O texto de Matéi Visniec é estruturado em diversas partes curtas e independentes, que se processam de forma veloz, sem uma cronologia demarcada, e mesclam momentos de humor e tensão. Caracteriza-se também por ser humanista, denso, poético, metafórico, questionador, reflexivo, engajado e contemporâneo. Apresenta profunda reflexão sobre a condição humana e as complexidades do mundo atual. É crítico dos totalitarismos, dos processos de lavagem cerebral e defensor dos processos revolucionários e da resistência. Também é crítico da sociedade capitalista liberal, que valoriza o mercado e o indivíduo em detrimento do humano e do coletivo.

As narrativas curtas e independentes são interpretadas por um ou mais atores. São homens e mulheres de uma estranha sociedade que não conseguem se comunicar e criam sistemas cada vez mais absurdos e complexos para se protegerem uns dos outros. Ainda assim, há diálogos que falam de poesia, amor e Deus.

O elenco é constituído por cinco integrantes: Dani Barros, Guida Vianna, Júnior Vieira, Marcelo Aquino e Mario Borges. Eles têm uma atuação de qualidade e merecedora de elogios. Estão unidos, entrosados e afinados, complementando-se em cena. Interpretam com qualidade e emocionam. Dominam o texto, apresentando-o de forma clara e revelando momentos de humor crítico e tensão. Também dominam o palco, movimentando-se intensamente e preenchendo todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, têm uma atuação consistente, comovente e empolgante.

O Homem Decomposto, fotos Nil Caniné

No nosso ponto de vista, as partes que mais tiveram evidência foram aquelas executadas individualmente pelo ator Mario Borges, que permanece preso a um círculo ao qual ninguém pode entrar, e a parte da invasão de uma cidade por borboletas que se alimentam de carne humana, realizada pela atriz Dani Barros. Ao fim da interpretação comovente e empolgante, em que a atriz deixou transparecer todo o seu humor e deboche, Dani foi aplaudida de forma intensa pelo público presente.

A direção de Ary Coslov é competente. Ele focou no texto e deu liberdade aos atores para interpretar os seus personagens.

Os figurinos criados por Wanderley Gomes são macacões de variadas cores, imperando o bom gosto do figurinista de sempre e facilitando o deslocamento dos atores pelo palco.

A cenografia é simples e mínima. É constituída por uma mesa e bancos, além de cadeiras nas laterais, onde os atores se sentam quando não estão em cena.

A iluminação criada por Aurélio de Simoni apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas.

Texto, elenco, direção, cenografia, figurinos e iluminação formam um conjunto coerente e equilibrado, conferindo excelência ao espetáculo.

Excelente produção cênica!

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Alex Gonçalves Varela é historiador, professor do Departamento de História da UERJ, e autor de diversos enredos para escolas de samba, tendo sido autor dos enredos campeões do carnaval de 2006 e 2013. É autor de livros e artigos.

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