Artista visual e professor licenciado em Arte, GAFI, nascido Guilherme Augusto Ferrari Melo em 1986, em Santo André, cidade do ABC paulista, expõe cinco esculturas-móveis e pinturas abstratas até 31 de julho na BS Galleria, na capital paulista. O artista já realizou residências em três continentes: na Ásia, em Macau, antiga “China portuguesa”; na Europa, em Portugal; e na América do Sul, no Rio de Janeiro, na Casa Voa.

No Brasil, suas primeiras exposições individuais, realizadas simultaneamente fora de sua cidade, aconteceram em São Paulo, na galeria Base, então nos Jardins, e no Rio de Janeiro, na galeria g o z t o, no Beco do Boticário, em maio de 2023. Hoje, além da exposição em São Paulo, parte de outra fase de seu trabalho também está em vitrine de peso fora do país, no Consulado brasileiro em Tóquio, no Japão.

Desafiamos o articulado jovem artista, aos 40 anos, a apresentar novas explicações e definições sobre suas atuais peças autorais e escultóricas em massa plástica e resina, além das pinturas em tinta sobre papel, telas e chapas. O que elas nos dizem? A conversa aconteceu a partir da exposição na BS Galleria, de Beth Santos, no Jardim Paulistano.

Chico Vartulli – GAFI, como você classifica suas novas peças tridimensionais da exposição Entre ação e paisagem, organizada pela galeria carioca g o z t o, no espaço da BS Galleria, em São Paulo? Afinal, são esculturas ou móveis, mesas e bancos?

GAFI – Gosto de pensar que elas habitam justamente esse lugar de indefinição: podem ser bancos ou mesas, mas nascem como esculturas. Ao longo do processo, a função aparece como mais uma camada de significado da obra. As peças carregam referências dos canteiros de obras e da cultura da gambiarra, e são construídas a partir de fragmentos e materiais reaproveitados.

Existe a preocupação com o uso, mas também com a presença, o equilíbrio, a forma e a narrativa que cada material carrega. Por isso, não defino se são isso ou aquilo. Vejo as obras como um encontro entre arte e design. E gosto quando alguém pergunta se pode sentar ou percebe que o banco pode ser escultura.

Acredito que as peças falam sobre maneiras de sustentar corpos, histórias e relações. Carregam a memória do fazer manual e transformam estruturas de apoio em linguagem poética.

GAFI em seu ateliê, em Santo André, revisando os acabamentos das peças em processo. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – Além do skate como locomoção e esporte, em que outras ondas você surfa na arte? E desde quando, como na pintura mural e sobre diversas superfícies, essa verve começou a fluir?

GAFI – O skate foi uma das primeiras formas de me relacionar com a cidade. Antes de pensar em arte como profissão, já percorria ruas, praças, escadarias e espaços esquecidos com ele, o que me ensinou a observar arquitetura e fluxos urbanos, e a enxergar possibilidades onde as pessoas viam obstáculos.

Assim, aproximei-me do graffiti, que me apresentou cor, desenho e escala. Comecei a pintar muito jovem, ocupando muros e espaços públicos, entendendo a cidade como um grande campo de experimentação e, principalmente, a ideia de que a arte poderia dialogar com as pessoas no cotidiano.

Com o passar dos anos, essa energia foi encontrando novos caminhos. Vieram pinturas em tela, aquarelas, esculturas, instalações e, mais recentemente, mobiliários escultóricos, tudo isso como parte da mesma onda.

O que muda são ferramentas e materiais; o interesse continua sendo compreender como as pessoas constroem, ocupam e transformam os espaços ao seu redor. Minha produção nasce do encontro entre rua e ateliê. E cada trabalho é uma maneira diferente de investigar essas relações. Hoje, dialogo com a cidade ao construir uma escultura ou um mobiliário.

Chico Vartulli – Quais seriam os temas, e de onde vêm todas essas ideias? Quais são as suas inspirações?

GAFI – Meus trabalhos nascem da observação do cotidiano. Tenho interesse pelas transformações que acontecem ao nosso redor e que passam despercebidas: os trabalhadores da construção civil, os profissionais responsáveis pela manutenção dos jardins, os materiais acumulados em um canteiro de obras, uma reforma em andamento ou uma praça sendo cuidada.

São pessoas e situações simples, mas que carregam histórias profundas sobre trabalho, tempo e construção da paisagem. Cresci na Vila Guiomar, em Santo André, onde vivo e mantenho ateliê, um lugar marcado pela presença dos antigos conjuntos habitacionais do IAPI, em reformas constantes, e pela convivência entre memória e transformação.

Crio uma espécie de mapeamento afetivo das presenças das pessoas ali, tanto em Santo André quanto nas cidades em que circulo no Brasil e em outros países. Mais do que um interesse pela paisagem pronta, interessa-me o processo. Observar quem planta, quem poda ou constrói, e como essas ações transformam continuamente o território.

No fundo, meu trabalho fala sobre as relações entre ação e paisagem, daí o nome da atual exposição. Cada pintura, escultura ou móvel é uma tentativa de tornar visíveis as forças humanas e naturais que moldam os lugares que habitamos.

Chico Vartulli – No exercício do fazer artístico, quais são suas principais atividades diárias?

GAFI – Hoje, uma delas é dedicar grande parte do tempo ao desenvolvimento da minha carreira, na produção das obras e nos desdobramentos que surgem a partir delas. Ser artista não se resume ao momento de criação no ateliê.

Existe o trabalho constante de pesquisa e organização, escrita de projetos, montagem de exposições, diálogo com curadores, galerias e instituições, além da reflexão sobre os caminhos que a própria pesquisa vai indicando. E a produção continua sendo o centro de tudo.

Meu ateliê funciona como espaço de experimentação, onde desenho, pinto, construo esculturas e desenvolvo mobiliários. Nos últimos anos, também tem ganhado muita importância minha atuação como arte-educador. Dou aulas de pintura, e gosto de compartilhar processos ligados à construção da imagem, à percepção da forma, da cor e da composição.

O ensino alimenta minha prática artística porque me faz revisitar constantemente questões fundamentais da pintura e observar diferentes maneiras de olhar o mundo.

Como uma espécie de laboratório em escala real, estou reformando minha casa e, aqui, experimento soluções espaciais, materiais, cores e formas, uma continuidade da minha pesquisa. Descubro como aproximar arte, design e arquitetura a partir das necessidades do dia a dia, transformando o espaço em campo de observação, criação e construção permanente.

GAFI apresenta, em escala humana, a série de mesinhas recém-finalizada em seu acervo. — Foto: Arquivo pessoal / Divulgação

Chico Vartulli – A experiência para além de sua cidade natal, que fica na região do Grande ABC, no Brasil e no exterior, tem sido importante em que medida?

GAFI – Santo André continua sendo o lugar de onde parto. Aqui cresci e construí meu olhar, as referências mais profundas e o ateliê. Grande parte da minha pesquisa nasce da observação do território que habito desde a infância. Ao mesmo tempo, sair desse contexto e vivenciar outras cidades e culturas tem sido fundamental para compreender questões que são universais.

Viajar e desenvolver projetos em diferentes lugares me permitiu perceber como cada cidade constrói sua própria paisagem, suas dinâmicas de trabalho e modos de ocupação, e suas relações com a memória. Embora os contextos sejam distintos, existe algo em comum nas formas como as pessoas transformam e habitam os espaços.

Observo as particularidades culturais de cada lugar, os hábitos cotidianos, os materiais utilizados, as formas de construir e os pequenos gestos que definem a identidade de uma comunidade.

Gosto também de conhecer sabores locais, texturas, aromas e perfumes que habitam cada cidade. Memórias sensoriais permanecem comigo: um cheiro, uma planta, uma comida ou uma atmosfera específica podem ficar guardados na memória e reaparecer mais tarde como referência em uma pintura, escultura ou combinação de materiais.

Experiências como a exposição em Macau, na China, os projetos realizados em Portugal e o trabalho desenvolvido junto à Embaixada do Brasil no Japão ampliaram muito minha percepção sobre materialidade, arquitetura, cultura e território. Essas vivências também fortaleceram meu interesse pela paisagem, pelas espécies vegetais e pelas relações entre ação humana e natureza.

Assim, compreendo melhor o lugar de onde venho. Quanto mais conheço outras paisagens e culturas, mais percebo as singularidades de Santo André e das histórias que atravessam minha pesquisa. Entre partir e retornar, cada viagem amplia meu repertório sem romper o vínculo com minhas origens.

Chico Vartulli – Seu futuro profissional, na real, a quem pertence: ao pintor, ao muralista, ao escultor, ao designer ou a alguma outra atividade também?

GAFI – Sinceramente, eu não sei. Essa é uma das coisas que mais me motivam a continuar produzindo. Meu futuro profissional pertence muito mais à minha maneira de viver e observar o mundo do que a uma linguagem específica.

Neste momento, estou envolvido com a pintura, os mobiliários escultóricos, a educação e os desdobramentos da minha pesquisa. Mas, olhando minha trajetória, percebo que muitas das coisas mais importantes que aconteceram comigo surgiram de caminhos que eu jamais havia imaginado.

As peças atuais vieram naturalmente como uma necessidade da pesquisa e hoje ocupam lugar importante. Por isso, tenho dificuldade em pensar o futuro ocupando categorias preestabelecidas. Acredito que essas definições são e serão consequência dos processos que estou vivendo, e não necessariamente um objetivo em si.

O que procuro preservar é a curiosidade, a que me levou do graffiti à pintura, às esculturas e aos mobiliários em sequência. Talvez o futuro pertença justamente ao que ainda não conheço. E, para mim, é nesse espaço de abertura que o trabalho continua acontecendo.

Chico Vartulli – Quais aprendizados você, como professor, gostaria de trazer para seus alunos ou seguidores em todos os sentidos?

GAFI – Antes de pintar uma paisagem, uma flor ou uma figura, é preciso aprender a olhar para elas. Procuro compartilhar meu processo. Falo de erros, tentativas, mudanças de percurso e da importância da experimentação.

Proponho um exercício de atenção: gosto de mostrar que a inspiração não está distante da nossa realidade. Talvez o aprendizado mais importante seja compreender que cada pessoa possui seu próprio tempo e sua maneira de construir uma linguagem.

Não acredito em fórmulas prontas, mas em processos, curiosidades e disposição para continuar aprendendo. Como professor e artista, incentivo justamente isso: a confiança para experimentar, observar com mais profundidade e perceber que a arte não está separada da vida. Ela acontece na forma como nos relacionamos com o mundo, com as pessoas e com as experiências que atravessam nosso caminho.

Compartilhar.

Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

Adicione um comentário
Você precisa fazer o para publicar um comentário.