Redigir um texto cujo tema seja o Alzheimer não é uma tarefa fácil para nenhum dramaturgo, pois trata-se de um assunto duro, triste, doloroso e amargo.
Contudo, ao criar uma produção sobre o tema, Thiago Marinho demonstrou competência ao elaborar uma trama familiar que alterna momentos de riso e divertimento com períodos de forte tensão dramática. Tendo como ponto de partida um encontro familiar para comemorar o aniversário da matriarca acometida pela enfermidade, o autor constrói um texto alegre, humanista, contemporâneo e reflexivo. A narrativa é divertida e cômica, mas também tensa, deixando transparecer como as relações familiares se transformam quando um de seus membros é atingido pela doença. Segredos guardados vêm à tona, mágoas são expostas, tramas se revelam e tramoias são criadas. Enquanto a mãe já não está mais presente neste mundo, seus três filhos se digladiam, revelando valores éticos e morais questionáveis — para além da figura do cunhado corrupto.

O elenco apresenta uma atuação notável, digna de muitos elogios. Lucas Drummond, Roberta Brisson e Rodrigo Fagundes interpretam os irmãos Victor, Joana e Luiz. O ator Diego Abreu vive Cláudio Márcio, marido de Joana. O grupo está unido, entrosado e afinado, interpretando com qualidade e emoção. Os atores fazem rir, emocionam e contagiam a plateia. Dominam o texto com clareza, utilizando uma linguagem acessível e simples. Também dominam o palco, movimentando-se intensamente e preenchendo todos os seus espaços. Estabelecem uma comunicação direta e eficaz com o público, resultando em atuações sólidas e consistentes.
A figura da mãe não é interpretada por nenhuma atriz. Em cena, há apenas uma cadeira de rodas vazia. Os atores dirigem suas falas a esse espaço simbólico, como se ali estivesse presente a figura materna.
A direção de Thiago Marinho apresenta marcações certeiras e precisas, conduzindo com sensibilidade a comovente interpretação dos atores e de seus personagens.
A supervisão de direção é de João Fonseca.
Os figurinos são adequados, compostos por roupas do cotidiano, e facilitam a movimentação dos atores pelo palco.

A cenografia é criativa, bem organizada, funcional e bem distribuída no espaço cênico. Representa o apartamento onde vivem a matriarca e o filho Luiz, interpretado por Rodrigo Fagundes. Na sala, há uma mesa com cadeiras e um deck para a televisão. Estruturas de madeira vazadas, com elementos decorativos, cumprem a função de paredes.
A iluminação apresenta um bonito desenho de luz, contribuindo para realçar a interpretação dos atores. Além disso, marca o ritmo e o dinamismo do espetáculo, variando de acordo com o contexto das cenas e complementando as falas.
O Formigueiro é um excelente espetáculo, que mescla riso, alegria, dor, carinho e afeto.
Uma produção cênica excelente e imperdível.


