Há vozes que se impõem pela potência. Outras, pela delicadeza. A de Wladimir Cabanas (@wladecabanas) parece ter aprendido a fazer as duas coisas — e, sobretudo, a entender que cantar é também uma forma de contar histórias. Primeiro tenor do Corpo Estável do Theatro Municipal do Rio de Janeiro desde 2002, o artista construiu uma trajetória que atravessa a ópera, a música popular brasileira, os musicais e as grandes canções do cinema, sem tratar esses universos como compartimentos separados. Em seu percurso, a técnica lírica encontra a emoção popular e a experiência de palco se transforma em uma espécie de idioma próprio.

Essa liberdade de transitar entre estilos começou ainda em sua formação, quando o contato com uma professora italiana o levou ao estudo da chamada voz natural — caminho que, segundo ele, foi fundamental para desenvolver tanto a voz lírica quanto a popular. O resultado é o que define como um cantor crossover: alguém capaz de percorrer repertórios distintos sem abrir mão da própria identidade. No palco do Theatro Municipal, Cabanas também descobriu que ser tenor de um coro exige algo além de potência: é preciso saber ouvir, misturar-se, interpretar e preservar a voz. Uma escola que, duas décadas depois, continua presente em sua maneira de cantar.

Paralelamente à carreira institucional, o artista desenvolveu uma relação profunda com a música que atravessa gerações. Cauby Peixoto, Altemar Dutra, Agnaldo Timóteo, Julio Iglesias, Frank Sinatra, Tom Jobim e Roberto Carlos aparecem em seu repertório como possibilidades de interpretação. Cabanas prefere deixar de lado a lógica do cover para procurar, em cada estilo, aquilo que pode ser reinventado por sua própria voz. É também nessa relação com a memória que encontra seu público — especialmente aqueles que reconhecem nas canções de outras épocas não apenas melodias, mas pedaços de suas próprias histórias.

Agora, à frente de “As Mais Belas Canções do Cinema”, Wladimir Cabanas aposta justamente nesse poder de evocação. O espetáculo, que chega ao Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea, em 1º de outubro, reúne canções que sobreviveram aos filmes que as consagraram e se transformaram em memória afetiva de diferentes gerações. Com 30 anos como professor de canto, mais de duas décadas de Theatro Municipal e uma trajetória marcada pela versatilidade, ele chega ao palco levando uma convicção simples, mas nada pequena: técnica é fundamental, mas é preciso cantar olhando nos olhos — e fazer a música encontrar o coração de quem está na plateia. Acompanhe a entrevista.

Wladimir Cabanas leva ao Teatro Vannucci o espetáculo As Mais Belas Canções do Cinema, com repertório inspirado em músicas que marcaram diferentes gerações. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Você construiu uma carreira bastante particular, transitando entre dois universos que muitas vezes são tratados como distantes: a música de concerto e a música popular. Em que momento percebeu que não precisava escolher entre esses dois caminhos — e que justamente esse trânsito poderia se tornar uma marca da sua identidade como intérprete?

Wladimir Cabanas:
Quando eu comecei a estudar o canto lírico eu tive a sorte de ter tido  uma professora italiana,  que me passou a técnica da voz natural, significa o desenvolvimento dela para se chegar no lírico, no  que possibilitou o desenvolvimento também da voz popular. Sou  considerado um cantor “Crossover” ou seja, consigo cantar tanto com voz lírica Ópera, concertos, quanto o popular da MPB com voz ” branca” e musicais da Broadway com voz Beting .

Rodolfo Abreu: Em 2002, você ingressou no Corpo Estável do Theatro Municipal do Rio de Janeiro como primeiro tenor do Coro. O que aquele momento representou para você naquele momento e o que permaneceria daquele aprendizado na sua maneira de cantar tantos anos depois?

Wladimir Cabanas: Quando passei no concurso em 2002, senti uma enorme satisfação em fazer parte desse maravilhoso coro que passou a ser uma família para mim. Lá eu tive a experiência de adaptar a minha voz para o formato Coral, significa fazer com que ela se misturasse com o meu naipe de tenor no objetivo de conservar a perfeita sonoridade  ou seja, fazer com que minha voz não se destaque como solista , e o mais importante não exaurir o meu aparelho fonador,  esse detalhe foi muito importante para eu poder cantar horas sem me  cansar ,  pude também desenvolver  o meu lado de ator,  pois  assumimos a forma de um personagem com figurinos, marcação de cena e coreografia.

Wladimir Cabanas durante apresentação musical; ao longo da carreira, o cantor desenvolveu um repertório que transita entre o lírico e o popular. — Foto: Divulgação
Wladimir Cabanas em cena, em uma trajetória marcada pela interpretação, pela técnica vocal e pelo cuidado com a presença de palco. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Você já interpretou personagens de ópera bastante diferentes no repertório lírico dos espetáculos que você participou. Existe alguma personagem ou obra que tenha provocado uma transformação particular em você — não apenas como cantor, mas como homem de palco?

Sim já representei diversos personagens de ópera das quais O Conde de almaviva no Barbeiro de Sevilha o Nemorino na ópera o Elixir do Amor,  Eduard na Lucia de Larmermour, Ernesto em D Pascuale, Prince Ramiro na Cenerentola, o personagem que mais marcou a minha carreira artística como cantor lírico foi Nemorino da Ópera L’elisir d’Amor de Donizetti, onde entreguei toda a minha emoção romântica ao personagem que queria conquistar o amor impossível de sua amada Adina, tia famosa área una furtiva lágrima é o ponto alto desta Ópera, onde várias vezes eu fui levado às lágrimas em cena aberta! Particularmente essa Ópera, realizada em março deste ano de 2026,  no projeto Ópera do meio-dia no teatro Municipal do Rio de Janeiro, esse papel fez com que eu resgatasse a leveza da minha voz e  os Fasetones que remetem ao Bel canto.

Rodolfo Abreu: Sua trajetória popular passa por nomes como Cauby Peixoto, Altemar Dutra, Agnaldo Timóteo, Júlio Iglesias, Frank Sinatra, Tom Jobim e Roberto Carlos. O que você procura quando decide homenagear um grande intérprete: a fidelidade ao original ou a possibilidade de descobrir algo daquele artista dentro da sua própria voz?

Wladimir Cabanas: Ao contrário dos cantores covers, que “imitam” aquele cantor com suas roupas características e vozes para que o timbre fique parecido, eu faço exatamente o contrário, ao homenagear esses cantores maravilhosos eu procuro cantar com a minha voz de tenor procurando imitar a linha de canto deles ou seja o estilo de cantar de cada um. Por exemplo, no caso do Cauby eu coloco um vibrato mais acelerado, no caso do Roberto Carlos, eu faço uma voz mais suave sem vibrato, procurando dar a minha identidade artística a cada um deles, muitas vezes colocando meus recursos vocais que permitem maior extensão e dinâmica diversificada!

Wladimir Cabanas transita entre diferentes estilos e repertórios, da música popular ao canto lírico. — Foto: Divulgação
Além da carreira nos palcos, Wladimir Cabanas atua há 30 anos como professor de canto, com trabalho voltado ao desenvolvimento da voz natural. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Você também atua há cerca de três décadas como professor de canto e desenvolve uma abordagem voltada à valorização da voz natural. Depois de tantos anos ensinando outras pessoas a encontrar a própria voz, o que pode dizer dessa sua atuação?

Wladimir Cabanas: Há 30 anos atuando como professor de canto , pude desenvolver meu método próprio, baseado na voz natural  com abordagens de fonoaudiólogos e de outras técnicas que  procuro atualizar. A técnica vocal é uma arte que está em constante evolução, cada pessoa tem seu processo e cabe a mim  desenvolver esse potencial. Dar aulas de canto pra mim é um sacerdócio em que procuro passar com “atalhos” toda a sabedoria que me foi ensinada.

Rodolfo Abreu: No espetáculo “As Mais Belas Canções do Cinema” você parte de músicas que carregam não apenas melodias, mas também imagens, personagens e memórias. Para você, o que torna uma canção capaz de ir além do filme e continuar contando uma história na cabeça de quem a escuta?

Wladimir Cabanas: A escolha desse título foi exatamente para causar na plateia uma sensação de nostalgia e de emoção através dos filmes que marcaram suas vidas, minha interpretação é toda voltada ao ambiente dos filmes como se através da minha voz e da minha expressão eu pudesse transportar o público para a estória.

Rodolfo Abreu: Como foi a escolha do repertório desse show, já que há centenas de músicas que foram trilhas de filmes e provavelmente muita gente deve fazer pedidos especiais? E como está sua expectativa para a apresentação do show no Teatro Vannucci?

Wladimir Cabanas: A escolha do repertório foi pensando em várias gerações, das mais antigas às mais atuais, passeando pelas músicas que ganharam o Oscar e principalmente visando as mais conhecidas e bonitas do grande público.

Rodolfo Abreu: Existe uma diferença entre cantar uma grande canção e interpretar uma grande canção. Depois de uma carreira tão ligada à ópera e também à música popular, o que você considera indispensável para que uma interpretação realmente emocione — técnica, experiência, memória, vulnerabilidade?

Wladimir Cabanas: Eu acho imprescindível para se conquistar um bom resultado é ter, além de uma boa técnica vocal, a emoção romântica. Não só a habilidade vocal, é olhar no olho das pessoas da plateia e fazer com que a música atinja o coração de cada um.

Rodolfo Abreu: Você tem revisitado repertórios de artistas de outras gerações justamente em um momento em que a música parece cada vez mais dominada pela velocidade e pelo consumo imediato. Há, para você, algum tipo de resistência cultural em continuar cantando músicas que exigem escuta, interpretação e memória?

Wladimir Cabanas: O meu público alvo é da terceira idade, pois eu também me encontro nela. Me  identifico com a música antiga e tenho um  feedback  positivo. Encontro nesse público, carente por música de qualidade, uma aceitação muito grande do meu repertório. Confesso que tenho dificuldades de gostar e aceitar as músicas atuais. Sou saudosista e tenho como meta levar as músicas de outrora.

Wladimir Cabanas durante apresentação, unindo técnica vocal e interpretação em uma carreira construída entre diferentes gêneros musicais. — Foto: Divulgação

Rodolfo Abreu: Depois de mais de duas décadas no Theatro Municipal e de uma trajetória paralela construída em torno de diferentes gêneros e homenagens, que Wladimir Cabanas está chegando hoje ao palco — o tenor que aprendeu a dominar a voz, o cantor popular que aprendeu a conversar com o público ou o artista que finalmente descobriu que essas duas coisas sempre fizeram parte da mesma pessoa?

Wladimir Cabanas: Todas as experiências me ensinaram a respeitar sempre o público, no sentido de estar sempre muito bem trajado, com as músicas de cor, ter uma presença de palco satisfatória, às vezes contar uma anedota para diverti-los, beber água sempre num copo elegante em uma mesa ao lado, saber dosar o volume da voz. Aprendi todos esses cuidados ao longo da minha carreira e estou muito feliz e com muitas expectativas para realizar meu próximo trabalho, obrigado.

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Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

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