O texto de Dario Fo, com adaptação de Maíra de Grandi e Roberto Birindelli, é satírico, bem-humorado, divertido, poético, irreverente, reflexivo e crítico. Ainda que trate de um tempo pretérito, dos primeiros momentos da vida de Jesus Cristo, apresenta questões que permanecem centrais na sociedade contemporânea.

O texto apresenta uma sátira aos primeiros anos da vida de Jesus Cristo, com base no Evangelho apócrifo de Mateus e em contos populares. A narrativa nos leva aos tempos pretéritos do Cristianismo primitivo, ao nascimento de Jesus e à visita dos três reis magos. E prossegue apresentando a tentativa dele de brincar com os colegas da região, sendo rejeitado por eles num primeiro momento e, num segundo, aceito após conseguir fazer pássaros de barro voarem. Os milagres do menino Jesus!

Em continuidade, aparece montado num cavalo o “filho do patrão”, que destrói os brinquedos com chutes grosseiros. Ao visualizar a cena, Jesus diz que quer matar aquele homem, deixando transparecer raiva e ódio no seu coração, em vez de se acalmar e pregar a paz. Portanto, a narrativa nos apresenta um Jesus humanizado, um simples mortal, que comete os mesmos acertos e erros que qualquer ser humano, bem como um homem com poderes que o capacitam a realizar milagres, até mesmo de forma exagerada.

Roberto Birindelli interpreta de forma notável. É uma encenação concentrada na figura do ator e na valorização do texto narrado. Ele apresenta uma interpretação refinada, de alta qualidade, e emociona. Impressionante a capacidade do ator, que interpreta com qualidade diversos personagens — vinte e dois no total — para narrar a vida do menino Jesus e dos demais personagens que integram a história, apresentando uma variedade de vozes. Ele utiliza todo um conjunto de gestos e movimentos corporais. Movimenta-se intensamente pelo palco. Estabelece uma boa comunicação com o público, dialogando e interagindo com ele. Portanto, uma atuação de qualidade e de mérito.

A direção de Maíra de Grandi focou no texto e deixou o ator à vontade no palco para realizar a sua valiosa interpretação.

Não há cenografia nem figurino elaborado. O ator utiliza camisa de manga comprida e calça preta.

A iluminação de Aurélio de Simoni é boa! Apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação do ator. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando a interpretação de Birindelli.

Il Primo Miracolo apresenta um texto de qualidade, que reúne crítica, humor e sátira; uma direção potente, que valorizou o texto e concedeu liberdade ao protagonista; e um ator com uma atuação irrepreensível.

Excelente e imperdível produção cênica!

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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