Minha entrevistada é Simone Ckless, fundadora e diretora do Laboratório Carioca de Moda. Sua trajetória começou na indústria, trabalhando como assistente de estilo e estilista, até abrir, em 1995, a própria confecção e atuar por cerca de 20 anos como fornecedora de diferentes marcas do Rio de Janeiro.
Ao longo desse caminho, Simone aproximou a moda das Ciências Humanas, da arte, da história, da cultura e da memória. Essa visão também orienta o trabalho desenvolvido no Laboratório Carioca de Moda, espaço dedicado tanto à formação técnica quanto à reflexão sobre o papel da moda na sociedade.
Chico Vartulli – Como você iniciou seu trabalho com moda?
Simone Ckless – Eu iniciei minha trajetória na moda trabalhando em confecções, primeiro como assistente de estilo e, posteriormente, como estilista. Foi uma experiência muito importante, porque me permitiu conhecer de perto todo o processo de criação e produção de uma coleção.
Em 1995, abri minha própria confecção. Passei, então, a desenvolver e fabricar peças para diversas marcas importantes do Rio de Janeiro. Foram cerca de 20 anos atuando como fornecedora, uma experiência que me proporcionou um conhecimento muito amplo sobre a indústria da moda, desde a criação até a produção e a relação com o mercado.
Foi um período fundamental para a construção da minha trajetória profissional e para entender a moda não apenas como criação, mas também como negócio e como indústria.
Chico Vartulli – Fale um pouco sobre a sua trajetória na área.
Simone Ckless – Minha trajetória na moda começou através do desenho. Minha família sempre foi muito ligada à arte, então esse universo esteve presente na minha formação desde muito cedo. A partir daí, fui me especializando, fazendo diversos cursos até chegar ao curso técnico de Estilismo e Confecção Industrial do SENAI CETIQT, que, na época, era o único curso com essa formação específica no Brasil.
Depois dessa formação, ingressei no mercado trabalhando como assistente de estilo e, posteriormente, como estilista. Em 1995, abri minha própria confecção, e foram cerca de 20 anos vivendo intensamente o mercado e conhecendo a moda também pelo lado da produção e da indústria.
Paralelamente, sempre tive um interesse muito grande pelas Ciências Humanas, porque acredito que a moda é um reflexo do comportamento, dos valores e das transformações da sociedade. Então, ao longo da minha trajetória, procurei sempre aproximar esses dois universos: a moda e as Ciências Humanas.

Chico Vartulli – O Rio ditava a moda anos atrás. Como você observa essa mudança?
Simone Ckless – Estamos vivendo um momento de crise que não é apenas do Rio de Janeiro, mas do país como um todo. O setor da moda, principalmente o de produção e desenvolvimento de produto, vem enfrentando muitas dificuldades e está, de certa maneira, tentando sobreviver. É um momento que exige muita adaptação e também uma reflexão sobre os caminhos que a moda brasileira pode seguir.
Ao mesmo tempo, estamos assistindo a movimentos muito interessantes. Existe uma valorização cada vez maior do Nordeste, da artesania, dos saberes tradicionais e de toda uma ancestralidade que, durante muito tempo, ficou em segundo plano. Isso é muito importante porque amplia o olhar sobre o que é a moda brasileira e mostra que a nossa identidade não está concentrada apenas nos grandes centros.
No caso do Rio, eu não vejo isso como uma substituição de um polo por outro, mas como uma transformação do cenário. O Rio perdeu parte da força que já teve na indústria e na produção, mas continua tendo uma identidade muito forte e uma enorme capacidade de gerar referência, comportamento e criatividade.
E acho que estamos começando a viver um momento de retomada. A movimentação em torno da Rio Fashion Week e de outras iniciativas mostra que existe um desejo de reconstruir e fortalecer novamente esse mercado.
Então, talvez seja cedo para dizer que o Rio voltou a ocupar o lugar que teve no passado, mas vejo sinais muito claros de uma retomada. E espero que essa retomada consiga unir a força da nossa indústria e da produção com a criatividade, a cultura, a artesania e a identidade que fazem parte da moda brasileira.
Chico Vartulli – E o Laboratório Carioca de Moda, como surgiu?
Simone Ckless – O Laboratório Carioca de Moda surgiu a partir da minha própria trajetória na indústria da moda. Depois de muitos anos à frente da minha confecção, fornecendo para grandes marcas do Rio de Janeiro, percebi que havia uma necessidade de ampliar o olhar sobre a formação em moda.
O Laboratório oferece, sim, cursos voltados para áreas técnicas e práticas da profissão, mas ele nasce com uma veia muito forte ligada à arte, à história, à cultura e ao comportamento. Para mim, compreender a moda é também compreender a sociedade, suas transformações, seus valores e as diferentes formas de expressão de cada época.
E existe ainda uma questão que considero fundamental: a memória. A roupa, os objetos, as imagens e os modos de vestir carregam histórias e são documentos de um tempo. Preservar e estudar essa memória também é uma forma de expressão e de construção de conhecimento.
Por isso, o Laboratório Carioca de Moda procura unir esses diferentes caminhos: a técnica e a prática profissional, mas também a reflexão, a pesquisa e a valorização da memória da moda.
Chico Vartulli – Qual é a proposta do Laboratório?
Simone Ckless – É um espaço para aprender a fazer, mas também para entender, questionar e perceber a moda como uma linguagem que dialoga diretamente com a arte, a cultura e a sociedade.
A proposta do Laboratório Carioca de Moda é ampliar o olhar sobre a moda. O Laboratório não oferece apenas cursos técnicos e voltados para a prática profissional, mas também procura estabelecer diálogos com a arte, a história, a cultura, a pesquisa e o comportamento.
Por isso, buscamos criar experiências que vão além da sala de aula, como visitas a exposições, encontros, talks e parcerias com instituições culturais. Um exemplo muito especial foi a parceria com a Casa Museu Eva Klabin, que nos permitiu desenvolver uma programação de talks com grandes nomes da moda e cursos em diálogo com a exposição Beleza Habitada: Eva Klabin, Moda e Memórias.
Foi uma experiência muito enriquecedora, principalmente porque nos permitiu trabalhar a moda a partir da memória, da história e da relação com a arte, mostrando como o vestir também pode ser um importante documento cultural.
Agora, iniciamos uma nova parceria com Códigos Futuro, levando essa proposta para o VillageMall, com cursos, encontros e outras experiências que continuam aproximando moda, arte, cultura, conhecimento e comportamento.
O Laboratório, portanto, procura ser justamente esse espaço de conexão: entre a técnica e a reflexão, entre o mercado e a cultura, entre o presente e a memória.

Chico Vartulli – Que dica você dá para quem quer iniciar a carreira na moda?
Simone Ckless – A primeira dica é entender que trabalhar com moda é algo muito amplo. Antes de tudo, é importante identificar em qual área você realmente tem vocação, interesse e desejo de atuar. Hoje, você pode trabalhar como estilista, pesquisador, produtor, figurinista, consultor e em muitas outras áreas.
Depois de descobrir onde você se identifica, é fundamental buscar especialização e conhecimento. Procure referências profissionais com as quais você se identifica, observe suas trajetórias e esteja sempre estudando e ampliando seu repertório.
E existe uma coisa muito importante: moda não é apenas glamour. Para quem deseja trabalhar, principalmente com criação, produção e confecção, existe muito trabalho, dedicação, disciplina e muito suor. É um setor extremamente competitivo e que exige preparo.
Então, eu diria: descubra o seu caminho dentro da moda, especialize-se, construa repertório, busque boas referências e esteja disposto a trabalhar muito. Porque talento é importante, mas conhecimento, dedicação e persistência são fundamentais para construir uma trajetória sólida.
Chico Vartulli – Têm surgido novos talentos? Você destacaria alguns?
Simone Ckless – Sim, muitos talentos têm surgido. O Brasil é um país muito rico em criatividade e, felizmente, estamos vivendo uma safra muito boa de novos profissionais e criadores.
Eu poderia citar alguns nomes, embora certamente vá esquecer muitos: Luiz Cláudio Silva, do Apartamento 03; Mayari Jubini, da Artemisi; Gustavo Silvestre; Lucas Leão; Airon Martin, da Misci, entre tantos outros que vêm se destacando nesse novo cenário da moda brasileira.
O que acho mais interessante é perceber a diversidade de linguagens e propostas que estão surgindo. São criadores que trazem novos olhares, novas referências e, muitas vezes, uma relação muito forte com a nossa cultura e com a nossa identidade.
Então, sim, acredito que o Brasil esteja vivendo uma safra muito boa de talentos. E é muito importante que esse novo cenário seja valorizado, porque são esses novos criadores que ajudam a construir os próximos capítulos da história da moda brasileira.
Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?
Simone Ckless – Meu projeto para o futuro do Laboratório Carioca de Moda é que ele alcance cada vez mais pessoas. Desde o início, procuramos construir um espaço democrático, acessível e aberto ao conhecimento, e isso também nos leva a pensar, futuramente, na criação de um projeto social que possa ampliar ainda mais esse acesso.
Queremos continuar fortalecendo as parcerias, porque acreditamos muito na potência da colaboração. Para nós, as parcerias somam, ampliam possibilidades e permitem levar a moda para diferentes espaços e públicos.
Também queremos continuar levando aos nossos alunos não apenas a técnica, mas a cultura, a história da moda, a pesquisa e a reflexão. Acredito que é dessa forma que conseguimos construir uma base mais sólida para os profissionais que estão chegando ao mercado.
No fundo, o grande sonho do Laboratório é esse: formar profissionais de moda com excelência técnica, mas também com conteúdo, repertório e consciência sobre o papel da moda na sociedade. Queremos contribuir para formar não apenas bons profissionais, mas pessoas capazes de pensar, criar e transformar a moda.


