Atriz, diretora e pesquisadora de teatro, Giovanna Sassi construiu sua trajetória conciliando a prática artística com a pesquisa acadêmica. Em cartaz com Anne Frank – Fragmentos do Diário, a artista reflete sobre a responsabilidade de interpretar uma personagem histórica, comenta a importância da formação teatral, critica a valorização de celebridades sem preparo artístico e defende um teatro cada vez mais próximo do público. Nesta entrevista exclusiva à coluna, Giovanna também fala sobre seus projetos futuros e sua visão sobre o fazer artístico.

Chico Vartulli – Olá, Giovanna! Como surgiu o projeto sobre a peça teatral Diário de Anne Frank?

Giovanna Sassi – Surgiu há quase sete anos. Temos um grupo da Scuola di Cultura em que nos encontramos com frequência para pensar e debater sobre teatro, com muitas das conversas encabeçadas por Lucia Cerrone. Em uma dessas noites de assuntos infinitos, decidimos montar uma peça sobre o Diário de Anne Frank. Eu já tinha começado minha trajetória como pesquisadora na UNIRIO e estava com o tema da fragmentação do teatro contemporâneo em mente. Fizemos, então, uma primeira montagem em 2020, até que entrou a pandemia. Realizamos alguns formatos híbridos, mas o projeto ainda tinha essa vocação para os palcos. Este ano, graças a um grande amigo e visagista, Fernando Ocazione, tivemos o convite para apresentar o espetáculo no Teatro Vannucci.

Chico Vartulli – Como está sendo interpretar a personagem Anne?

Giovanna Sassi – É uma grande responsabilidade interpretar uma personagem histórica. Exige muito respeito e estudo. Ela foi uma menina brilhante, divertida e inteligente e, por isso, representa muitas facetas humanas. Admito que é muito divertido interpretar uma adolescente, ainda mais com a eloquência que ela tinha. A adolescência, apesar de ser uma fase confusa, é muito emblemática para todos nós, porque nos lembra como nos constituímos a partir das vivências que tivemos durante esse limbo entre a infância e a fase adulta. Vejo muita similaridade entre a adolescente que fui e a Anne. Acredito que qualquer pessoa que leia o diário encontre muitas semelhanças consigo mesma, justamente por ela ter sido capaz de escrever com tanta destreza — aos 13 anos! — sobre questões tão universais.

Giovanna Sassi momentos antes de entrar em cena. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – A história de Anne Frank permanece atual? Justifique.

Giovanna Sassi – Totalmente atual. Essa história tem duas frentes: uma pessoal e outra mundial. O diário nos lembra que não há como separar o que acontece no mundo da nossa realidade íntima. Era uma guerra horrenda, marcada por processos industriais de discriminação. Estudar isso com um olhar distante não traz a dimensão necessária. Como diz a peça, Anne não deixou de ser uma menina de 13 anos por causa da guerra. O medo e o horror caminharam ao lado dos dilemas comuns da adolescência. A jovem, com seus sonhos, sua eloquência e sua lucidez diante do horror, nos faz pensar que não podemos avaliar o mundo com olhos distantes, porque eles deixam a nossa humanidade como mero detalhe, quando ela deveria ser a centralidade de tudo. Diante do que tem acontecido no Brasil e no mundo, precisamos recolocar a nossa humanidade no centro das atenções.

Chico Vartulli – Quando surgiu o seu interesse em ser atriz?

Giovanna Sassi – É curioso porque me lembro do momento exato. Eu já fazia aula de teatro havia uns cinco ou seis anos com o Marcello Caridade, mas apenas como um hobby despretensioso. No último mês do curso, ensaiávamos todos os dias da semana. Em um sábado fatídico, tivemos um ensaio exaustivo, com inesperadas 12 horas de duração. No domingo seguinte, ensaiamos por mais cinco horas. No fim, tivemos que liberar a sala para o ensaio da Companhia de Repertório do próprio Marcello, e eu queria ficar. Foi aí que descobri que queria ser atriz. Com o passar dos anos, percebi o seguinte: são nos meus dias mais difíceis que tenho certeza de que é isso que quero fazer, porque o teatro aparece como uma força vital que me toma e extrapola qualquer limite que eu pensei que teria.

Chico Vartulli – Como se deu a sua formação como atriz?

Giovanna Sassi – Hoje faço mestrado em História do Teatro na USP, fiz Direção Teatral na UNIRIO, comecei com anos de curso ao lado de Marcello Caridade, faço aulas de canto e diversos cursos livres. Mas a verdade é que a formação como atriz vem da prática. São as horas de ensaio e de palco que formam o ator. Foi na coxia e nos ensaios que aprendi sobre a ética do trabalho; no palco, aprendi sobre o respeito ao público; nas montagens, aprendi sobre luz; e, nas desmontagens, aprendi sobre produção. Foi com meus diretores que aprendi a estudar um texto; com meus parceiros de cena, aprendi sobre humor e drama; com meus coreógrafos, aprendi sobre postura. E é, de maneira geral, estando disponível para errar, escutar e corrigir que continuo me formando, todos os dias, como atriz.

Chico Vartulli – Como você avalia a entrada de pessoas que não são artistas, como influenciadores digitais, no meio artístico, atuando como atores?

Giovanna Sassi – Eu acho uma pena. Perdemos qualidade e tempo. Entendo que existe um “mercado” a suprir, mas existem vários influenciadores que são atores, sem falar nos atores que já são famosíssimos. Se, em nome do mercado, chamarmos pessoas de péssima qualidade artística, não vamos formar um público, mas apenas atrair visitantes eventuais. Precisamos de novos artistas ao lado de artistas de peso. Assim, protegemos a nossa qualidade artística, criamos novas gerações mais robustas e renovamos o que pode estar engessado. Colocar uma pessoa completamente leiga nesse fluxo artístico é andar para trás.

Giovanna Sassi em ensaio fotográfico para a coluna. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Como você analisa o etarismo?

Giovanna Sassi – Outra perda de tempo. O etarismo atinge muita gente: os jovens, descredibilizados; as mulheres, limitadas a idades imaginárias; mas, sobretudo, os mais velhos. Excluir quem tem a maior bagagem é perder um material valioso e insubstituível. Quem tem um olhar especializado reconhece de imediato o valor que uma pessoa com mais de 70, 80 ou 90 anos pode trazer a uma peça ou novela. É impressionante como a experiência desses atores pode ser determinante para uma obra. Espero trabalhar com muitos deles. Esse é um privilégio que atores, diretores e produtores podem ter e precisam aproveitar.

Inclusive, pesquiso a produtora de Othon Bastos e pude conversar com ele sobre a vida na atuação. Ele é uma aula em cena e pessoalmente.

Chico Vartulli – Você gosta de atuar em musicais? Justifique.

Giovanna Sassi – Adoro atuar em musicais. Eles são divertidos e desafiadores, e muitos possuem uma boa estrutura de trabalho, com profissionais de diversas áreas. E, convenhamos, adoro a variedade que eles têm, desde os musicais da Broadway até as adaptações literárias e os musicais brasileiros. O musical é uma linguagem muito brasileira e, por isso, combina com nosso corpo e nossa energia.

Chico Vartulli – Em seu ponto de vista, o que define o ser artista?

Giovanna Sassi – Difícil essa definição. Arrisco dizer que é quem leva a arte como ofício. Isso envolve responsabilidade, dedicação e algum nível de autoria. Defendo que o artista compartilha com o mundo um sentimento seu. Algo toca você, e você leva isso para o mundo em forma de arte. Ser artista é cultivar um repertório sentimental e instrumental ligado à sua arte.

Junto a isso, defendo que há uma ligação familiar entre as gerações de artistas, sobretudo entre os atores, porque se aprende pela relação entre mestre e aprendiz. Os rituais do ofício só se aprendem na prática, com o outro. Por isso, ser artista também envolve reconhecer os grandes mestres.

Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?

Giovanna Sassi – Ainda vou circular com Anne Frank – Fragmentos do Diário. Fiquem de olho em @annefrankfragmentosdodiario para novas datas. Enquanto termino o mestrado, decidi me aventurar por algumas áreas.

A primeira delas é a direção. Vou voltar a trabalhar nessa área e, em breve, divulgarei o projeto pelas minhas redes, em @giosassi. A segunda é a comunicação. Pelo Instagram, converso com a nova geração de atores e levanto uma bandeira: levar o teatro para o churrasco de domingo.

Quero que o teatro seja assunto de churrasco, como é o futebol. Vamos popularizá-lo, levar as crianças e debater em família, como fazemos com um Fla-Flu. E, já que é para me aventurar, quem sabe não faço um podcast?

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Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

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