O texto de Claudia Valli é em formato musical, poético, relaciona teatro e artes plásticas, mistura realidade e ficção, ancestral, crítico, reflexivo, humanista, memorialístico, decolonial, antirracista, antiapagamento da trajetória dos artistas pretos, resistência, sensível e contemporâneo.

O texto busca evidenciar a presença negra na arte brasileira, por meio da trajetória de dois artistas pretos, Arthur Timótheo da Costa e João Timótheo da Costa. E a dramaturgia apresenta uma narrativa que busca superar uma história antes contada na ótica hegemônica branca. O texto se opõe à sujeição dos corpos negros e, consequentemente, valoriza a trajetória dos irmãos Timótheo da Costa e a arte produzida por esses sujeitos. Ela é de qualidade e refinamento estético e se constitui como sinônimo de pluralidade e diversidade.

Além de tirar do universo sombrio do esquecimento e do apagamento, e iluminar com as “luzes” do conhecimento cênico trajetórias de valor e de importância, a autora também nos apresenta a formação desses homens pretos; as suas referências artísticas; o mecenato imperial; as suas produções; a sociabilidade social e cultural da cidade do Rio de Janeiro na virada do Império para a República; a reforma urbana de Pereira Passos; a amizade com letrados como Paulo Barreto, codinome João do Rio; a deterioração da saúde mental e o processo de enlouquecimento e apagamento no Hospital dos Alienados. Fatos de vidas intensas e significativas, mas que acabaram esquecidos, produto direto da exclusão e do racismo estrutural, marcas permanentes da sociedade brasileira.

No ímpeto de reconstruir essas vidas pretas que importam, a personagem Irene, interpretada por Jeniffer Dias, com uma atuação de qualidade, deixa transparecer o seu esforço em juntar os fragmentos dessas trajetórias, tão lacunares, mas que valem a pena ser narradas.

Os Irmãos Timótheo da Costa são interpretados por Sérgio Kauffmann, que encena Arthur, e por Luciano Quirino, que faz João. Eles têm atuações comoventes e de qualidade. Eles interpretam e emocionam. Dominam o texto e o palco. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, eles têm atuações destacadas e merecedoras de elogios.

Os atores Lucas da Purificação e Pablo Áscoli interpretam adequadamente diversos personagens relacionados ao contexto da trajetória dos irmãos Timótheo da Costa.

Os irmãos Timótheo. Crédito: Kessis Sena

Todos os integrantes do elenco cantam de forma afinada e com entonação. Não são exímios cantores, mas também não comprometem. Eles são acompanhados por músicos instrumentistas.

A direção é de Luiz Antonio Pilar, que, mais uma vez, traz aos palcos vidas de pretos que tiveram importância para a vida cultural brasileira. E ele faz com determinação, ao imprimir emoção ao espetáculo, direcionando o elenco para uma atuação comovente e empolgante.

Os figurinos criados por Rute Alves são criativos, de bom gosto, adequados ao contexto do texto e facilitam o deslocamento dos atores pelo palco.

A cenografia criada por Cachalote Mattos é bem planejada e original. Ela é constituída por uma mesa e cadeira, espaço de atuação da personagem Jeniffer. Por sua vez, há três telas holográficas em formato quadrangular com rodinhas. Os atores interagem com as mesmas o tempo integral, movimentam as telas, mudando suas respectivas posições no palco, interpretam no seu interior e são exibidas imagens das pinturas dos referidos pintores, bem como fotografias diversas relacionadas ao texto. O efeito é bastante interessante e apresenta um bonito visual.

A iluminação criada por Daniela Sanchez apresenta um bonito desenho de luz e contribui para realçar a interpretação dos atores de seus personagens. Ademais, a luz cria e marca o ritmo e o dinamismo do espetáculo. Ela varia de acordo com o contexto das cenas, complementando as falas dos atores e produzindo uma sensação de envolvimento.

A direção musical e composições originais são de Muato, que nos apresentou canções ritmadas, que remetem ao rap, e com letras que contribuem para o entendimento do texto. Integram a trilha sonora também as canções de Henrique Alves de Mesquita, avô dos irmãos Timótheo da Costa.

Texto, elenco, direção, figurinos, cenografia e trilha sonora formam um conjunto equilibrado e proporcional, dando a excelência do espetáculo.

Excelente produção cênica!

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Alex Gonçalves Varela é historiador, professor do Departamento de História da UERJ, e autor de diversos enredos para escolas de samba, tendo sido autor dos enredos campeões do carnaval de 2006 e 2013. É autor de livros e artigos.

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