Em um momento de forte polarização política no Brasil, em que o passado volta a ser intensamente disputado no espaço público e em que parte da sociedade relativiza ou até nega a existência da ditadura militar, o debate sobre memória, verdade e democracia se torna ainda mais urgente. Nesse cenário marcado por autoritarismos, extremismos, desinformação e negacionismo, uma pergunta ganha força renovada: o que ainda nos resta dizer sobre 1964? A resposta é simples e, ao mesmo tempo, decisiva: ainda há muito a dizer.

Muito já se escreveu e se produziu, nos últimos tempos, seja no formato de livros, de documentários, de filmes de ficção e de seriados, sobre o ano de 1964 e os seus impactos sobre a sociedade e a política brasileira. Sem dúvida a diversidade promoveu novas análises sobre os seus desdobramentos. Aliás, o processo de democratização nos anos de 1980, a mobilização da sociedade se revelou através de situações concretas, como as reveladas pelo grupo Tortura Nunca Mais. Mais recentemente o debate sobre o futuro do prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) no Centro do Rio de Janeiro, e sobre a parte do seu acervo ter sido transferido para o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ) reacende a discussão.

O golpe de 1964 é um dos acontecimentos mais impactantes na história do Brasil. De um lado, representa o ápice da radicalização de forças antagônicas que disputavam projetos distintos de desenvolvimento econômico e social, bem como divergiam quanto à atuação política e cultural no país. Ao mesmo tempo, simboliza o ponto de partida da estruturação de uma ditadura militar que teve consequências profundas para a sociedade brasileira. Refletir sobre o golpe exige considerar o embate de forças nele implicadas. Se, para estruturar e fortalecer a ditadura militar no Brasil, os militares se apropriaram do aparato do Estado, contaram com apoio de empresários e de parcelas da sociedade civil, além de empregarem sistematicamente a violência física e simbólica, contudo, isso não impediu a criação de estratégias diversificadas de resistência.

Coletânea inscrita no Prêmio Jabuti Acadêmico 2026

Inscrita no Jabuti Acadêmico de 2026, a coletânea ‘1964: O que ainda nos resta dizer?’ abre caminho ao buscar elementos que fogem ao padrão das interpretações já existentes. O livro mostra como a ditadura manifestou em diferentes escalas e experiências, deixando marcas materiais e simbólicas que ainda atravessam o presente. O mérito da coletânea está justamente em demonstrar que ainda temos muito a dizer sobre a ditadura militar brasileira, especialmente quando deslocamos o olhar para temas que nem sempre ocuparam lugar de destaque nos debates mais consolidados, mais tradicionais. O livro mostra, assim, que a história da ditadura não se esgota nos marcos mais conhecidos da repressão política, mas se amplia quando observada com olhar sobre novos temas, com a possibilidade novas abordagens.

É isso que se percebe na leitura dos seus oito capítulos. O livro aborda a demolição do prédio da Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, destruindo, junto aos escombros, memórias e identidades; um curta-metragem que, em 1968, abordava a homossexualidade no contexto da contracultura, algo inovador até então; a investigação no campo das artes plásticas em eventos ocorridos em Salvador e Belo Horizonte, em 1966 e 1968, respectivamente; as  canções e vozes femininas na resistência ao autoritarismo, recorrendo a discos de vinil, o Long Play, como fonte documental; o genocídio dos povos originários, em particular os Kinja e os Krenak, assim como do reconhecimento recente dos crimes cometidos também contra os Guarani-Kaiowá; a luta dos trabalhadores pela posse da terra, que não começou com o MST; as remoções de moradores das favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro para lugares distantes, violência perpetrada durante a ditadura dos militares com a conivência da sociedade; e, por fim, a luta da Comunidade do Horto, no Jardim Botânico, também na Zona Sul da cidade, para garantir o seu direito à moradia.

Ao reunir temas tão diversos, a coletânea amplia o campo das perguntas. Como lembra o historiador Jorge Ferreira (autor de João Goulart: Uma biografia) em sua apresentação sempre há o que dizer sobre 1964. Questões e temas que até então eram considerados sem importância são reavaliados pela sua relevância e mérito. Nesse sentido, o livro não apenas revisita 1964, mas aponta que ainda é possível discutir temas originais, inéditos e relevantes sobre a ditadura civil-militar brasileira.

Desse modo, estar inscrito na disputa ao Jabuti Acadêmico de 2026 não é um mero detalhe. Reforça um trabalho que, ao mesmo tempo, dialoga com uma tradição consolidada de estudos sobre a ditadura e abre caminho para novas abordagens. Em um campo já marcado por muitas publicações, que envolvem desde a corporação militar, a doutrina de segurança nacional, a propaganda política, os órgãos de repressão, o movimento estudantil, a luta armada, o terrorismo de Estado, a transição democrática, a anistia e tantos outros temas, a coletânea demonstra que esse passado está longe de se esgotar, se reafirma pela relevância do tema, e pela sua atualidade política e intelectual.

Mais do que responder de maneira definitiva à pergunta que levanta, a coletânea reafirma que sempre haverá o que dizer sobre 1964. E essa talvez seja sua principal contribuição hoje: insistir que a reflexão sobre a ditadura continua sendo parte da luta por memória, verdade, justiça e democracia. Em um país ainda atravessado por resíduos autoritários, revisitar criticamente esse passado não é apenas um exercício acadêmico. É também uma forma de defender, no presente, um país mais justo, independente, plural e democrático.

Luciene Carris é doutora e mestre em História Política (UERJ) e graduada e licenciada em História pela mesma universidade. Realizou estágios pós-doutorais no Laboratório de Geografia Política (USP), no Departamento de História (PUC/Rio) e no Departamento de História (UERJ). É pesquisadora do Laboratório de Imagem, Memória, Arte e Metrópole (IMAM) da UFRJ, integra o GT de História Urbana da ANPUH/Rio, é sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ) e sócia honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Atualmente, atua como gerente do Centro de Ensino e Pesquisa do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

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