O texto de Florian Zeller é dramático, potente, denso, emocionante, humanista e poético. Mescla humor e tensão, sendo relacional, reflexivo, crítico e contemporâneo. Mostra o impacto que o mal de Alzheimer causa em uma família e todo o transtorno que a doença provoca: os medos, os conflitos, as confusões e a falta de paciência. O acometido pela enfermidade começa perdendo a sua memória recente, que, com o avanço da doença, ruma para a perda da memória total e das funções vitais. O texto apresenta um caráter pedagógico, na medida em que ensina como deve ser tratado o acometido: com amor familiar, carinho, afeto e cuidado — e não com gritos, tapas e impaciência.
O ator Fulvio Stefanini interpreta André, tendo uma atuação notável. Ele associa a experiência de longos anos de palcos a uma interpretação comovente e de grande qualidade, e emociona. Ele esquece, fica confuso, teimoso, reclamão, sente saudades, chora e dança. Deixa transparecer um homem com Alzheimer e o avançar do estágio da doença, sobretudo por meio de suas expressões faciais. Ao final, ele já está com os olhos caídos, a boca aberta e mal se locomove. Atuação de mestre! Merece muitos aplausos e elogios.
Os demais integrantes do elenco (Lara Córdula, Fulvio Stefanini Filho, Déo Patricio, Carol Mariottini e Léo Stefanini) mantêm a qualidade do espetáculo, complementando a atuação de Fulvio e estabelecendo com ele diálogos intensos e velozes, embora André, em alguns momentos, já não consiga mais responder em função da perda cognitiva. O elenco está unido, entrosado e afinado. Elenco competente!

A direção de Léo Stefanini é realista e marcada por alternar momentos de humor e tensão, além de realizar marcações certeiras e precisas que guiam o elenco em sua atuação empolgante e de qualidade.
Os figurinos de Lelê Barbieri são compostos por roupas do cotidiano, adequadas à proposta da peça e que facilitam o deslocamento dos atores pelo palco. O elenco troca de figurinos ao longo do espetáculo, com exceção do personagem André, que mantém o mesmo figurino durante toda a peça.
A cenografia é constituída por estante, mesa com cadeiras, cadeira de rodinhas e outros móveis. À medida que o texto se desenvolve, alguns elementos cenográficos vão sendo retirados de cena. Ao final, na casa de repouso, restam apenas a estante e a cadeira de rodinhas onde André está sentado.
A iluminação criada por Diego Cortez apresenta um bonito desenho de luz e contribui para realçar a interpretação dos atores em seus respectivos personagens. Além disso, a luz cria e marca o ritmo e o dinamismo do espetáculo. Ela varia de acordo com o contexto das cenas, complementando as falas dos atores e produzindo sensações. Há momentos de luz que são intercalados por escuridão, delineando um momento de ruptura.


