A exposição reúne as produções artísticas confeccionadas por Vik Muniz, produzidas entre 1987 e os dias atuais, incluindo esculturas, fotografias, instalações e trabalhos inéditos criados especialmente para a edição carioca da mostra, num total de 220 obras.

A curadoria é de Daniel Rangel, que selecionou as produções mais pertinentes do artista, entre inéditas, restauradas e recriadas em novas versões, localizando-as no âmbito de suas respectivas séries, fato que facilita a compreensão das obras e o entendimento da exposição. Portanto, a mostra é percorrida com todas as explicações necessárias, deixando transparecer um caráter didático e possibilitando ao público a imersão no universo criativo do artista.

A exposição inicia no térreo, no hall de entrada do edifício.

Visualizamos, suspensa, “Tropeognathus mesembrinus” (2026), da série Museu de Cinzas, réplica do fóssil de um pterossauro feita a partir de cinzas recolhidas dentro do prédio do Museu Nacional incendiado. Criativa e original.

E a obra “Medusa Marinara”, exposta sob o piso. Trata-se de uma obra instigante e reflexiva, uma leitura interpretativa do mito grego por um artista visual. Ela foi desenhada com spaghetti ao molho de tomate.

Por sua vez, no hall da bilheteria, visualizamos a obra “Ferrari Berlinetta” (2014), da série Veículos Mnemônicos (2014-2026), réplica dos carrinhos da marca Matchbox em escala humana. Arte de memória.

Ao entrarmos nas galerias do primeiro andar, o que observamos são produções marcadas pela criatividade, inquietude e ousadia.

As produções artísticas de Vik Muniz são criativas, primam pela originalidade, apresentam diversidade de formas e escalas, utilizam materiais alternativos como matéria artística (açúcar, chocolate, feijão, caviar, pasta de amendoim e geleia, papel recortado, diamantes, brinquedos de plástico, revistas, tinta, notas de dólares inutilizadas, bem como de reais, cartões-postais, restos de impressões fotográficas, lixo, resíduos da rua, sucata, cinzas de incêndio e células vivas), estimulam o pensamento, são poéticas, bem-humoradas, coloridas, questionadoras, reflexivas, políticas, provocativas, encantadoras, impactantes, exploram a tensão entre memória individual e coletiva e são contemporâneas.

No nosso ponto de vista, ganham destaque a série Capital (2024), em que as produções são feitas a partir de notas de vinte dólares inutilizadas, como Águia da Cabeça Branca (2024) e Bisão Americano (2024). Predominam os tons branco e preto.

E a série Dinheiro Vivo (2022/2024), que utiliza fragmentos de papel-moeda (real) para a criação das obras. Visualizamos Estrada da Matriz de Várzea, a partir de Telles Junior (2024), e Mata Reduzida Carvão, a partir de Félix Taunay (2022). A paleta de cores assume a tonalidade característica das notas de real.

Em ambas, visualizamos obras expandidas, em escalas monumentais.

Bem como no âmbito da série Imaginária (2019/2024), ganhando destaque as figuras devocionais de santos e imagens históricas da arte sacra. Parte mais barroca da produção do artista. Bonita e emotiva. Traz a questão da fé para a mostra. Produções criadas com recortes de papéis, que apresentam um visual notável.

A obra São Jorge e o Dragão, a partir de Gustave Moreau (2018), produzida de forma magnífica a partir de recortes de materiais como tecidos e papéis diversos e colagens.

Nos retratos criados por Vik Muniz, vemos a diversidade de agentes sociais. Foram retratadas pessoas pretas; crianças em situação de rua; crianças cujos pais trabalham de forma exploratória nas plantações de açúcar nas Antilhas; revolucionários como Che Guevara; artistas hollywoodianos; mulheres de ex-presidentes; personagens de ficção científica; Mona Lisa, entre outros. Portanto, pessoas de todos os níveis sociais e personagens ficcionais.

Visualizamos na produção do artista a preocupação com as questões sociais. As duras condições de vida das famílias das crianças antilhanas, cujos pais trabalhavam nas plantações de cana-de-açúcar; os trabalhadores do aterro de Jardim Gramacho, recolhendo lixo; as crianças em situação de rua na cidade de São Paulo, vivendo em meio à sujeira das ruas, entre outras situações. Portanto, o olhar social se faz presente em sua arte.

As mulheres pretas também foram objeto de sua produção. Em Mulher com Turbante (2020), vemos a figura de uma mulher preta retratada de forma tradicional, com turbante na cabeça, construída com recortes em tons preto e branco.

Por sua vez, Florida (2022) retrata uma mulher preta toda adornada com joias de ouro, cordões, anéis, brincos e braceletes, bem como a própria vestimenta. Uma outra perspectiva de representação das figuras pretas.

Próximo às duas telas aparece a escultura Lei da Probabilidade (2010-2025), representando o equilíbrio da balança, com os dois pratos carregados de ouro. A justiça, sobretudo a justiça racial, promovendo a igualdade no tratamento entre pretos e brancos.

Na série Álbum (2014-2026), visualizamos o valor que o artista concede à família, retratando pais com seus filhos; crianças em momentos de diversão e na escola; e o próprio retrato de Vik na primeira infância. Todas as produções em preto e branco, feitas com recortes de papel.

Visualizamos a preocupação de Vik com o incêndio do Museu Nacional, instituição que representa a memória da ciência brasileira, destruída na tragédia. Vik recolheu as cinzas no local do incêndio e produziu Museu Nacional (2019) e Caveira Paleolítica (Luzia) (2019), assim como a produção da rotunda, “Tropeognathus mesembrinus”, conforme já comentamos anteriormente.

Vik Muniz quer impactar o público, deixá-lo alucinado. Ele partilha uma definição da arte como uma poética que provoca encantamentos e questionamentos. E esse público que ele visa alcançar são os seus pares, ou seja, os artistas visuais. Ainda que utilize materiais simples, do cotidiano, de características populares, que podem ser encontrados nas ruas ou feiras, sua arte, no nosso ponto de vista, não é popular. Ela é uma arte reflexiva, produzida para provocar o público, deixá-lo pensando. Tem erudição e visão crítica. Não é fácil compreendê-la. Ela é profunda e densa, não rasa e superficial. Ela é complexa. Não é para leigos.

Ainda que seja uma arte sofisticada, aqueles que não são especialistas podem apreciá-la, pois ela é de bom gosto, criativa e nos deixa perplexos. É real ou ilusão?

Excelente produção de artes plásticas!

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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