O texto de Braulio Tavares e Ana Carbatti é musical, biográfico e não linear; recupera a trajetória do cantor e compositor Gonzaguinha; é baseado em fatos reais, apresentando pesquisa profunda, sedimentada em cartas, gravações e textos do próprio personagem; o conjunto das canções do homenageado constitui o fio da narrativa do espetáculo; cruza as canções com sua trajetória de vida; evidencia aspectos da brasilidade nas suas composições; memória; celebração; poético; emocionante; vibrante; pulsante; contemporâneo. critica_GonzaguinhaÉ

O texto mostra a dificuldade de situar Gonzaguinha como representante de um único gênero musical; sublinha a pluralidade e a diversidade de temas presentes nas suas composições; e evidencia a atualidade das canções, deixando transparecer o quanto a sociedade brasileira é pouco permeável às mudanças.

A narrativa é toda costurada por meio das músicas cantadas ao vivo, de forma poética e sentimental, com o manejo de instrumentos musicais e intensa utilização de gestos e expressões corporais. Portanto, as músicas são partes constitutivas do texto. Texto e músicas estão interligados. Esse aspecto é o diferencial do espetáculo. critica_GonzaguinhaÉ

O elenco é integrado por Ádren Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos e Ricca Barros, atores da Cia. Barca dos Corações Partidos, que recebem as artistas convidadas Ana MaGa, Luiza Loroza, Nívea Magno e Thati Dias.

Eles estão unidos, entrosados, ajustados, pulsantes e vibrantes. Eles interpretam de forma refinada, cantam, tocam instrumentos, realizam coreografias e emocionam. Eles cantam ao vivo e estão acompanhados por instrumentos musicais, fato que confere uma intensa musicalidade ao espetáculo, dando uma sonoridade incrível ao mesmo. Os “atores-músicos” apresentam uma linguagem poética, sensível, musical. Também realizam todo um gestual interpretativo e expressões corporais. Movimentam-se intensamente pela ribalta, ocupando todos os espaços. Realizam movimentos coreográficos harmônicos e equilibrados, relacionados às canções. São dinâmicos, ágeis, rápidos, versáteis e eficientes. Portanto, o elenco realiza uma apresentação arrebatadora, transbordando vontade, energia e vibração. critica_GonzaguinhaÉ

Cena de Gonzaguinha É, musical que revisita a trajetória e a obra do cantor e compositor Gonzaguinha. — Foto: Marcelo Rodolfo / Divulgação

O personagem Gonzaguinha é diluído pelo elenco. Todos o interpretam. E, ao atuarem, apresentam-se, conforme já mencionado, com um instrumento. Eles associam interpretação e emoção.

A direção de Inez Vianna é dedicada, ousada, corajosa, autêntica e emocionante, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco protagonista e dos demais atores.

Os figurinos criados por Carol Lobato são de bom gosto, coloridos, criativos e facilitam a locomoção dos atores pelo palco.

A cenografia criada por Mina Quental é bem solucionada e adequada. Interage com a iluminação.

A direção musical e os arranjos são de Alfredo Del-Penho e Beto Lemos, transparecendo qualidade e competência, produto de uma seleção rigorosa no conjunto das composições de Gonzaguinha, dando ao espetáculo uma sonoridade poética, pulsante e emocionante. Os arranjos criados são musicalmente criativos e apresentam harmonias progressistas. critica_GonzaguinhaÉ

A iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação do elenco. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as atuações do elenco.

O musical tem diversos bons momentos. Mas, no nosso ponto de vista, o momento ápice se dá quando Ricca Barros canta É, de forma emocionante e vibrante. E, logo a seguir, o mesmo ator apresenta a gravação de uma fala de Gonzaguinha no show do Dia do Trabalhador, no ano de 1980, no Riocentro, quando bombas explodiram durante o evento. Momento memória, resistência.

Gonzaguinha É consiste num musical cujas canções do compositor dão o tom da narrativa e servem de alicerce para construir a trajetória do personagem; um elenco com uma atuação de qualidade e merecedor de elogios, que interpreta, canta e toca instrumentos musicais; e uma direção potente, criativa e ousada.

Excelente e imperdível produção de artes cênicas!

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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