Caminhar pela Praça XV é atravessar séculos da história do Rio de Janeiro. Apesar do ruído dos ônibus e dos carros, dos passos apressados dos transeuntes e do vai e vem que revela o cotidiano do Centro, o Paço Imperial permanece ali como uma presença discreta e imponente.
As suas paredes, janelas e portas não conservam apenas a memória de um passado régio, marcada por cerimônias oficiais como o beija-mão de D. João VI. Uma tradição típica do Antigo Regime trazida de Portugal que demonstrava respeito, hierarquia e fidelidade ao soberano. A edificação também revela as contradições de uma cidade moderna que foi o centro do poder e, ao mesmo tempo, palco de profundas desigualdades.

Pois ali, ao mesmo tempo em que se via o resplendor das cerimônias oficiais, as marcas da escravização se faziam presentes nas ruas, onde uma população negra, escravizada, liberta ou livre, sustentava a vida material da cidade. Trabalhadores que estavam diariamente nas ruas, nas casas, no porto, no comércio, nos serviços domésticos e nas obras urbanas, vendendo, carregando, lavando, costurando e abastecendo a cidade. Cotidiano, aliás, que foi devidamente registrado pelo traço do pintor francês Jean-Baptiste Debret, que viveu no Brasil no início do século XIX e revelou em imagens detalhes do Rio de Janeiro.

Contudo, o edifício que conhecemos popularmente como Paço Imperial, atualmente um espaço cultural, localizado na região da Praça XV, passou por inúmeras transformações ao longo do tempo. Durante o período colonial, foi a Casa dos Governadores, o centro econômico e administrativo da América Portuguesa. Em 1763, quando o Rio de Janeiro substituiu Salvador como capital do Estado do Brasil, converteu-se no Palácio dos Vice-Reis. Com a chegada da Corte portuguesa, em 1808, em razão da invasão das tropas de Napoleão Bonaparte em Portugal, transformou-se em Paço Real, sede do poder monárquico nos trópicos.
Aliás, trata-se de um acontecimento marcante, pois, nunca na história europeia uma Corte havia sido transferida para uma de suas colônias, e, diga-se de passagem, para o outro lado do Atlântico. E, com a Independência do Brasil, em 1822, a antiga construção se converteu no Paço Imperial.

Ao longo do século XIX, o Paço foi palco de acontecimentos importantes da história do Brasil Império. Na aclamação de D. João VI como rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1818, foi construída uma estrutura especial entre o edifício e o Convento do Carmo, situado ainda hoje em dia bem em frente ao Paço. Foi ali também que o príncipe regente D. Pedro declarou a sua decisão de permanecer no Brasil, no dia 9 de janeiro de 1822, quando recusou a ordem de retornar a Portugal, episódio que recebeu o nome de Dia do Fico.
No dia 13 de maio de 1888, na Sala do Trono, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que aboliu juridicamente a escravidão no Brasil. Contudo, o ato não assegurou a cidadania plena à população, cuja força de trabalho foi fundamental para a construção do Rio de Janeiro e da própria nação.
De todo modo, ao longo do regime monárquico, o prédio funcionou como local de reuniões e audiências, ali D. Pedro II recebia seus ministros para reuniões e para tomadas de decisões importantes. Porém, em 1889, o Paço testemunhou os últimos suspiros da monarquia, quando, em meio a uma grave crise política, o ministério imperial apresentou a sua demissão formal ao monarca.

Com a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889, o Paço perdeu a importância simbólica que manteve, e passou a abrigar repartições públicas, tais como o Correios e Telégrafos. Durante o século XX, a construção resistiu às transformações urbanas e às constantes mudanças de uso, mas ainda permanece no imaginário como um vestígio da memória imperial no Centro da cidade.
Como uma fantasmagoria urbana, lembrando aqui o filósofo alemão Walter Benjamin, a história do Paço nos revela que o passado não desaparece por completo. Pelo contrário. É possível encontrá-lo, portanto, nas fachadas, nas pedras e nos silêncios da cidade. A própria Praça XV carrega em si essa mudança, pois, o antigo Largo do Carmo, como era conhecido, foi rebatizado em homenagem à data que marcou o fim da monarquia no Brasil.

Mas o que hoje se vê é apenas uma camada dessa história. Sob o chão da Praça XV, entre edifícios, portos e reformas urbanas, existem outras narrativas menos visíveis, mas igualmente fundamentais que ajudam a compreender a formação da cidade e suas permanências. É justamente nesse território de memórias sobrepostas que o passado continua a se revelar.
Na próxima parte, seguimos por esses vestígios, explorando outras dimensões desse espaço que, ainda hoje, guarda marcas profundas da história do Rio de Janeiro.
Crédito das imagens:
1. Carlos Luis M. C. da Cruz. Fonte: Wikimedia Commons
2. Jean-Baptiste Debret. Fonte: Wikimedia Commons
3. Jean-Baptiste Debret. Fonte: Brasiliana Iconográfica
4. Victor Meirelles. Fonte: Brasiliana Iconográfica
5. Marc Ferrez. IMS. Fonte: Brasiliana Fotográfica
6. Arlindo Pereira. Fonte: Wikimedia Commons


