Nesta entrevista, conversamos com a diretora e atriz internacional Larissa Maxine sobre sua trajetória artística e profissional entre o Brasil e a Austrália. Ao longo da conversa, ela fala sobre o curta-metragem The Stain, sua estreia na direção, inspirado em histórias de mulheres imigrantes e conflitos familiares no contexto migratório. A artista também reflete sobre o mercado audiovisual nos dois países, sua experiência em produções internacionais e os desafios de construir uma carreira como atriz imigrante. Além disso, Larissa comenta sobre seus trabalhos com nomes importantes de Hollywood e sobre como sua formação acadêmica e atuação social influenciam sua visão de arte e cinema. A entrevista aborda ainda seus planos de dividir a carreira entre diferentes países e projetos futuros.


Chico Vartulli – Seu curta The Stain fala sobre o drama de uma mãe imigrante que quer recuperar seu filho que está com o pai no país dele. Essa é uma situação que você viu acontecer no período que mora na Austrália?

Larissa Maxine – Não foi uma única inspiração, mas sim uma série de histórias que vi e escutei. Ao longo dos anos vivendo na Austrália, vi de perto mulheres imigrantes que entraram em disputas familiares com leis diferentes e, muitas vezes, relações de poder muito desiguais. A maternidade em contexto migratório costuma ser romantizada, mas existe uma camada dura, silenciosa, que envolve isolamento, medo, perda de direitos e solidão. The Stain nasce desse território. E retoma a narrativa para vozes que são silenciadas.

Chico Vartulli – Em que se inspirou para fazer o curta?

Larissa Maxine – O filme se inspira em relatos reais, em observação social e também em um interesse antigo por narrativas onde o conflito não é explícito, mas estrutural. Falar sobre uma violência que não deixa marcas visíveis e sobre como o silêncio pode ser uma forma de opressão. É um thriller psicológico, mas enraizado em algo muito concreto. É minha estreia como diretora e foi feito com muito carinho, ainda que em pouquíssimo tempo. Entre escrever e gravar foram apenas 3 semanas. Já o processo de edição e colour grading foi bem mais complicado, quase 6 meses de trabalho. Eu queria muito trabalhar com o Lincoln Barela (Buzz CCS) e a agenda dele era super corrida, mas fizemos acontecer! O filme está lindo e super emocionante e agora está pronto para correr festivais ao redor do mundo.

Larissa Maxine é a protagonista e estreia na direção com o curta “The Stain”.

Chico Vartulli – Você passou seis anos na Austrália. Como vê o mercado de trabalho aí? Dá para comparar com o Brasil? Quais os prós e os contras?

Larissa Maxine – São mercados muito diferentes. A Austrália tem uma indústria extremamente organizada, com regras claras, sindicatos fortes e estruturas sólidas, especialmente para grandes produções. Por outro lado, é um mercado mais fechado, onde o acesso pode ser lento e limitado. No Brasil, apesar de menos recursos, existe mais porosidade criativa, mais espaço para autoria e para múltiplas funções. A improvisação gera invenção. Na Austrália, você aprende profissionalismo extremo; no Brasil, aprende a criar apesar de tudo. Eu sinto falta das cores e barulhos das ruas brasileiras, nossa arte é forte e hoje mais do que nunca se firma em uma posição de respeito. O plano é poder dividir meu tempo entre os dois universos, acredito que a arte brasileira faz bem para nossa alma.

Chico Vartulli – O que essa bagagem internacional acrescentou em você e como acha que isso pode ser aproveitado no mercado brasileiro?

Larissa Maxine – Essa experiência me deu rigor, método e visão de processo. Aprendi a trabalhar em ambientes altamente hierarquizados, multiculturais e de grande escala, sem perder a escuta sensível. No Brasil, isso pode se traduzir em projetos mais estruturados, em pontes internacionais e em uma atuação que dialoga tanto com o cinema autoral quanto com produções maiores. Além de ter trabalhado com grandes nomes de Hollywood, eu aprendi outras técnicas que podem ser utilizadas na televisão e no cinema brasileiro.

Chico Vartulli – Você está voltando para o Brasil. Qual o balanço que faz desses seis anos na Austrália?

Larissa Maxine – Não é uma volta definitiva, pretendo dividir meu tempo entre Oceania e América Latina, estando aqui (na Austrália) no verão e no inverno no Rio de Janeiro. Espero realizar o sonho da maioria, que é viver o sol o máximo de tempo possível. Minha agência nos EUA, Austrália e Nova Zelândia continuará a mesma – Suzie Steen – com quem tenho uma ótima relação e sempre trabalhei super bem. E no Brasil, estou em uma conversa avançada com a minha antiga agente (darei mais informações quando esse contrato estiver certinho). Esses anos aqui foram a realização de uma série de sonhos e coisas que nunca imaginei que poderiam acontecer: mestrado, televisão e cinema… tive testes de elenco enormes, como por exemplo uma cena de ação com o Russell Crowe, entre vários outros nomes. Foi uma conquista enorme, além, é claro, de aprender com os australianos como levar uma vida com foco na saúde e no bem-estar.

Chico Vartulli – Muitos filmes de Hollywood são produzidos na Austrália. Como foi participar dessas produções?

Larissa Maxine – Foi uma experiência fundamental para entender a engrenagem do cinema industrial. Trabalhar em sets desse porte te ensina disciplina, precisão e respeito ao coletivo. Ao mesmo tempo, reforçou em mim o desejo de contar histórias mais íntimas, onde o risco artístico ainda é possível.

Curta brasileiro “The Stain” de Larissa Maxine, é selecionado para cinco festivais internacionais.

Chico Vartulli – Como é a vida de uma atriz imigrante buscando trabalho na Austrália?

Larissa Maxine – É uma vida de resistência. Existe talento, existe formação, mas também existem barreiras muito objetivas: visto, sotaque e redes de contato. Você aprende a se reinventar o tempo todo, a ocupar espaços alternativos e a desenvolver uma resiliência enorme. Em boas semanas, eu tinha uma média de 10 a 20 testes de elenco. É muita coisa, é uma dedicação enorme à arte.

Chico Vartulli – Como foi trabalhar com Sam Raimi em “Send Help”?

Larissa Maxine – Trabalhar com o Sam Raimi foi uma aula de cinema. Teve um momento em que ele me entregou o script, pediu para eu abrir na página 7 e improvisar os movimentos e falas. Eu fiz, e quando terminei ele gostou do que apresentei, marcou a câmera nesses movimentos e então a Rachel McAdams fez a cena. Uma oportunidade única.

Chico Vartulli – E com Shane Black e Mark Wahlberg em “Play Dirty”?

Larissa Maxine – Foi uma experiência completamente diferente, muito ligada à energia do cinema de ação e à dinâmica de grandes produções. Shane Black tem um timing narrativo muito preciso, e observar isso de perto foi extremamente enriquecedor. São ambientes onde cada detalhe é calculado. Eu fui stand-in da Rosa Salazar nas cenas de ação, mais especificamente nas cenas da batida do carro. Foram 16 carros completamente destruídos, começamos a gravar às 19h e só terminamos às 6 da manhã. E o Mark Wahlberg é o tipo de ator que faz questão de cumprimentar todo mundo no set, uma pessoa muito legal de trabalhar.

Chico Vartulli – Você tem mestrado com foco em sobreviventes de violência doméstica e também fez trabalhos para a Chayn, uma organização que oferece cursos e assistência online para sobreviventes de traumas. De onde vem esse seu lado?

Larissa Maxine – Vem de uma inquietação antiga com histórias que costumam ser silenciadas. Sempre me interessou entender como o trauma se manifesta no corpo, na linguagem e nas relações. Meu trabalho artístico e acadêmico caminham juntos: ambos tentam criar espaço para quem foi empurrado para fora da narrativa oficial. Para mim, cinema também é escuta. Os números de violência doméstica são alarmantes, tanto no Brasil quanto na Austrália, e criar essa rede de apoio entre mulheres, para mulheres, é também uma forma de acolher e melhorar a vida umas das outras. Essa conexão entre a parte acadêmica e a arte, além do meu trabalho como drama-terapeuta, culmina no The Stain. É arte como manifesto político e libertário. A arte pode mudar vidas.

Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação

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Arquiteto, dedicado a interiores, com pós-graduação em Berlim e curso de decoração em Londres, amante da arte e cultura.

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