Nascido no Dia Internacional do Teatro e no Dia Nacional do Circo, o ator Fabiano Costa (@fabianocostaoficiall) percebeu ainda na infância sua inclinação artística, mas foi em 1998, ao ser convidado para integrar um projeto infantil, que começou a transformar essa vocação em profissão. Desde então, vem construindo um percurso que transita entre diferentes linguagens, do teatro à televisão, passando pela comunicação e pelas artes circenses.
A televisão lhe reservou um dos momentos de maior visibilidade: sua participação no humorístico Zorra Total, interpretando uma versão de Ronaldinho Gaúcho, em um trabalho que exigiu pesquisa sobre o jogador e observação do comportamento humano. No teatro, os espetáculos infantis também fazem parte de sua formação, assim como as experiências ligadas ao carnaval carioca, incluindo sua participação no tradicional bloco Gigantes da Lira. Essa diversidade de experiências ajuda a compreender um intérprete que reconhece na voz, no corpo e no domínio do tempo cômico ferramentas fundamentais de seu ofício.
Atualmente, Fabiano está em cartaz em Lábios que beijei – o romance da Lapa (@labiosquebeijei.teatro), espetáculo da produção de DelRio Realizações e Isabella Barros Produções, inspirado nas memórias de Aguinaldo Silva sobre sua chegada ao Rio de Janeiro, no final dos anos 1960. Na montagem, ele interpreta Bixete, fiel escudeiro de Débora Khar, personagem vivida por Guilherme DelRio. Entre a comicidade e a lealdade, a figura que acompanha sua “Magnânima” revela outras camadas: afeto, companheirismo e sobrevivência em uma Lapa atravessada pela boemia, pela marginalização social e pela repressão da ditadura. Para construir o personagem, Fabiano recorreu ao estudo daquele universo e encontrou na relação entre os dois personagens um dos principais caminhos para a interpretação. A peça está em cartaz no Teatro Glauce Rocha em outubro e no Teatro Vannucci em novembro.
Artista com nanismo, Fabiano Costa também chama a atenção para a necessidade de ampliar as oportunidades para atores e atrizes com essa condição, especialmente no audiovisual, onde ainda há espaço para diversificar os personagens oferecidos a esses profissionais. Sua trajetória coloca em evidência uma questão que ultrapassa a representatividade: o reconhecimento de artistas por sua capacidade de interpretar, experimentar e ocupar diferentes lugares na cena. Nesta entrevista, ele fala sobre formação, humor, encontros profissionais e personagens marcantes, além de refletir sobre os desafios de uma carreira construída a partir do desejo de viver daquilo que mais ama: a arte de interpretar. Acompanhe a entrevista.

Rodolfo Abreu: Quando em sua vida você percebeu sua veia artística e decidiu seguir pelo campo artístico? Como foi seu início nessa área?
Fabiano Costa: Nasci no dia internacional do teatro e no dia nacional do circo. Então eu nasci realmente para ser artista. Percebi as minhas habilidades artísticas ainda quando criança. Porém eu decidi ser realmente ator em 1998, quando fui chamado para fazer parte de um projeto infantil. Então ali realmente foi o início da minha carreira como ator.
Rodolfo Abreu: Você é comunicador e artista circense. Que habilidades desenvolveu nessas outras atividades que hoje utiliza no palco? O circo, por exemplo, exige precisão, domínio corporal, timing e capacidade de lidar com o imprevisto. Como esse repertório aparece na sua maneira de interpretar?
Fabiano Costa: Sim! Eu sou comunicador e artista circense. Como comunicador eu uso a habilidade da minha voz para interpretar no palco e como circense eu uso a habilidade do corpo. Do circo eu levo a habilidade do repertório, muito também do corpo.
Rodolfo Abreu: Você atualmente está em cartaz na peça “Lábios que beijei”, a história de vida do Aguinaldo Silva, quando chegou ao Rio no final dos anos 1960. Como surgiu o convite para participar dessa produção?
Fabiano Costa: O convite para participar desse novo projeto, “Lábios que beijei “, surgiu através do produtor Guilherme DelRio. Antes eu participei do projeto em “Em nome do filho”.
Rodolfo Abreu: Em “Lábios que beijei”, Bixete é o fiel escudeiro de Débora Khar, sempre disposto a atender aos pedidos de sua “Magnânima”. Como você construiu essa relação com Guilherme DelRio em cena? Por trás da comicidade, você enxerga em Bixete uma figura movida por afeto, admiração, sobrevivência ou pela necessidade de pertencer a algum lugar?
Fabiano Costa: Eu construí essa personagem junto com Guilherme DelRio de uma forma muito simples, pois já conhecemos o trabalho um do outro. Temos já uma grande parceria e já conhecemos o trabalho um do outro. A construção da Bixete, eu e o Guilherme construímos as personagens dentro de uma relação de lealdade, companheirismo e fidelidade. E falando ainda sobre a construção da “Bixete”, sim. Eu acredito que é uma figura movida por afeto, admiração e sobrevivência.

Rodolfo Abreu: A história de Aguinaldo Silva recupera uma Lapa de outro tempo, habitada por artistas e outros personagens que viviam à margem da sociedade enfrentando um tempo difícil, no período da ditadura, que é claramente mostrada na peça. Como você se preparou para entrar nesse universo? O que mais o interessou em Bixete e o que gostaria que o público percebesse nele para além das situações engraçadas?
Fabiano Costa: Eu me preparei em cima de estudos. Para entender esse universo da Lapa antiga, busquei estudar a vida de pessoas sofridas e perigosas. O que mais me interessou na minha personagem, a “Bixete”, foi a lealdade com a personagem do meu querido amigo e ator Guilherme DelRio, a “Débora Kar “. O que eu gostaria que o público percebesse na minha personagem, ” Bixete”, é a ética que é a ética personagem possui e acima de tudo, o companheirismo e a lealdade com “Débora Khar”.

Rodolfo Abreu: Na peça “Em Nome do Filho”, você interpretou Odetinha, um personagem inserido em uma comédia que aborda a diversidade sexual. Como foi realizar esse espetáculo e o que ficou marcado em você enquanto estava em cartaz com essa peça?
Fabiano Costa: Sim. Na peça “Em nome do filho”, eu interpretei a “Odetinha”. Realizar esse espetáculo foi algo maravilhoso para mim. Acredito que recebi um presente do meu grande amigo Guilherme DelRio. Sempre foi o meu sonho interpretar s um personagem homossexual. O que foi marcante para mim quando eu estava em cartaz com esse espetáculo, foi a alegria do público com a personagem “Odetinha”. Tanto eu quanto o público, amávamos o companheirismo e a verdadeira amizade que a “Odetinha” tinha com a “Liuba”.


Rodolfo Abreu: Tanto na peça “Em Nome do Filho”, quanto agora, em “Lábios que beijei”, fica evidente uma dimensão cômica na interpretação. O humor parece ser uma ferramenta importante na sua trajetória. Como você constrói o tempo da comédia? É algo intuitivo ou resultado de muito estudo, observação e experimentação?
Fabiano Costa: Eu sou um ator que faço de tudo. Faço comédia, drama, melodrama, enfim, tudo. Eu construo o tempo da comédia em cima do tempo real, é claro que na comédia, temos que ser rápidos. A comédia tem o seu tempo específico, se não perceber o tempo certo da comédia, não tem mais graça. Com certeza para isso acontecer é algo intuitivo e também resultado de muito estudo, observação e isso também é experimentação. A minha profissão de ator vai me dando essas qualidades.

Rodolfo Abreu: Você tem nanismo e construiu uma trajetória que passa por diferentes linguagens artísticas. Como essa condição atravessou suas oportunidades profissionais? Você sente que os diretores e produtores conseguem enxergar suas possibilidades como ator para além de papéis associados à comicidade ou à própria deficiência? Que mudanças ainda são necessárias no mercado para que artistas com nanismo tenham acesso a personagens mais diversos?
Fabiano Costa: Sim, sou portador de nanismo. Em algumas oportunidades profissionais pediram essa minha condição, porém confesso que na maioria das vezes o mais importante nas minhas oportunidades profissionais, foi a minha capacidade de atuar, de saber trabalhar e de verdadeiramente saber executar a minha profissão de ator. Saber realmente realizar o meu ofício. Em relação aos diretores e produtores, eles conseguem enxergar com toda certeza as minhas possibilidades como ator e não pela minha deficiência, não por eu ser um PCD. Para os diretores e produtores, eu posso fazer todos os personagens, independente da minha condição de PCD. A mudança precisa mudar no audiovisual principalmente. É necessário mais oportunidades para atores e atrizes com nanismo.
Rodolfo Abreu: Por um período você trabalhou como “sósia” do Ronaldinho Gaúcho, o “bruxo”, já que existe uma semelhança física com esse jogador de futebol. Inclusive na época você atuou com esse personagem no humorístico “Zorra Total”. Como foi o processo de construção na atuação para ficar mais parecido com esse esportista e como foi a reação do público?
Fabiano Costa: Sim. Trabalhei como sósia do jogador de futebol Ronaldinho Gaúcho. Foi um dos melhores momentos da minha carreira profissional. Na televisão foi o maior destaque da minha carreira profissional. Eu atuei no programa humorístico “Zorra Total”. No processo de construção, eu estudei a vida do jogador Ronaldinho Gaúcho e trabalhei muito em cima da Psicologia humana. O público de forma geral amou o meu trabalho. O público me parava na rua e elogiava a minha atuação. E o público se identificava muito com as histórias contadas no programa humorístico.

Rodolfo Abreu: Quando você olha para a própria trajetória, quais trabalhos, encontros ou oportunidades considera decisivos para chegar ao artista que é hoje? E o que ainda gostaria de fazer: um personagem dramático, um espetáculo autoral, um trabalho de circo, um novo projeto na televisão ou uma experiência artística que ainda não teve oportunidade de experimentar?
Fabiano Costa: Eu sou uma pessoa muito feliz, eu sou um ser humano feliz, porque realizo o que eu amo: a arte de interpretar. Eu acredito que sou um grande ator. Isso me faz muito feliz. Observo a minha trajetória e isso me traz muita alegria.




