Quem passa hoje a pé pelo Largo do Machado talvez não imagine que, no final do século XIX, aquela região abrigou alguns dos debates científicos e culturais que movimentavam a Corte. No prédio onde atualmente funciona o Colégio Estadual Amaro Cavalcanti se reuniam professores, médicos, engenheiros, intelectuais e muitos cariocas interessados em ouvir sobre os mais variados assuntos. Entre os frequentadores encontrava-se, inclusive, o próprio imperador D. Pedro II, reconhecido pelo interesse que dedicava às ciências.

Largo do Machado, em 1906, em registro de Augusto Malta. — Foto: Augusto Malta / Acervo do Instituto Moreira Salles²

É curioso pensar nessa paisagem. O Largo do Machado que hoje atravessamos apressadamente, entre o comércio, o metrô e o movimento intenso de pessoas, fazia parte da antiga Freguesia da Glória.  Foi ali que funcionou uma escola pública localizada na antiga Praça Duque de Caxias. Vale acrescentar que a escola fazia parte do conjunto conhecido como “Escolas do Imperador”, construídas durante o reinado de D. Pedro II para a instrução pública.

Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, uma das antigas “Escolas do Imperador”. — Foto: Sturm / Wikimedia Commons³

O espaço passou também a abrigar as Conferências Populares da Glóriaque se tornariam um importante evento cultural da Corte. Aos domingos, às onze horas da manhã, parte da sociedade carioca se dirigia à Glória para ouvir falar de literatura, medicina, história, geografia, botânica, educação e das novas teorias científicas que circulavam naquele final do século XIX.

D. Pedro II, imperador do Brasil, em retrato de 1876. — Foto: Library of Congress / Wikimedia Commons⁴

A chamada “tribuna da Glória” transformou-se em um espaço de debates públicos e reuniu diversas figuras que circulavam pelos ambientes intelectuais, científicos e políticos da cidade. Por ali passaram nomes importantes da época como Joaquim Nabuco, Ramiz Galvão, Joaquim Monteiro Caminhoá, Joaquim Murtinho e Amaro Cavalcanti. Caminhoá chegou a ministrar conferências sobre botânica e, em 1875, o médico Augusto César de Miranda Azevedo levou para aquele espaço as discussões em torno das ideias de Charles Darwin, que começavam a provocar intensos debates no Brasil, o que demonstra como o país sempre esteve antenado com as novidades vindas de fora.

Joaquim Nabuco, um dos nomes que passaram pelas Conferências Populares da Glória, em retrato de cerca de 1886. — Foto: Alfredo Ducasble / Coleção Francisco Rodrigues⁴

Apesar do nome “Conferências Populares”, o seu público era formado em grande parte pela sociedade letrada da Corte. Professores, estudantes, escritores, representantes da imprensa, homens e muitas mulheres assistiam às apresentações, apesar de não haver registro delas como palestrantes. Mesmo quando o assunto era a educação feminina, eram os homens que falavam sobre elas. Muitos jornais anunciavam as conferências, bem como repercutiam os assuntos discutidos. Aliás, a própria denominação “popular” chegou a ser até questionada pela imprensa da época, muito em razão do perfil social daqueles que frequentavam.

Foi nesse ambiente de circulação de ideias que, em 25 de fevereiro de 1883, um grupo se reuniu na Escola da Glória para fundar uma nova instituição: a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro.

A escolha daquele lugar não parece ter sido por acaso. A Escola da Glória já se encontrava associada à realização de conferências e aos debates científicos. A nova Sociedade surgia com a intenção de promover os estudos geográficos e reunir informações sobre um território que, apesar de sua enorme extensão, ainda era bem pouco conhecido em muitas de suas regiões.

Conhecer o Brasil constituía, naquele momento, um verdadeiro desafio.

Era preciso reunir mapas, relatos de viagens, informações sobre rios, serras, populações, limites, clima, atividades econômicas e inúmeras outras características do território. A Geografia aparecia, portanto, como um conhecimento importante para uma sociedade que procurava conhecer e representar o próprio país

Paço Imperial, no Centro do Rio de Janeiro. — Foto: Donatas Dabravolskas / Wikimedia Commons⁶

Entre seus integrantes estavam professores, engenheiros, militares, médicos, políticos e homens ligados ao aparelho de Estado. Muitos deles pertenciam simultaneamente a outras instituições científicas e culturais. Era um pequeno mundo intelectual que circulava pela cidade e encontrava nesses espaços lugares de encontro, debate e construção de projetos.

A Sociedade de Geografia também manteria relações com o próprio imperador. D. Pedro II participava de conferências e sessões e, quando não comparecia, podia ser representado pelo seu genro, o Conde d’Eu ou pela sua filha, a Princesa Isabel.

Princesa Isabel, por volta de 1870, filha de D. Pedro II e uma das representantes da família imperial nas atividades ligadas à Sociedade de Geografia. — Foto: Joaquim Insley Pacheco / Domínio público⁷

A instituição não permaneceria para sempre na Escola da Glória. Ao longo de sua história, passaria por diferentes endereços no Centro do Rio. Mas foi na Glória que essa história começou.

Poucos dos que passam por ali diariamente imaginam que, há quase cento e cinquenta anos, aos domingos pela manhã, pessoas se dirigiam àquele lugar para ouvir falar de literatura, medicina, botânica, geografia e até das ideias de Darwin. Ou que, entre os ouvintes, poderia estar o próprio D. Pedro II. Muito menos que, em fevereiro de 1883, seria fundada ali uma instituição dedicada a conhecer e estudar o território brasileiro.

De certo modo, portanto, houve um tempo em que o Largo do Machado foi um lugar onde se discutia ciência, ainda que para um grupo exclusivo da sociedade carioca.

Esta coluna se baseia na pesquisa desenvolvida pela autora para o livro O lugar da Geografia Brasileira: a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro entre 1883 e 1945 (São Paulo: Annablume, 2013).


Crédito das imagens

1. Augusto Malta / Acervo Instituto Moreira Salles / Domínio público / Wikimedia Commons

2. Augusto Malta / Acervo do Instituto Moreira Salles / Domínio público / Wikimedia Commons

3. Sturm / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons

4. Library of Congress / Wikimedia Commons

5. Alfredo Ducasble / Coleção Francisco Rodrigues / Domínio público / Wikimedia Commons

6. Donatas Dabravolskas / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons

7. Joaquim Insley Pacheco / Domínio público / Wikimedia Commons

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Luciene Carris é colunista da Revista Vislun, doutora em História pela UERJ e pesquisadora da história do Rio de Janeiro. Seus textos conectam passado e presente com linguagem acessível e olhar crítico sobre a formação da cidade.

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