Um passeio a pé pela atual Avenida Rio Branco inspira um novo olhar sobre as transformações ocorridas na cidade do Rio de Janeiro em pouco mais de cem anos. A sua abertura simbolizou o ideal de civilização e de progresso tão ambicionado pela sociedade carioca da época. Em pouco tempo, a avenida se converteu numa artéria fundamental da cidade, e refletia a modernidade que parte da sociedade desejava exibir no alvorecer do século XX. O seu início ficava ali, na atual Praça Mauá, junto ao porto também remodelado, símbolo do progresso material, e terminava na Avenida Beira-Mar.

Inaugurada sob uma forte chuva em 15 de novembro de 1905, a data comemorativa da Proclamação da República, a Avenida Central, como era originalmente chamada, possuía 33 metros de largura e cerca de 1.800 metros de extensão, foi construída em aproximadamente vinte meses. Porém, em 1912, com a morte do ministro das Relações Exteriores, o Barão do Rio Branco, foi renomeada Avenida Rio Branco, uma homenagem ao diplomata ligado à definição das fronteiras brasileiras, considerado por muitos como um verdadeiro herói nacional.

A sua construção não apenas alterou profundamente a paisagem urbana. A avenida e as suas ruas transversais se converteram em uma espécie de boulevard a céu aberto. A pé, os mais privilegiados desfilavam, observavam as vitrines e admiravam a iluminação elétrica, então símbolo do progresso e da modernidade. O calçamento recebeu desenhos de pedras portuguesas, executados por operários vindos de Lisboa, enquanto a arborização foi feita com mudas de pau-brasil. Não por acaso, se deslocou para lá parte da centralidade da Rua do Ouvidor, até então o principal endereço da moda e dos encontros de intelectuais e políticos, com seus diversos cafés, boutiques francesas e livrarias.

Aliás, importantes instituições brasileiras associadas ao progresso do país escolheram a Avenida Central para instalar suas sedes, como a Caixa de Amortização, a Companhia Docas de Santos, a Estrada de Ferro São Paulo e a Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico. Jornais de grande circulação, como o Jornal do Brasil, o Jornal do Commercio e o Correio da Manhã, também se mudaram para lá, e contribuíram para transformar a nova avenida em endereço da imprensa, dos negócios e da administração pública.

Mas não foi apenas a paisagem urbana que se transformou. Os hábitos cotidianos da população carioca também passaram a ser regulados. Por trás de uma imagem triunfante do progresso, permaneciam as contradições de uma cidade marcada por profundas desigualdades. Andar descalço ou sem paletó foi proibido na avenida, concebida como espaço de ostentação e de sociabilidade, onde a modernidade deveria aparecer na arquitetura, na aparência e no comportamento. Tal postura contribuiu para afastar temporariamente a circulação da população mais pobre naquela região. Situação que reforçou a ideia de que aquele novo espaço deveria ser ocupado por pessoas adequadas à imagem de uma cidade civilizada, então capital da jovem República, que desejava construir e se mostrar internacionalmente.
Além disso, a abertura da avenida implicou em demolições de muitos imóveis, nos deslocamentos de moradores e no desaparecimento de parte do Rio Antigo. O escritor Lima Barreto, no romance de teor satírico Bruzundangas, ao perceber o caráter cenográfico dessas transformações urbanas, ressaltou que a velha cidade desaparecera e outra surgira “como se fosse obtida por uma mutação de teatro”. Havia, portanto, muito de espetáculo naquela modernização, enquanto grande parte da população pobre permanecia afastada dos benefícios anunciados.

Décadas mais tarde, Brasil Gerson, em História das Ruas do Rio, imaginou que os idealizadores na Avenida dificilmente a reconheceriam, pois foi transformada numa via de circulação intensa e cercada por edifícios altos. Contudo, algumas construções sobreviveram, mas com novos usos. A antiga Escola Nacional de Belas Artes se tornou o Museu Nacional de Belas Artes e o antigo Supremo Tribunal Federal passou a abrigar o Centro Cultural Justiça Federal.

Portanto, caminhar hoje em dia pela Avenida Rio Branco significa caminhar por cidades sobrepostas. O trânsito, os prédios modernos e as sucessivas reformas se entrelaçam com a memória da antiga Avenida Central, atual Rio Branco. Um cenário idealizado durante a Belle Époque carioca, que expressa as ambições e as contradições de uma cidade que ainda deseja transformar repetidamente a sua paisagem urbana em espetáculo de modernidade.
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1. Eduardo P. Fonte: Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 3.0.
2. Marc Ferrez. Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
3. Torres. Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
4. Marc Ferrez. Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
5. Autor desconhecido. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
6. Torres. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.
7. Marc Ferrez. Acervo do Instituto Moreira Salles. Fonte: Wikimedia Commons.


