro do Flamengo. A Avenida República do Chile, no Centro, localiza-se entre a Rua do Lavradio e o Largo da Carioca. Foi aberta em 1960, em terrenos do morro demolido, como parte de uma via urbana que vinha da Zona Norte e servia de alternativa para quem utilizava a congestionada Rua do Riachuelo.

Avenida República do Chile, aberta em 1960 em terrenos do antigo Morro de Santo Antônio, no Centro do Rio de Janeiro. — Foto: Rodrigo Soldon / Wikimedia Commons⁵

Atualmente, encontramos algumas das construções mais arrojadas do Centro, como os edifícios da Petrobras e do BNDES, o Conjunto Cultural da Caixa e a Catedral Metropolitana.

Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, localizada na região central da cidade. — Foto: Haakon S. Krohn / Wikimedia Commons⁶

Dali, observamos, como vestígios materiais de outra época, o convento e a igreja da Ordem Terceira da Penitência, tombados em 1938 e cercados por avenidas.

Interior da Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no conjunto do Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca. — Foto: Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons⁷

Vale considerar que nem todos os morros foram condenados. São Bento e Conceição, por exemplo, permaneceram. Bom, se uns deviam sumir e outros permanecer, a explicação não é apenas geográfica ou técnica. Houve escolhas, interesses econômicos e um projeto de cidade. Mas, no Castelo e em Santo Antônio, havia bastante gente. O cronista João do Rio subiu as vielas de Santo Antônio e escreveu sobre “os livres acampamentos da miséria”. De fato, o discurso que condenava os morros condenou também quem morava neles. Não se trata de saudosismo nem de ser contra a modernização. A questão é perceber o que se pagou por ela, quem pagou — ou quem sempre paga até os dias de hoje.

Só que um morro não desaparece por completo. No livro que escrevi com Antonio Edmilson Martins Rodrigues, afirmamos que o Castelo foi arrasado, mas permanece como fantasmagoria. Na Rua do Senado, vale o mesmo. Walter Benjamin, filósofo alemão, utilizou o termo para compreender o espetáculo das mercadorias e a promessa do progresso na modernidade: aquele brilho que distrai a multidão e encobre, como um véu, o que ficou para trás. A memória resiste nas fachadas centenárias e nos comércios tradicionais, como o Armazém Senado, aberto em 1907, que hoje conta com um botequim e uma roda de samba. Talvez o “cool” de hoje em dia, como apontou a Time Out, seja, em parte, o passado que insiste em ficar de pé.

Para ler mais: Antonio Edmilson Martins Rodrigues e Luciene Carris, De colina sagrada a dente cariado: a modernidade carioca e o desmonte do Morro do Castelo (1822-1922).

“Rua do Senado, no Centro do Rio, é eleita a mais ‘cool’ do mundo por publicação inglesa”. g1, 19 nov. 2025. Acesso em: 2 nov. 2026.

Luciene Carris é historiadora e escritora.


Crédito das imagens

  1. Rio de Janeiro de lado da terra Marro de Senado, da Coleção Brasiliana Iconográfica — Wikimedia Commons — Litografia de Alfred Martinet e Philippe Benoist, gravura de Eugène Ciceri, 1852; Coleção Brasiliana Iconográfica, Biblioteca Nacional; domínio público.
  2. Rua do Senado, Acervo do Instituto Moreira Salles — Wikimedia Commons — Fotografia de 26 jan. 1929; prata sobre gelatina; acervo do Instituto Moreira Salles; domínio público.
  3. Demolição do morro do Castelo 3, Acervo do Instituto Moreira Salles — Wikimedia Commons — Fotografia de Augusto Malta, entre cerca de 1921 e 1925; acervo do Instituto Moreira Salles; domínio público.
  4. Vista da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, Acervo do Instituto Moreira Salles — Wikimedia Commons — Fotografia de Augusto Malta, 1922; acervo do Instituto Moreira Salles; domínio público.
  5. Avenida República do Chile (3194676385) — Wikimedia Commons — Fotografia de Rodrigo Soldon, 10 jan. 2009; licença Creative Commons Attribution 2.0 (CC BY 2.0).
  6. Catedral Rio de Janeiro — Wikimedia Commons — Fotografia de Haakon S. Krohn, 31 mar. 2012; licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 (CC BY-SA 3.0).
  7. Convento de Santo Antônio – Igreja de São Francisco 02 — Wikimedia Commons — Fotografia de Halley Pacheco de Oliveira, 15 ago. 2007; licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 (CC BY-SA 3.0).
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Luciene Carris é colunista da Revista Vislun, doutora em História pela UERJ e pesquisadora da história do Rio de Janeiro. Seus textos conectam passado e presente com linguagem acessível e olhar crítico sobre a formação da cidade.

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