A artista visual Flavia Fabbriziani apresenta Geografia das Memórias, exposição que parte das relações entre memória, percepção e paisagem para investigar como as experiências vividas permanecem e se transformam ao longo do tempo.

Na entrevista, Flavia fala sobre a concepção da mostra, as pinturas reunidas, a influência da natureza em sua paleta de cores e a maneira como lembranças pessoais e familiares ganham novas formas por meio da arte.

Chico Vartulli – Olá, Flavia! Como surgiu o projeto da exposição Geografia das Memórias?

Flavia Fabbriziani – O projeto surgiu a partir de um convite que recebi de Christiane Laclau, por meio de uma iniciativa do secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Lucas Wosgrau Padilha, para realizar uma exposição na Cidade das Artes. Eu me encantei com o espaço, não apenas pela dimensão e pela arquitetura, mas pelas possibilidades que ele oferecia para pensar o trabalho de outra maneira. A partir das obras que apresentei à Christiane, ela identificou a memória como um eixo muito presente na minha pesquisa e propôs Geografia das Memórias. Gostei muito dessa ideia de pensar as diferentes memórias como uma espécie de geografia, formada por lugares vividos, afetivos, imaginados e transformados pelo tempo.

Chico Vartulli – Quais são as produções que você exibe?

Flavia Fabbriziani – A exposição reúne principalmente pinturas, muitas delas em grandes formatos, realizadas em diferentes momentos da minha pesquisa. São trabalhos em que a paisagem aparece atravessada pela memória e pela percepção, algumas vezes a partir de lugares vividos, outras de lugares lembrados ou mesmo imaginados. A mostra apresenta também Anthologia, uma série de pinturas sobre papel translúcido, criada a partir do reencontro com flores que permaneceram durante décadas entre as páginas de antigos livros da minha família. As marcas e dobras desse papel deram origem a abstrações dessas flores. Se antes eram as flores que permaneciam guardadas entre as páginas de um poema, em Anthologia proponho uma inversão: são as flores que passam a guardar o poema, como se cada pintura encontrasse uma forma própria de lhe responder.

A artista visual Flavia Fabbriziani em registro fotográfico. — Foto: Vera Donato / Divulgação

Chico Vartulli – Como está estruturada a exposição?

Flavia Fabbriziani – A exposição não segue uma ordem cronológica. A curadoria da Christiane aproxima diferentes geografias da memória: há lugares vividos, como a paisagem da minha infância; lugares que retornam transformados pelo tempo, como os pátios e jardins da Itália que hoje se misturam ao meu entorno no Rio; há a memória afetiva e familiar presente em Anthologia e até uma geografia imaginada, como em Youkali. São experiências muito diferentes, mas que se encontram na maneira como permanecem no corpo e reaparecem transformadas no trabalho.

Chico Vartulli – Quais são os temas que você aborda na exposição?

Flavia Fabbriziani – A exposição atravessa questões que estão muito presentes na minha pesquisa: memória, percepção, corpo, tempo e paisagem. Interessa-me especialmente perceber como uma experiência permanece em nós e pode retornar transformada na pintura. Não busco representar uma paisagem tal como ela é, mas aquilo que ela desperta e deixa como presença. Por isso, meu trabalho transita entre a abstração e algo que ainda pode ser reconhecido, sem se fixar completamente em nenhum dos dois lugares.

Chico Vartulli – Como está montada a sua paleta de cores?

Flavia Fabbriziani – A cor é um dos pontos de partida do meu processo. Costumo escolher algumas cores antes de começar e me ancorar nelas durante a construção da pintura. O verde aparece muito, inevitavelmente. Vivo e trabalho cercada por uma vegetação muito intensa no Rio de Janeiro, então acho que ele acaba invadindo também a minha percepção. Mas não penso numa paleta fixa nem busco reproduzir as cores da natureza. Para mim, a natureza talvez seja uma das maiores fontes de abstração: é inesgotável em relações de cor, luz, ritmo e forma. A partir dessas referências, construo uma paleta própria para cada trabalho.

Flavia Fabbriziani em momento de reflexão sobre seu processo criativo. — Foto: Vera Donato / Divulgação

Chico Vartulli – Qual é a definição de memória que você partilha?

Flavia Fabbriziani – Penso a memória em camadas. Há camadas mais antigas, outras recentes, e elas nunca permanecem isoladas: misturam-se ao presente, ao entorno e à fase da vida em que estamos quando rememoramos. Por isso, não acredito muito numa “lembrança exata”. Quando volto a uma memória, já sou outra e, de alguma maneira, acrescento uma nova camada a ela. É quase uma cartografia em permanente transformação. Em Domus, por exemplo, a memória de pátios e jardins da Itália encontra a vegetação, a luz e a experiência do Rio de Janeiro. Na pintura, esses tempos podem coexistir.

Chico Vartulli – De que forma a arte pode ser utilizada para preservar a memória?

Flavia Fabbriziani – A preservação da memória e do patrimônio é uma questão muito cara para mim, inclusive pela minha formação em Gestão de Museus, mas, no meu trabalho artístico, não penso em preservar no sentido de conservar uma memória intacta. Interessa-me mais rememorar, permitir que uma experiência retorne, seja percebida novamente e adquira outros sentidos. A arte pode preservar justamente ao manter uma memória viva, sujeita a novas leituras e transformações. Anthologia talvez torne isso muito visível: aquelas flores ficaram décadas dentro dos livros, mas, quando as reencontro, elas deixam de ser apenas vestígios de uma história familiar e passam a produzir uma nova experiência no presente.

Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?

Flavia Fabbriziani – Quero retomar e aprofundar uma pesquisa que comecei há cerca de dois anos e que acabou desaguando na série Domus. Tenho muito interesse pelos espaços internos e por como habitamos pátios, jardins protegidos, jardins de claustros e também por essa relação entre interior e exterior, intimidade e paisagem. Quero voltar a olhar para esses lugares e investigar como eles podem aparecer na pintura não como arquitetura ou representação, mas como espaços atravessados pela percepção, pela memória e pelo tempo.

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Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

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