Multi-instrumentista, compositor, arranjador e diretor musical, Fernando Moura construiu uma trajetória marcada pela diversidade sonora e pela colaboração com artistas de diferentes gerações e países.

Com atuação no Brasil e no Japão, ele reúne experiências que atravessam a música instrumental, o cinema, a televisão e o teatro.

No lançamento em vinil de “Ipanema 87 (ao vivo)”, o músico resgata um registro raro de sua carreira e reconecta o público a uma fase importante da produção instrumental carioca.

Em entrevista à Revista Vislun, ele fala sobre memória, tecnologia, parcerias, projetos futuros e os caminhos de uma vida dedicada à criação musical.

Fernando Moura na década de 1980, período fundamental para sua produção musical e para a cena instrumental carioca. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Olá, Fernando Moura! Qual é o balanço que você faz dos seus cinquenta anos de carreira?

Fernando Moura – Uma carreira muito variada, com atividades musicais que se dividem entre música instrumental, trilhas para cinema, TV e teatro, com atuação no Brasil e no Japão, onde trabalho desde 1998 com artistas locais.

Chico Vartulli – Quais são as novidades que você apresenta ao público no lançamento em vinil do registro inédito e raro de sua trajetória, “Ipanema 87 (ao vivo)”?

Fernando Moura – A novidade é conseguir resgatar uma fita K7, transformar seu som em digital e, por meio da inteligência artificial, separar as tracks e remixar tudo, mantendo intactas as performances, sem truques, para tocar ao vivo novamente quase 40 anos depois, com a mesma qualidade técnica e mais 37 anos de experiência.

Chico Vartulli – Como está estruturado o álbum?

Fernando Moura – O álbum reúne músicas do meu primeiro LP, Passeio Noturno, além de algumas que apareceram depois no meu disco solo, já em CD, de 1992, Cinema Tocado, como criação dos Bicudos. É um LP com cerca de 40 minutos de música ao vivo, sem truques.

Chico Vartulli – Além de lançar o álbum, você acabou de fazer um show no Teatro Brigitte Blair, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Como foi essa apresentação?

Fernando Moura – Sim, o show é um resgate de uma época muito produtiva da música instrumental carioca: os shows no Jazzmania, no Parque da Catacumba e no Circo Voador, a Globo FM, o besteirol e a cultura de Ipanema dos anos 1980, que alimentaram e caracterizaram a produção cultural carioca da época.

Chico Vartulli – Como você se define como músico?

Fernando Moura – Difícil me definir, até para mim. Um cara que tocou, numa mesma vida, com George Martin, Chuck Berry, Steve Hackett, Zé Ramalho e Lady Zu; que fez mais de 30 trilhas sonoras para longas-metragens, além de inúmeras séries de TV e espetáculos teatrais, abraçando estéticas totalmente diferentes.

Penso que o público poderá me definir melhor. Eu diria que minha vida é um eterno “sim”, fazendo todo tipo de criação musical. Sou um artista da música.

Fernando Moura apresenta seu mais novo projeto, Ipanema 87 (ao vivo), registro raro que resgata uma fase importante de sua trajetória artística. — Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Qual foi a importância dos anos 1980 para a música brasileira?

Fernando Moura – Os anos 1980 trouxeram a primeira grande leva de incorporação da eletrônica à música e foram fundamentais tanto para o surgimento do rock brasileiro quanto para o fortalecimento da MPB, que passou a usar novos elementos além dos regionais, em criações cada vez mais misturadas ao pop, como fizeram Marisa Monte, Titãs, Paralamas do Sucesso, Marina e tantos outros.

Chico Vartulli – Sua parceria com o ator Ricardo Blat e seu irmão, o escritor Rogério, atravessa décadas. Um novo capítulo começa a despertar em 2026 com o espetáculo “Subversão Kafka”. Você poderia nos adiantar algo sobre o projeto?

Fernando Moura Subversão Kafka é um trabalho que surgiu a partir de um convite para gravar a trilha sonora, e acabei compondo as músicas ao mesmo tempo em que os ensaios aconteciam, tocando tudo ao vivo.

Como o espetáculo virá para o Rio, não quero adiantar muito, mas o setup que utilizo inclui iPad com vários aplicativos exclusivos, toy piano, piano eletrônico, teclado e theremin — aquele instrumento russo que produz sons a partir de ondas eletromagnéticas.

Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?

Fernando Moura – Mais quatro álbuns serão lançados ao longo de 2026, além de um livro de depoimentos meus a Pedro Tinoco sobre meus 50 anos de carreira profissional. Também farei mais uma ida ao Japão para a comemoração dos 20 anos de existência da banda Ganga Zumba, da qual sou produtor e arranjador.

O grupo nasceu de uma associação com músicos japoneses, surgida a partir da coprodução de um álbum do cantor japonês Miyazawa Kazufumi, em 1998, em parceria com Marcos Suzano.

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Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

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