O texto de Milla Fernandez é uma autoficção, emocionante, impactante, realista, transgressor, contemporâneo, humanista, mistura realidade e imaginário, encontra-se na fronteira entre verdade e ficção.
De forma chocante e avassaladora, mas não pornográfica, Milla Fernandez narra a experiência como camgirl durante a pandemia. A ausência de trabalhos naquele momento obrigou-a a procurar outros espaços de atuação, que não o cênico. Ela se despiu de todas as verdades absolutas e dos falsos moralismos, para encarar, com o apoio da sua família, o universo do entretenimento adulto. Nas plataformas digitais, passou a exibir as imagens que os seus admiradores solicitavam, em troca de remuneração. Prática que se tornou rotineira, sobretudo com os chamados Onlyfans. Ela se lançou ao fogo e não teve receio de se machucar. Longe dos holofotes, ela se entregou, de forma corajosa e valente, enfrentando a lasciva masculina. Ganhou gorjetas! Inclusive, o valor ganho num dia equivalia ao que seu marido ganhava em seis meses. Foi ao fundo do poço, mas não perdeu a sua dignidade.
O texto deixa transparecer o lugar central que a mulher ocupa na nossa sociedade e em suas respectivas famílias. Antes confinadas ao lar e sem voz, hoje elas são personagens centrais da dinâmica social e exercem as mesmas atividades outrora só exercida pelos homens. Milla deixa transparecer a sua liberdade de escolha, a sua opção de manter a sua sobrevivência da forma que melhor lhe convinha, enfrentando os mandos e desmandos do patriarcado. Ela é resistência numa sociedade onde o machismo e os valores misóginos, racistas e preconceituosos ainda imperam.
Milla Fernandez tem uma atuação notável. Uma performance singular! Ela está segura e faz com verdade. Ela interpreta corretamente e emociona. Ela impacta o público com as suas narrativas. Domina o texto e o palco. Ela também toca sax, canta, se enrola no tapete e devora um pepino. Tudo perfeitamente e, repito, sem vulgaridade alguma. Portanto, uma atuação deferida e merecedora de elogios.
A direção de Rodrigo Portella focou no texto e deixou a atriz livre para realizar a sua interpretação notável.
O figurino de Karen Brusttolin é original, criativo, bem solucionado, sensual e facilita a intensa movimentação da atriz pelo palco.
A cenografia criada por Rodrigo Portella é mínima e simples. Ela é constituída por um tapete vermelho, o “tapete da fama”, por onde a atriz se movimenta no palco e, num determinado momento, se enrola nele. Ademais, um sax, uma cadeira de rodinhas e um notebook.
A iluminação criada por Rodrigo Portella é boa, apresenta um bonito jogo de luzes, predominam os tons branco e vermelho, e contribui para realçar a interpretação da atriz de suas personagens.
A trilha sonora original é de Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi, é correta e adequada, sendo complementada por Milla Fernandez, que toca sax durante o espetáculo.
Há um casamento perfeito entre figurinos, cenografia e iluminação, formando um conjunto harmonioso e equilibrado.
Excelente produção de artes cênicas!



