O texto de Carlos Jardim, com a colaboração de Bruce Gomlevsky, é primoroso, bem construído e organizado, produto de uma profícua pesquisa de entrevistas, crônicas, dramaturgias e escritos produzidos por Nelson Rodrigues. Destes, foram extraídos fragmentos e associados, construindo uma narrativa que nos revela o universo mental do escritor: sua humanidade, suas contradições, sua atualidade, suas polêmicas, suas preferências, suas oposições, seus valores e seus questionamentos.

Não tem nenhuma pretensão de ser biográfico, mas, ao escolher o material supracitado, apresenta elementos da trajetória do escritor, como local de nascimento, informações sobre familiares, bairros onde residiu, sua única atuação como ator, entre outros. Ademais, dos extratos extraem-se diversos assuntos, como amor, adultério, família, política, futebol, teatro, reflexões sobre o Brasil e imprensa, entre outros. O texto tem momentos de bom humor e irreverência, bem como de tensão, como no momento em que narra a tortura e a prisão sofridas pelo filho de Nelson Rodrigues durante a ditadura civil-militar. Portanto, um texto de excelência!

Bruce Gomlevsky interpreta Nelson Rodrigues de forma notável. É uma encenação concentrada na figura do ator e na valorização do texto narrado em primeira pessoa. Ele apresenta uma interpretação refinada, de alta qualidade, e emociona. Incorpora o escritor de forma intensa, pulsante e realista — Nelson está presente e onipresente no palco. Desceu dos céus e retornou à Terra incorporado em Bruce. Domina o texto, transmitindo com clareza, com retórica de primeira qualidade e linguagem acessível. Domina o palco, com movimentação intensa e dinâmica, apresentando-se de pé, sentando e até deitando-se sobre o palco. Estabelece boa comunicação com o público, interagindo com a plateia. Portanto, uma atuação impecável, merecedora de muitos elogios.

A direção de Carlos Jardim valorizou o texto e deixou Bruce à vontade no palco, do jeito que ele gosta: livre para atuar e realizar sua exímia interpretação.

O figurino criado por Maria Callou é elegante, de bom gosto e bem modelado. O ator inicia o espetáculo com camisa comprida, suspensórios e calça, descalço. Ao longo da apresentação, calça os sapatos e acrescenta gravata e paletó. Por baixo de toda a vestimenta, veste a camisa do tricolor carioca Fluminense, seu time de coração.

A cenografia criada por Nello Marrese é criativa, bem elaborada e original. Trata-se da reconstituição do gabinete de Nelson Rodrigues ou da redação de um jornal, repleto de papéis amassados pelo chão, livros e jornais empilhados, além de carretéis com fitas nos tons vermelho e preto, utilizados em máquina de escrever — instrumento do escritor para redigir seus textos.

A iluminação criada por Elisa Tandeta apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação do ator. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo, dinamismo e complementando as falas de Bruce.

A trilha original criada por Liliane Secco é adequada e funcional, transitando entre música instrumental e canções como Conceição, interpretada por Cauby Peixoto.

Texto, atuação, direção, cenografia, figurino, iluminação e trilha formam um conjunto harmônico e coeso, evidenciando a qualidade do espetáculo.

Excelente e imperdível produção cênica!

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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