E se você descobrisse, através de sonhos e da intuição no seu coração, que não era filho biológico dos seus pais?

O solo-experiência idealizado e interpretado por Mathias Bildhauer retorna para sua segunda temporada na Sede Cia dos Atores, ocupando as noites de quarta-feira de abril com uma proposta que escapa ao formato tradicional e se aproxima de um encontro. Sob a direção de Ingrid Manzini e assistência de direção Vitor Louzada, a obra reafirma seu caráter autoral ao transformar palco em território de partilha.

Em cena, Mathias não apenas interpreta — ele se expõe. Em uma autoficção delicadamente construída, o artista costura memórias, vivências e atravessamentos pessoais que orbitam temas como adoção, saúde mental e a experiência de existir enquanto pessoa LGBTQIAPN+. Há também um fio afetivo que passa pela arte, pelas novelas e pela escrita, como se cada referência fosse uma tentativa de organizar o mundo — ou de sobreviver a ele. O resultado é um relato íntimo que, paradoxalmente, encontra eco no coletivo.

A encenação se estrutura a partir de perguntas que não pedem respostas fáceis: o que nos constitui enquanto indivíduos? Onde nos encontramos no outro? Em tempos marcados pela exaustão, pelas bolhas identitárias e pela mediação constante das telas, o espetáculo convida a uma pausa — quase um respiro. Ao evocar a saudação maia “In Lak’ech Ala K’in” e o pensamento de Carl Rogers, a obra sugere que aquilo que há de mais íntimo também é, inevitavelmente, compartilhado. E talvez seja justamente aí que resida sua força.

Mais do que assistir, o público é convidado a atravessar uma experiência sensorial que incorpora práticas como sound healing e meditação da inteligência do coração, ampliando a dimensão do encontro. Após uma estreia bem-sucedida em 2024, que mobilizou plateias e reverberou nas redes — com direito a comentários de Ivete Sangalo —, Eu Sou Outro Você retorna não como repetição, mas como continuidade de um processo vivo, desses que ainda estão em curso enquanto acontecem.

Atravessando as camadas íntimas que estruturam a peça, o jornalista Rodolfo Abreu conversou com Mathias Bildhauer sobre o impulso que deu origem ao espetáculo e os desdobramentos dessa experiência em cena. Na entrevista, o artista revela como transforma sua própria trajetória em matéria sensível e compartilhável para criar uma vivência imersiva. Entre reflexões sobre identidade, afeto e coletividade, Mathias reafirma o desejo de que sua história seja, antes de tudo, um convite: olhar para si, reconhecendo no outro um espelho possível.

Acompanhe a entrevista.

Eu sou outro você – Mathias Bildhauer

Rodolfo Abreu: O que esse espetáculo vai trazer para o público que for assistir a nova temporada?

Mathias Bildhauer: Uma experiência única de conexão, sem querer ser pretensioso, mas é uma obra muito autêntica, que busca trazer elementos como soundhealing, inteligência do coração e integração com o público na dramaturgia, para que a gente, imersos nesta vivência, viva algo que nos faça se identificar, se divertir, se emocionar e independente da emoção que vier, sentir e se conectar!

Rodolfo Abreu: Você diria que o mergulho que você faz em si mesmo na peça conduz o público para fazer esse mesmo mergulho em si?

Mathias Bildhauer: Totalmente, eu sinto que quando surgiu a ideia de escrever uma peça autobiográfica, a primeira dúvida fundamental foi: mas, não é egocentrismo demais fazer uma peça sobre mim? Nesse questionamento, me veio o pensamento do psicólogo Carl Rogers que diz que o que há de mais pessoal é o que há de mais universal. E realmente, este era meu objetivo, não falar de mim, mas falar de nós, abrir meu coração para dores e alegrias tão pessoais e íntimas, mas que podem ser comuns, que façam parte de um inconsciente coletivo ou que independentemente de ser algo totalmente distante de alguém, fala sobre sentir, algo que é nosso, humano. A base dessa peça é a nossa capacidade de sentirmos coisas e como lidamos com tudo isto.

Rodolfo Abreu: De que forma você integrou elementos de sua múltipla formação profissional na peça?

Mathias Bildhauer:
Muitas pessoas me definem como uma pessoa lúdica, e acho que uma peça que fala sobre mim precisaria necessariamente ser uma experiência que promovesse essa sensação. Eu sou graduado em Turismo e Hotelaria e tenho muitas formações no universo do autoconhecimento e bem-estar, hoje, faço pós graduação em Psicologia e Artes cênicas e Musicoterapia, que são universos que na essência são uma coisa só. Pensei que numa peça que fala sobre aquilo que existe no meu coração, caberia eu trazer para a cena uma prática de inteligência do coração, onde proponho todo mundo viver essa conexão e trago elementos de soundhealing/terapia sonora no começo do espetáculo, já criando uma atmosfera lúdica e imersiva. Além disso, minha amiga Marcitta Ayres desenvolveu um aroma especial para a peça e com a direção de Ingrid Manzini e assistência de Vitor Louzada, pensamos em cada detalhe de elementos para despertar sensorialmente múltiplas sensações. Já que estamos falando sobre sentir, queria que a plateia se envolvesse por completo.

Rodolfo Abreu: A inspiração do título veio de uma saudação da civilização maia. Por que escolheu esse título?

Mathias Bildhauer: Eu me considero uma pessoa inquieta e curiosa, gosto muito de estudar, já mergulhei da Cabala a técnicas filipinas de irradiação de energia, e acredito muito no poder das palavras, acho que os artistas tem esse poder, de através delas, criar mundos e plasmar sentimentos. A peça fala muito sobre isto, o quanto a arte me salvou com estes recursos de “Abracadabra”, de poder abrir portais de criação em meio a situações de solidão e traumas. Na pesquisa do espetáculo me recordei desta frase, que é uma saudação maia e que tem tudo a ver com a temática, pois, apesar de ser uma peça sobre mim, ela é também sobre o outro e sobre nós, e sem querer me apropriar culturalmente dela, mas sim, reforçar a beleza disso, de a gente se ver no outro, quis trazer ela como título, também por ser um espetáculo experiência, algo lúdico, ritualístico.

Rodolfo Abreu: Uma das curiosidades dessa temporada foi a divulgação que a Ivete Sangalo fez, postando no Instagram dela um vídeo convidando as pessoas para assistir seu espetáculo. Você é bastante fã do trabalho e da pessoa da Ivete. Como aconteceu isso e como esse fato se alinha à temática do espetáculo?

Mathias Bildhauer: Ivete é referência na minha vida desde a infância, não só pelo seu trabalho e músicas que exalam energia positiva, mas sobretudo, pela sua postura, hábitos e virtudes, que me ensinam muito a ser uma pessoa melhor. Há mais de 20 anos vou a shows dela (já fui a mais de 50) e sou aquele fã que divulga tudo, vai a aeroporto, hotel, e Ivete é uma pessoa tão generosa e cuidadosa com todos, e com os fãs não é diferente, ela se envolve, cria um vínculo, se interessa. Nessa relação, sempre que a encontro ela pergunta também do teatro e nessa troca, ao fazer uma live recentemente, ela me perguntou e pediu as informações para divulgar, e assim ela fez. Foi um presente lindo e cheio de amor. Uma peça que fala sobre mim teria que falar de Ivete também, então a homenageio em um dos capítulos descontraídos da minha história, que chamo de O Carro pois, na jornada da vida, Ivete é a minha trilha sonora oficial.

Ivete Sangalo e Mathias Bildhauer

SERVIÇO
Temporada: 1, 8, 15, 22 e 29 de abril de 2026 | Quarta-feira | 20h
Sede Cia dos Atores
Escadaria Selarón, Rua Manuel Carneiro, 12 – Santa Teresa, Rio de Janeiro – RJ
Estações de metrô mais próximas: Cinelândia/Glória
Duração: 60 min.
Classificação etária: Livre
Ingressos: https://www.sympla.com.br/evento/eu-sou-outro-voce-sede-cia-dos-atores/3347365
 
Instagram: @eusououtrovoceteatro
Site: https://mathiasbildhauer.com/eusououtrovoce
 
Texto e entrevista por: Rodolfo Abreu (@rodolfoabreu)
Imagens: Divulgação

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Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

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