O texto de Maurício Arruda Mendonça, Jopa Moraes e Paulo de Moraes, a partir de A Gaivota, de Anton Tchékhov, é dramático; trágico; conflituoso; alterna momentos de tensão com outros de bom humor; relacional; emocionante; utiliza recursos audiovisuais, bem como modernos meios tecnológicos; parte de uma obra escrita no século XIX, mas apresenta questões que permanecem centrais na sociedade contemporânea. Discute temas como fama, glória, reconhecimento, pertencimento, ansiedade, traição, dramas do amor, conflitos de gerações e criação artística.
No centro da narrativa estão Konstantin Treplev (Jopa Moraes), jovem escritor que argumenta que o teatro não passa de rotina e superstição, propõe a criação de novas formas e sonha em transformar a linguagem teatral, e Nina (Lorena Lima), aspirante a atriz fascinada pela ideia de sucesso, glória e realização artística. Ela acalenta o sonho de subir ao palco. Os dois almejam desesperadamente pertencer ao universo teatral e alcançar sucesso, reconhecimento e prestígio.
Jopa e Lorena estão unidos, entrosados, afinados e ajustados. Interpretam de forma refinada e emocionam. Estabelecem diálogos sutis e tocantes. Dominam o texto e o palco e estabelecem boa comunicação com o público. Portanto, apresentam atuações de qualidade e comoventes.
Ao redor deles, figuras consumidas pelo desgaste emocional expõem a fragilidade dos vínculos humanos.
Entre os personagens aparece Irina (Patrícia Selonk), mãe de Konstantin, uma atriz egocêntrica, possessiva, perversa e causadora de intrigas e traições. Ela detestou o texto do filho, argumentando ser um disparate decadentista, e não estava disposta a ouvir pretensões a novas formas e a uma nova era na arte. É a pivô da trama, causadora de conflitos e discórdias que conduzirão a um final trágico.

Selonk dá uma verdadeira aula de interpretação! É uma atriz de primeira qualidade, uma das maiores do Brasil. É potência e competência! É quente, vibrante, pulsante, emoção pura! Toca o coração! A personagem se casou perfeitamente com Patrícia.
Irina e Konstantin deixam transparecer os embates entre tradição e renovação artística, bem como os conflitos geracionais.
Ao lado de Irina está o escritor consagrado e seu amante Trigórin (Bruno Lourenço), homem pragmático e de mau caráter. Ele atrai Nina para si, fazendo com que ela se apaixone por ele e abandone Konstantin. Nina engravida de Trigórin, que passa a se relacionar com duas mulheres, colocando-as em situação de rivalidade. Trigórin e Irina são traiçoeiros.
Também podemos destacar a atuação de Sórin (Sérgio Machado), irmão de Irina, aposentado e ex-funcionário público da Justiça, que não consegue se adaptar à vida no campo. Ele deseja retornar às grandes cidades. Sente falta até do cheiro de óleo diesel!
Bem como a atuação do médico Dorn (Fe Bustamante), racionalista, frio e seco. Ele se pronuncia a favor de Konstantin, afirmando gostar de seu texto.
Isabel Pacheco interpreta Masha, uma mulher infeliz que se veste de preto, claramente em luto por seu amor não correspondido por Konstantin.
Os integrantes do elenco e seus respectivos personagens mantêm a homogeneidade das atuações e a qualidade da apresentação. Constroem personagens intensos e pulsantes: interpretam, cantam e emocionam. Portanto, evidencia-se a qualificação técnica do elenco.

No nosso ponto de vista, duas cenas atingem o ápice. A primeira é aquela em que ocorre a apresentação teatral e Irina detona o texto de Konstantin. A segunda é aquela em que Irina faz um curativo na cabeça de Konstantin e, a seguir, os dois estabelecem um intenso diálogo. Cena forte e emocionante!
A direção de Paulo de Moraes é dedicada, ousada, corajosa, autêntica e irreverente, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.
Entre as passagens do texto, Paulo, com competência, inseriu músicas bem cantadas e interpretadas pelo elenco, que toca os instrumentos com segurança e firmeza, inclusive guitarra e percussão, conferindo um caráter musical à peça.
A montagem de Paulo não é clássica. Não há figurinos de época, e o texto original é adaptado ao tempo presente. O diretor reuniu em um único ato os quatro atos originais e não realiza mudanças de cenário.
O diretor deixa transparecer a atualidade do texto e o quanto ele permanece contemporâneo. Despiu a obra de tudo aquilo que pudesse datá-la, introduzindo elementos que não existiam na época, como aparelho celular, guitarra, percussão e drones. Transformou o texto em uma linguagem contemporânea e atual, possibilitando uma melhor compreensão por parte do público. Ponto positivo!
O que afirmamos acima vai ao encontro da fala de Paulo de Moraes, conforme aparece no release disponibilizado pela assessoria de imprensa da peça teatral: “Um clássico não pode ser tratado com reverência. Ele permanece vivo justamente porque continua produzindo atrito, desconforto e conflito. Em A Gaivota, o que mais me atravessa é a necessidade humana de pertencimento. Mais do que reconstruir Tchekhov, nosso desafio é descobrir como essa gaivota continua nos observando hoje”.
Os figurinos criados por Carol Lobato são compostos por roupas dos dias atuais. Homens e mulheres usam jeans, diferentes tipos de calçados e camisas de diversas tonalidades. São simples, adequados ao texto e funcionais.
A cenografia de Carla Berri e Paulo de Moraes é composta por um grande tablado, onde se desenvolve a encenação, com mesa e cadeiras, além dos instrumentos musicais dispostos nas laterais.
Ao fundo, há uma tela na qual são exibidas diversas projeções em preto e branco.
A iluminação de Maneco Quinderé é boa! Apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas do elenco.
A direção musical é de Ricco Vianna, funcional e eficaz, brindando o público com uma trilha sonora de qualidade, composta por canções nacionais e estrangeiras que, de alguma forma, dialogam com o conjunto das cenas.
Gaivota é uma montagem atemporal da obra de Tchékhov, deixando transparecer sua atualidade; apresenta um elenco homogêneo, com interpretações refinadas e emocionantes; e uma direção ousada e competente.
Excelente e imperdível produção cênica!


