O segundo espetáculo da Companhia tem como título O Babauzeiro.
É um espetáculo de teatro de mamulengos que remonta à origem da Carroça de Mamulengos (CM). Narra como tudo começou trazendo bonecos que deram origem à Trupe. Realiza-se uma viagem ao túnel do tempo, em que a travessia nos leva ao começo de uma história, à origem, a construção da genealogia.
O Babauzeiro insere-se no que se chama de teatro de bonecos, integrado pelos brincantes da cultura popular.
Carlos Gomide, criador da CM, recebeu das mãos do seu mestre paraibano Antônio do Babau os primeiros bonecos, como Benedito, e mantém a tradição de exibi-lo nos espetáculos.
O espetáculo é constituído pelos seguintes bonecos-personagens: Benedito, sua esposa Joaninha, e o filhote Cassimiro; João Bondade; Mané Vou-lá-Hoje; Sabirinho; tatuposa e tatuposinha; Severino Boa Nova; Chico Abelha. Todos bonecos.
O personagem principal é Benedito, casado com Joaninha, que é vaqueiro, lá na Paraíba.
A história narra que o fazendeiro Joao Maria José dos Santos, o Joao Bondade, cria em sua propriedade um pomar, repleto de frutas. Ele as cultiva e colhe. São alimentos para a subsistência das famílias e para serem distribuídas nas escolas. Ele estabeleceu que são para doação, e não podem ser comercializadas.
João Bondade é uma pessoa boa, humana, tem um coração bondoso, está preocupado com a alimentação das populações, a sua subsistência. Não visa o lucro, não quer comércio.
Ao sair de viagem, Bondade contrata um funcionário para tomar conta da fazenda. É lhe dá duas ordens: não deixar ninguém vender as frutas; e, quando aparecer o tatuposa, mistura de tatu com raposa, impedir que os caçadores o ataquem, e esconde-lo na fazenda. O contratado foi Benedito.
Benedito estava acostumado a cuidar do gado. Tomar conta de um pomar era um desafio. Mas ele precisava do trabalho e do salário, base do sustento da sua família. Ele era casado com Joaninha, e tiveram um filho, Cassimiro.

A população ia à fazenda pegar frutas. Como exemplo o Chico Abelha que recolhia as frutas para levá-las para os seus netinhos. Portanto, elas serviam como sustento para as famílias da região.
De repente, aparece um novo personagem, Mané Vou-lá-Hoje, que vem tumultuar as ações.
Mané ficou sabendo da fazenda e do seu pomar. E o seu olhar cresceu. Ele queria pegar as frutas para comercializar, ganhar dinheiro. Pegou um balaio, encheu de frutos, e foi vende-las. Ele é o oposto de Bondade. Um está preocupado com a alimentação das populações por meio de doações. Por sua vez, Mané quer o dinheiro, ganancia, usura. “O bolso é maior que a barriga”.
Por sua vez, Benedito ao ficar sabendo das atitudes de Mané, o perseguiu, e empatou com um pedaço de pau, não deixando Mané levar o balaio com as frutas.
Mané quer dinheiro! Aprisionou o passarinho Sabirinho; o tatuposa; o galo da mãe de Benedito. Tudo por dinheiro! Malandro, não gosta de trabalhar.
Benedito agiu rapidamente e empatou as ações de Mané. Exigiu que ele libertasse os animais. E a seguir ordenou que ele falasse que ele era ladrão de galo, galinha, peru e pato.
Até as roupinhas do filhote Cassimiro Mané queria vendê-las! Dessa vez foi Joaninha quem empatou!
Mané viu que não conseguia êxito. Então, ele resolveu ir para Brasília, tentar conseguir um emprego de assessor parlamentar!
As atitudes de Benedito lhe geraram resultados positivos. Seu patrão, João Bondade, reconheceu o seu mérito, e lhe escreveu uma carta. Na mesma, bondade o convidava para vir morar na fazenda, onde havia uma casa bastante cômoda, onde podia acomodar ele e sua família. A carta mandava realizar a mudança imediatamente, e deveria informar ao caseiro Juvenal.
Benedito e família realizam a mudança, e vão residir na nova casa da fazenda.

O texto de Carlos Gomide é lúdico, poético, pedagógico, instrutivo, e representativo da cultura popular, do teatro de mamulengos. Tem uma mensagem que valoriza a comunidade, o partilhar, a preocupação com os próximos, e, sobretudo, com a alimentação. A doação de alimentos é um ato de amor ao próximo, de carinho e afeto.
Toda a ação se passa num tolda onde os brincantes (Carlos Gomide, e Isabel Gomide) manejam os bonecos. Estes ganham vida, e o público interage com os mesmos o tempo todo. Há uma intensa interação entre o público e os bonecos. Eles dialogam e conversam, mantendo o público atento e participativo. Portanto, toda a ação se passa nessa potente comunicação entre os bonecos e os espectadores.
Os bonecos, criação e construção de Carlos Gomide, são expressões da arte popular, criativos, originais, e confeccionados de forma perfeita. Eles são feitos sobretudo a partir da utilização de cabaças. Ganham destaque no nosso ponto de vista o sabirinho, mistura de sabiá com canarinho, o tatuposa, mistura de raposa com tatu; Benedito, e seu filho Cassimiro, que “urina” no público. Criatividade e imaginação!
A cenografia de Carlos Gomide é adequada e colorida. A tolda na parte dianteira apresenta um pano em tom azul com decoração de flores, e nas partes laterais tecido em cor rosa. Na parte traseira há um cortinado estampado, e na parte superior à bandeira do Brasil.
A iluminação criada por João Gioia apresenta bonitos desenhos coloridos de luz, e realça os bonecos.
O Babauzeiro é um espetáculo que narra a origem da companhia de teatro Carroça de Mamulengos; os bonecos são criativos e originais; e apresenta um intenso diálogo entre os bonecos e o público. Excelente produção cênica!