Meu entrevistado desta semana é o arquiteto paulista Renan Altera, que assina o AVESSO Speakeasy, na CASACOR Rio 2026. Um projeto que reúne arquitetura, arte, design, música e gastronomia, transformando o espaço em uma galeria habitável no coração do Centro do Rio. Nesta conversa, Renan fala sobre as inspirações, a memória do edifício, os contrastes de materiais e a proposta de criar ambientes que despertam sensações e convidam à permanência.
Chico Vartulli – Olá, Renan! Como surgiu o projeto do AVESSO Speakeasy?
Renan Altera – O AVESSO surgiu da vontade de criar um bar que fosse além da experiência convencional. Quando conhecemos o edifício e entendemos toda a história e as referências que ele já carregava, percebemos que o projeto precisava estabelecer um diálogo com essa memória, e não simplesmente criar algo sobre ela.
Queríamos um lugar onde as pessoas tivessem vontade de ficar, criar memórias e descobrir cada espaço com tempo e atenção.
A partir daí, desenvolvemos a ideia de um speakeasy que também funcionasse como uma galeria habitável, unindo arte, arquitetura, design, música e gastronomia. O próprio nome AVESSO traduz essa intenção: revelar um outro lado do Centro do Rio, mais íntimo e sensorial, em uma experiência que se descobre aos poucos e valoriza o encontro, a contemplação e as conexões.
Chico Vartulli – Por que AVESSO ultrapassa a função tradicional de um bar?
Renan Altera – Porque nunca pensamos nele apenas como um lugar para sentar e tomar uma bebida. Queríamos criar uma experiência de permanência e encontro. Por isso, arquitetura, arte, design, música e gastronomia foram pensadas de forma integrada. O bar, operado pelo Câliner Gastronomia, faz parte dessa experiência, mas não é o único protagonista. Você pode chegar pela gastronomia e acabar descobrindo uma obra, um objeto, uma textura ou simplesmente ficando para uma boa conversa. É um espaço que convida a olhar com mais atenção e a permanecer um pouco mais.

Chico Vartulli – Qual foi a inspiração para AVESSO?
Renan Altera – O próprio Centro do Rio foi uma inspiração muito importante. Existe uma intensidade muito particular ali: história, arquitetura, cultura, boemia, arte e pessoas de diferentes universos convivendo o tempo todo. Quisemos trabalhar justamente com esse contraste entre o movimento da cidade e aquilo que acontece quando atravessamos a porta e mudamos de ritmo. O nome AVESSO vem muito dessa ideia de revelar um outro lado: sair do ruído para a conversa, da pressa para a permanência, do exterior para algo mais íntimo.
Chico Vartulli – Na função de galeria, como AVESSO se caracteriza?
Renan Altera – Gosto de pensar no AVESSO como uma galeria habitável. Não queríamos criar um espaço em que as obras simplesmente estivessem expostas nas paredes. A arte precisava fazer parte da arquitetura e da experiência de estar ali. Temos trabalhos de diferentes artistas e linguagens convivendo com mobiliário, objetos garimpados e com a própria história do edifício. Tudo convive de maneira muito orgânica, quase como uma coleção construída ao longo do tempo.
Chico Vartulli – De que forma a materialidade traduz os contrastes de AVESSO?
Renan Altera – O contraste está presente em praticamente todas as escolhas. Mantivemos o caráter mais bruto da arquitetura existente, com o teto rústico e as instalações aparentes, e colocamos isso em diálogo com materiais mais sofisticados, papéis de parede, mobiliário e pedras naturais. Na entrada, temos o Quartzito Luise Blue e, no interior, o Cristal de Quartzo Natural Translúcido Cristallo Antártida, que, retroiluminado, cria grandes planos de luz. A paleta também trabalha com tons profundos de azul, vinho e amarelo. Existe esse jogo constante entre bruto e precioso, escuro e luminoso, histórico e contemporâneo. E isso traduz muito bem o próprio conceito de AVESSO.
Chico Vartulli – Como arte, arquitetura e memória se associam no projeto?
Renan Altera – Elas estão completamente conectadas. O edifício já nos entregava uma história muito potente, inclusive com os murais originais de Clóvis Graciano, que foram cuidadosamente mantidos. Para nós, era fundamental respeitar essa memória e permitir que ela participasse do novo projeto.
Ao mesmo tempo, trouxemos arte contemporânea, novos objetos, mobiliário e outras materialidades. Então não existe uma tentativa de reproduzir o passado nem de escondê-lo. O que existe é uma convivência. Gosto muito dessa ideia de que o passado não precisa ser cenário: ele pode continuar sendo matéria viva e ganhar novos significados conforme o espaço volta a ser ocupado.

Chico Vartulli – Em que medida AVESSO é o avesso do Centro da cidade?
Renan Altera – Talvez ele seja o avesso justamente porque não tenta negar o Centro. Do lado de fora existe movimento, intensidade, ruído, pessoas indo e vindo. Dentro do AVESSO, usamos essa mesma energia para propor outra relação com o tempo. O acesso é convidativo e intimista e, aos poucos, o espaço vai se revelando até chegar ao living.
É uma mudança de ritmo. A pressa dá lugar à pausa; o ruído, à conversa; o movimento, ao encontro. Nesse sentido, AVESSO é um refúgio dentro da própria efervescência do Centro. Não para se desconectar da cidade, mas para experimentá-la de outra maneira.
Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?
Renan Altera – Estamos vivendo um momento muito especial no escritório. Em 2026, celebramos dez anos da Altera Arquitetura e Interiores com dois projetos muito importantes na CASACOR: Reflexões Intemporais, em São Paulo, e agora AVESSO, no Rio de Janeiro. São projetos bastante distintos, mas que traduzem o momento que estamos vivendo e os caminhos que queremos continuar explorando.
As mostras são também um espaço de experimentação para nós. É onde conseguimos explorar nossa identidade criativa com mais liberdade, ousar, fugir um pouco do óbvio e investigar novas possibilidades que depois também levamos aos nossos clientes, sempre preservando a sofisticação e a elegância que fazem parte da identidade do escritório.
Para os próximos projetos, queremos aprofundar ainda mais essa arquitetura que une rigor técnico, identidade, arte e experiência, tanto no residencial quanto em novas escalas e usos. Queremos continuar crescendo de forma consistente, sem perder o que sempre foi essencial para a Altera: criar espaços conectados às pessoas, ao contexto e às histórias que existem por trás de cada projeto.


