Coro e Orquestra Sinfônica do TMRJ, sob a direção musical e regência de Victor Hugo Toro. Ele conduziu com firmeza, deixando transparecer o equilíbrio e a harmonia entre o coro e a orquestra.

Carmina Burana é baseada no verso erótico de um antigo manuscrito chamado Codex latinus monacensis, encontrado num mosteiro da Baviera em 1803. O códice continha poemas em latim medieval, cuja autoria é atribuída aos chamados goliardos, grupo de homens pensantes formado por estudantes pobres que viviam em constantes viagens de uma cidade para outra.

Aqueles pensadores irreverentes, rebeldes e imorais, que faziam críticas ferozes a todas as classes sociais, além de defenderem os prazeres da bebida, do amor e do jogo, não eram bem vistos naquele mundo medieval. Era um tempo em que o pensamento teocêntrico predominava e a hierarquia religiosa ditava as regras. Aqueles ousados, como os goliardos, eram perseguidos e sofriam as piores punições. Mas suas ideias, que defendiam os diversos prazeres associadas às críticas à Igreja Católica, deixaram eco e se perpetuaram.

Seguindo o release do espetáculo divulgado pela assessora de imprensa Claudia Tisato, Carmina Burana é “um espetáculo de estrutura contínua, com participação cênica tanto do coro como dos solistas, além de bailarinos e artistas das mais diversas especialidades e procedências. Não seria inadequado dizer que estamos apresentando Carmina Burana em formato de ópera-balé”.

A ópera-balé é estruturada em um prólogo e dois atos.

No prólogo, predomina um conjunto de figurinos que remete às vestimentas de indivíduos simples, todos esfarrapados, constituindo um bonito visual. Por sua vez, o coro está todo de preto. Esses grupos encontram-se localizados na parte traseira do palco.

Concomitantemente, na parte dianteira, os reis e nobres são lançados num moedor, que representa a roda da fortuna, e são moídos. Os que um dia estiveram reinando também decaem, para que outros possam ascender ao topo. A roda da vida gira, levantando uns e derrubando outros. Aparecem as figuras do anjo e do diabo. Predomina uma cenografia escura.

Aos poucos ocorre a passagem daquele ambiente sombrio para outro, onde começa a aparecer a luz, e bailarinos vestindo malhas brancas.

O primeiro ato, “Primo Vere”, celebra a chegada da primavera e o renascimento da natureza: flores, folhas e cores, animais. Bonita apresentação dos bailarinos. Ganha destaque a Rainha da Primavera, feita por Manuela Roçado, que transmitiu emoção e beleza, com uma técnica de qualidade.

Os figurinos apresentam tons claros, sobretudo o verde. Há borboletas rosas. Cenografia com flores grandes e coloridas, bolas coloridas e iluminação em vários tons.

O segundo ato, “In Taberna” e “Cours d’Amour”, é uma catarse geral: vibrante, contagiante e emocionante. Celebra o vinho, o jogo e a vida boêmia, como também o amor, a beleza e a paixão. O público foi ao delírio! No ambiente da boate, com sua iluminação de globo de espelhos, vários estilos coreográficos foram realizados e diversos agentes sociais estavam lá presentes, como as drag queens, passistas, vogue, pole dance, burlesco, break dance, passinho e circense. Momento de diversidade, contagiante e empolgante!

O elenco é integrado por cantores de qualidade, ganhando destaque Michele Menezes, que representou a noite, num figurino preto e branco, esbanjando sensualidade e um canto bonito, afinado e eloquente; e o divertido e hilário cisne, feito por Guilherme Moreira. E Santiago Vilalba se apresentou com qualidade e canto vibrante e potente como o louco.

A coreografia criada por Bruno Fernandes e Mateus Dutra remete à diversidade de estilos, indo do clássico aos mais diferentes estilos como vogue, pole dance, burlesco, drag, passinho, entre outros.

A direção cênica, correta e adequada, é de Bruno Fernandes e Mateus Dutra, que souberam associar ópera e balé numa apresentação notável.

A cenografia, criativa, de bom gosto e clean, é de Bruno Fernandes e Matheus Simões.

Os figurinos, coloridos, originais e adequados à movimentação dos integrantes do espetáculo, foram criados por Desirée Bastos.

A iluminação, criada por Jonas Soares, é boa e apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação do elenco. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as atuações.

Carmina Burana é uma cantata cênica inspirada em versos medievais que apresenta uma montagem primorosa, vibrante e contagiante, e mescla música, balé e canto, com elenco de qualidade; figurinos, cenografia, coreografia, iluminação e coro conectados, formando um belo conjunto.

Excelente produção cênica!

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Alex Varela é colunista da Revista Vislun, historiador e professor da UERJ, com foco em cultura. Seus artigos trazem análises críticas, cobertura de espetáculos e exposições, além de reflexões sobre o cenário cultural brasileiro contemporâneo.

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